Poder Naval Russo: em busca de maior protagonismo. Parte II.


Figura disponível em: https://static.dw.com/image/58632802_303.jpeg

O Blog em seu artigo, de 17 de junho de 2021, intitulado "Rússia: a principal ameaça a paz e a segurança internacional no atual cenário mundial", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/rússia-a-principal-ameaça-a-paz-e-a-segurança-internacional-no-atual-cenário-mundial, informou que a Rússia por sua agressividade e imprevisibilidade geopolítica deve ser considerada como a principal ameaça a paz e a segurança internacional. Além disso, afirmou que os russos estão tentando ampliar a sua influência no mundo, notadamente na África e na América do Sul. Dessa forma, alertou que era importante acompanhar com atenção os movimentos russos no nosso Entorno Estratégico, pois poderemos ser impactados na problemática estadunidense-europeia-russa.

Sendo assim, temos acompanhado, por meio da nossa Seção Rússia, acessível em https://www.atitoxavier.com/my-blog/categories/r%C3%BAssia, que essa potência militar está influenciando na transição para uma nova ordem mundial, também analisado pelo Blog. Nesse sentido, o advento do conflito na Ucrânia vem ratificando as nossas análises.

Nesse cenário, é interessante olharmos mais atentamente para o Poder Naval russo, em virtude do seu desempenho no conflito ucrânio-russo, bem como ele poderá ser impactado.

Dessa forma, sugere-se ao leitor a releitura dos nossos artigos abaixo, visando contribuir com a análise do tema:

- "Poder Naval Russo: em busca de maior protagonismo", de 26 de julho de 2021, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/poder-naval-russo-em-busca-de-maior-protagonismo;

- "Poder Naval: Força de Submarinos Russa - maior ameaça submarina da atualidade", de 08 de fevereiro de 2021, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/poder-naval-força-de-submarinos-russa-maior-ameaça-submarina-da-atualidade;

- "A nova base russa e a sua importância geopolítica", de 30 de novembro de 2020, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-base-russa-e-a-sua-importância-geopolítica; e

- "A importância da Síria para a Rússia", de 12 de maio de 2020, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-importância-da-síria-para-a-rússia.

O bom desempenho russo na campanha ao sul da Ucrânia, na região costeira do Mar Negro, demonstra a importância estratégica que a região possui para os russos, e principalmente para o seu Poder Naval, como consta no documento assinado por Vladimir Putin, em 20 de julho de 2017, que versa sobre a política e a estratégia naval para a marinha russa, abordando as visões para os níveis estratégico e operacional e as principais ameaças, bem como traz o aprimoramento e a evolução da estratégia naval russa de 2015, além de informar as perspectivas de futuro até 2030, como a modernização de seus meios navais e da intenção de construir outros meios, como porta-aviões.

Dessa forma, com base no documento, podemos entender a importância estratégica da Crimeia, e de toda a região no entorno, bem como o papel da marinha russa com ataques com mísseis de alta precisão as infraestruturas críticas da Ucrânia.

O documento citado, que é intitulado "Fundamentals of the State Policy of the Russian Federation in the Field of Naval Operations for the Period Until 2030", está disponível no Blog por meio do link https://de9abb8c-83aa-4859-a249-87cfa41264df.usrfiles.com/ugd/de9abb_81a1361d994f436e8ee064bcaad6db14.pdf, e que recomendamos a leitura. Nele é possível ver claramente as percepções russas sobre as disputas territoriais marítimas que vêm ocorrendo no mundo e que estão alinhadas com as análises do Blog por meio do artigo "Análise da pesquisa sobre possíveis tendências e cenários, até 2040, que podem impactar o Brasil", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/análise-da-pesquisa-sobre-possíveis-tendências-e-cenários-até-2040-que-podem-impactar-o-brasil.

