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O Irã conseguirá ser uma potência nuclear?


Figura disponível em https://apuedge.com//wp-content/uploads/Irans-nuclear-weapons.jpg

Os EUA e os seus aliados, notadamente Israel e a Arábia Saudita, têm uma grande preocupação que o Irã consiga realizar um enriquecimento de urânio que permita a produção de armas nucleares, e com isso se torne uma potência nuclear, o que poderia trazer mais instabilidade e imprevisibilidade para a região do Oriente Médio.

Convém mencionar que os dois principais aliados dos EUA naquela região, israelenses e sauditas, vivem uma disputa geopolítica com os iranianos. Ademais, os estadunidenses consideram o Irã uma ameaça aos seus interesses no Golfo Pérsico.

Nesse sentido, o Blog vem acompanhando o cenário geopolítico nessa importante região do globo, por meio dos seus artigos constantes na Seção Oriente Médio. Dentre eles, sugerimos a leitura das matérias abaixo, visando com o que leitor possa ter uma contextualização da problemática nuclear na região:


  • "Guerra fria muçulmana: Arábia Saudita x Irã", de 09 de abril de 2020, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/guerra-fria-muçulmana-arábia-saudita-x-irã, dissemos que caso o Irã desenvolvesse armamento nuclear, ocorreria uma escalada ainda maior da crise, pois a Arábia Saudita também iria querer dispor do mesmo armamento, o que deixaria o ambiente na região muito mais tenso.


  • "O aumento da tensão entre Israel e Irã: possível ataque, pelos EUA, ao programa nuclear iraniano?", de 11 de dezembro de 2020, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/o-aumento-da-tensão-entre-israel-e-irã-possível-ataque-pelos-eua-ao-programa-nuclear-iraniano, afirmamos, dentre várias análises apresentadas no artigo, que a tensão entre Israel e o Irã estava num nível alarmante e que qualquer atitude mais agressiva poderia desencadear um conflito militar com consequências muito graves para a região. Além disso, achamos que era baixa a probabilidade de que ocorresse um ataque aéreo estadunidense à central nuclear iraniana sem dados fidedignos sobre o nível do enriquecimento do combustível nuclear iraniano.


  • "A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte II - "olho por olho", será que todos ficarão cegos?", de 20 de abril de 2024, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel-parte-ii-olho-por-olho-será-qu, apresentamos várias conclusões, dentre elas destacamos que, a partir de agora, as ações e reações serão muito bem pensadas, pois a região esteve à beira de um grande conflito, em que todos perderiam, e que foi fruto de uma ação mal calculada (ataque ao consulado); e que o ataque iraniano ao território israelense moldará, a partir de agora, as ações e reações entre estes países, inaugurando uma nova era geopolítica na região.


Nesse cenário, em 27 de maio de 2024, a Agência Internacional de Energia Atômica- AIEA, por meio do seu relatório sigiloso "Verification and monitoring in the Islamic Republic of Iran in light of United Nations Security Council resolution 2231 (2015), including Iran’s compliance with the Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA)", reportou que o governo de Teerã conseguiu, em teoria, enriquecer urânio em quantidade que permitiria produzir armamento nuclear. No relatório consta que os iranianos possuem 142 kg de urânio enriquecido a 60%, e que tecnicamente seria muito rápido e simples que eles consigam atingir 90%, o que permitiria a fabricação de armas nucleares com maior potência, conforme podemos ver nas palavras de Andrea Stricker, que é uma das diretoras da Foundation for Defense of Democracies (FDD)’s Nonproliferation and Biodefense program:


Now they [Iran] have enough, at the 60% level, to make almost four nuclear weapons. And that material can be used directly in a nuclear device, if a country chose, and then there's enough for probably more than 13 weapons overall, and they can fabricate that into weapons grade uranium within around five months. Then it would take additional time, at least six months for them to be able to fabricate that fuel into a crude nuclear device. And then even longer, perhaps more than a year, to be able to put it on a ballistic missile. Basically, once you get to 20%, you have done most of the work on a technical level, and then it's only a matter of days, for example, to transfer 60% enriched uranium to weapons grade. And that's what we're looking at, a very short breakout time, perhaps less than seven days to make the weapons grade uranium for one bomb” (fonte: https://www.iranintl.com/en/202405270333)

Figura disponível em https://www.iranintl.com/en/202405270333

Além disso, atualmente, os inspetores da AIEA não conseguem inspecionar o programa nuclear iraniano, pois em 2018 os EUA, durante o governo Trump, suspenderam o acordo de controle nuclear do Irã, Joint Comprehensive Plan of Action - JCPOA feito em 2015 no governo de Barack Obama, e voltaram a aplicar sanções ao governo de Teerã, o que fez com que os iranianos se sentissem desobrigados a autorizar as inspeções, bem como aumentaram o enriquecimento do urânio.

No site do Institute for Science and International Security pode-se ter acesso aos principais pontos do relatório da AIEA, bastando acessar o link: https://isis-online.org/uploads/isis-reports/documents/Analysis_of_May_2024_IAEA_Iran_Verification_Report_May_31_2024_Final.pdf

A figura abaixo nos mostra o mapeamento do programa nuclear do Irã:

Figura disponível em https://thebulletin.org/2024/04/why-iran-may-accelerate-its-nuclear-program-and-israel-may-be-tempted-to-attack-it/

O Irã sempre negou a sua intenção de fabricar armas nucleares, por intermédio do "nuclear fatwa", de 2010, em que o líder supremo iraniano alegou que isso era proibido moralmente pela religião islâmica. Entretanto, recentemente, o governo alegou que somente fabricaria armas nucleares se a sua existência estivesse ameaçada.

Em nossa opinião, é evidente que um possível armamento nuclear iraniano quando aliado a sua tecnologia de mísseis balísticos, já demonstrada no ataque contra Israel, seria a estratégia de dissuasão do Irã contra os israelenses e os estadunidenses.

É digno de nota que os iranianos têm estabelecido uma boa defesa antiaérea em suas infraestruturas nucleares, principalmente contra possíveis ataques aéreos de Israel e dos EUA.

Nesse contexto, os EUA, conforme noticiado em várias mídias da imprensa internacional, estariam tentando coordenar com os seus aliados europeus novas sanções aos iranianos, visando conter o programa nuclear iraniano, o que em nossa visão tem poucas chances de sucesso, pois o Irã, assim como a Rússia, têm conseguido sobreviver as pressões ocidentais, devido as parcerias que vêm realizando com os países não alinhados ao Ocidente.

Em nossa opinião, apesar de não acreditarmos em "teorias de conspiração", o relatório da AIEA surge no momento em que todo o cenário internacional tem os "olhos" voltados para o conflito entre Israel e o Hamas, em que a população palestina tem sido a principal vítima. Dessa forma, o relatório contribuirá para que uma parte atenção do Ocidente se volte para o Irã, podendo diminuir a pressão sobre Israel.

Caso o relatório da AIEA contenha informações confiáveis e verdadeiras, acreditamos que alguns cenários, todos negativos para a segurança e a paz internacionais, possam ser factíveis:

  • Israel poderá efetuar um ataque de grande intensidade contra as infraestruturas nucleares iranianas, sob a desculpa de evitar um futuro ataque nuclear contra o seu território. Isto poderia deflagrar uma guerra na região que fugiria ao controle; e

  • A Arábia Saudita tentará a todo custo conseguir um armamento nuclear, seja por meio de parceria com os EUA ou com o Paquistão, o que tornaria a região mais instável, pois teríamos duas ditaduras teocráticas antagônicas com armas nucleares. Essa situação não é confortável para os israelenses. Entretanto, com base na história contemporânea, como podemos ver: no período da Guerra Fria, no caso entre a Índia e o Paquistão etc, não haveria o uso de armas nucleares, ficando sempre a ameaça latente e imprevisível, em que pese que a região teria três países nucleares (Israel, Irã e Arábia Saudita) que não possuem boas relações.

Assim sendo, acreditamos que o segundo cenário tem a maior probabilidade de ocorrer.

O Blog é de opinião, segundo as análises apresentadas neste artigo, que o Irã conseguirá se tornar uma potência nuclear, caso o relatório da AIEA seja verdadeiro, o que trará mais instabilidade e imprevisibilidade para o Oriente Médio, e em consequência para o mundo.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 28/05/2024:

Matéria de 29/05/2024:

Matéria de 07/05/2024:

Matéria de 22/04/2024:

Matéria de 08/03/2021:


2 Comments


Jefferson
Jefferson
Jun 03

Na minha opinião talvez o Irã já disponha de sua arma nuclear ou esteja realmente muito próximo de obtê-la. Embora seu programa nuclear sofra restrições e atrasos provocados por tratados e resoluções e também pela sabotagem constante de Israel (como no caso do assassinato daquele cientista que era considerado o "pai da bomba" iraniana), o Irã entende que a dissuasão nuclear é a mais eficiente contra seus principais antagonistas (EUA e Israel). Além do mais, a participação nos BRICS pode acabar alavancando a cooperação entre os países membros nesta área. É sabido que Rússia, China e África do Sul são mais favoráveis a restrição de programas nucleares, mas Brasil, Índia e Irã são mais alinhados a um uso nuclear para…


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Muito obrigado pela sua a análise. Excelente. Fraterno abraço

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