Outrossim, o documento expressa a preocupação russa com a sua segurança, e afirma que a ameaça vem do oeste (OTAN), bem como elenca os EUA como o grande adversário. Ademais, estabelece as regiões de maior prioridade estratégica como o Ártico, Mar Negro, Mar Mediterrâneo e o entorno do Atlântico, além de alguns pontos focais, daí entendermos o motivo de estabelecimento de base naval no Sudão e na Síria. Além disso, expressa o que deve ser feito para manter a marinha russa como a segunda maior marinha do mundo, o que já é muito discutível, em virtude da ascensão do poder naval chinês, que é a atualmente a maior marinha do mundo em termos de número de navios.

Outro ponto que chama atenção é a importância que o documento revela sobre a relevância da prontidão de suas forças navais, onde pode ser exemplificado pela crise militar no Mar Negro entre russos e a OTAN (proximidades da Crimeia). O Blog analisou o caso em seus artigos:

- "Rússia e Reino Unido: tensão no Mar Negro - qual a verdade dos fatos?", de 28 de junho de 2021, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/rússia-e-reino-unido-tensão-no-mar-báltico-qual-a-verdade-dos-fatos; e

- "Exercício Sea Breeze 2021: mensagem à Rússia sobre a questão ucraniana. Tensão aumenta no Mar Negro", de 02 de julho de 2021, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/exercício-sea-breeze-2021-mensagem-a-rússia-sobre-a-questão-ucraniana-tensão-aumenta-no-mar-negro.

Destarte, podemos inferir que os russos precisam ter uma força naval forte no seu entorno estratégico.

Seguem alguns trechos do documento:


"Competition between states to gain access to the natural resources of the World Ocean has recently intensified, as have the aspirations of a range of states to gain control over strategically important sea lines of communication. Under increasing intensity of the use of the World Ocean for economic and military purposes, the political significance of these factors becomes global. Leading world powers, possessing significant naval capabilities and an extensive network of military installations, continue to build up their naval presence in the vital areas of the World Ocean, including waters adjacent to the territory of the Russian Federation. [...] During the period until 2030, an unstable military and political situation in the world is anticipated, which will be characterized by increased global competition, rivalry between the world’s centers of power, instability of political and economic processes occurring against a backdrop of escalation in international relations and energized activity of the transnational terrorist groups [...] the aspiration of a range of states, primarily the United States of America (USA) and its allies, to dominate on the World Ocean, including the Arctic, and to achieve overwhelming superiority of their naval forces; the existence of territorial claims of foreign states to the Russian Federation in coastal zones and adjacent waters; the increase in the numbers of states that have combat-capable powerful navies;[...] economic, political, international legal, and military pressure against the Russian Federation to reduce efficiency of its maritime activities on the World Ocean, and weaken its control over the Northern Sea Route, which is historically established as a national sea line of communication of the Russian Federation"


No estudo do documento vemos que os russos não elencam, de forma direta, como prioridade a projeção de poder, mas a deterrência e a capacidade de infligir sérios danos aos possíveis agressores à soberania russa, bem como de cooperar com a manutenção da boa ordem no mar. Além do citado, ao ler atentamente todo o documento, podemos perceber a importância da Diplomacia Naval* para russos, e do uso do seu Poder Naval como um dos instrumentos de sua política externa:


"The main objectives of the State Policy on Naval Operations are: a) maintaining naval capabilities at a level that guarantees deterrence of aggression against the Russian Federation from the oceans and the seas, and the ability to inflict unacceptable damage on any potential adversary; b) maintaining strategic stability and international law and order on the World Ocean, including through effective employment of the Navy as one of the main instruments of foreign policy of the Russian Federation; c) ensuring favorable conditions for the development and sustainable use of natural resources of the World Ocean in the interests of the country's socio-economic development."


* maiores detalhes sobre Diplomacia Naval podem ser obtidos no artigo "A Força Naval como um instrumento da diplomacia: Diplomacia das Canhoneiras e Diplomacia Naval", de 19 de agosto de 2021, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-força-naval-como-um-instrumento-da-diplomacia-diplomacia-das-canhoneiras-e-diplomacia-naval .


Nesse sentido, vemos que a Rússia vinha conseguindo ter sucesso na modernização do seu Poder Naval, fazendo com que voltasse a ter protagonismo no cenário internacional. Com isso, ele tem contribuído em grande medida para o bom desempenho militar russo ao sul da Ucrânia, bem como neutralizou a marinha ucraniana.

Entretanto, o documento estabelece metas muito ambiciosas para a economia russa, que é fundamental para atender os investimentos em modernização e na construção de meios navais modernos. Cabe frisar que as atuais e severas sanções econômicas impostas aos russos poderão impactar gravemente na implementação de tais metas até 2030.

Tal possibilidade poderá, também, impactar no desejo do governo russo em possuir uma marinha com capacidade global, com a finalidade de atingir os seus objetivos estratégicos estabelecidos no documento.


"The primary armament of the undersea, surface and coastal forces of the Navy through 2025 will be long-range high-precision cruise missiles. After 2025, hypersonic missiles and various unmanned autonomous systems, including unmanned underwater vehicles, will be supplied to equip the undersea, surface, and coastal forces of the Navy. There are plans to establish a naval aircraft carrier, advanced combat surface ships and submarines (combat platforms), and new-generation deep-sea marine systems, and deploy maritime unmanned autonomous systems to perform a large variety of combat and support missions. By 2030 the Russian Federation must possess powerful balanced fleets in all strategic areas consisting of ships intended to carry out missions in near and far sea zones and ocean areas, as well as naval aviation and coastal forces equipped with effective high-precision strike weapons, and advanced basing and supply system."


Além disso, o afundamento de um dos seus principais navios, o cruzador de mísseis Moskva, conhecido como "matador de porta-aviões", durante o seu reboque, após sérias avarias, foi um grande baque para o Poder Naval russo, que com certeza abalou o moral da sua marinha.

Um item que é interessante no documento, e que confirma a importância que a África possui para os russos, é no tocante a menção do Golfo da Guiné, que está localizado no nosso Entorno Estratégico. Abaixo seguem os trechos sobre a nossa afirmação:


"It is also important to note that this document also signals areas of potential cooperation with the Russian Federation. These ares include counter-terrorism cooperation, law enforcement activities, and counterpiracy missions, especially in the Gulf of Guinea. Cooperation to better ensure the safety of maritime activities as well as environmental sustainability and natural resource management, issues also mentioned prominently in Russia’s 2015 Maritime Doctrine, likewise receive attention here. [...] Requirement for the naval presence of the Russian Federation in strategically important and other areas of the World Ocean is also determined by the following threats: [...] the spread of piracy in the Gulf of Guinea, as well as in the waters of the Indian and Pacific Oceans."


O Blog é de opinião de que a Rússia estava obtendo sucesso em fazer com que o seu Poder Naval voltasse a ser protagonista no cenário internacional, mas que devido as severas sanções econômicas e tecnológicas impostas pelo mundo ocidental, o seu planejamento de constituir uma Força Naval com presença global até 2030 está bastante comprometido.

Dessa forma, acreditamos que aumentará a sua dependência econômica do seu principal parceiro estratégico, a China, que será fundamental para manter o que foi conquistado até agora, como já havíamos afirmado.

Agora é importante acompanhar como o governo russo fará para manter o seu Poder Naval relevante, bem como para implementar a sua visão de futuro para a sua Força Naval.

Como reflexão, seria interessante analisar se a política de modernização e de implementação do atual poder naval russo seria interessante como um possível modelo para a Marinha do Brasil, pois temos em comum: economias do mesmo porte, dimensões continentais, população de tamanho considerável (o Brasil possui população maior), necessidade de defender a soberania, principalmente as riquezas no mar, e de usar a Diplomacia Naval, e o desejo de independência tecnológica militar.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para ajudar em nossa análise:

Matéria de 29/05/2018:

Matéria de 28/06/2019:

Matéria de 27/06/2016: