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Será o governo cubano o próximo a cair?

Introdução

O cenário geopolítico na América Latina atingiu um ponto alto de preocupação no início de 2026 com os eventos envolvendo a Venezuela — em particular a captura e detenção de Nicolás Maduro pelas forças armadas dos EUA em Caracas, sua transferência para o território estadunidense para julgamento em um tribunal federal, e a reação global subsequente.

Esses desenvolvimentos não são meramente regionais; constituem uma ruptura radical nas normas internacionais de soberania e relações interestatais na região, gerando debates jurídicos e políticos intensos sobre o uso de força e a legalidade de intervenções diretas.

À sombra desses eventos, apresentamos a seguinte questão: será em Cuba o próximo governo a cair? Essa interrogação demanda uma análise que articula: a dependência crítica de Cuba em relação à Venezuela (especialmente no fornecimento de petróleo); a reconfiguração da presença e da estratégia dos EUA no Caribe; o impacto dessa dinâmica sobre as condições econômicas e sociais em Havana; e a resiliência histórica e institucional do regime cubano.

Ao olharmos o mapa abaixo podemos ver a importância estratégica de Cuba para os EUA:

Nos parágrafos a seguir, serão explorados contexto histórico, dependências energéticas, dimensões econômicas e sociais, a estratégia dos EUA e possíveis cenários futuros para o regime cubano, articulando argumentos sustentados por fontes confiáveis e análises estratégicas.

Para tanto nos baseamos, principalmente, nos nossos artigos abaixo:

- “A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA: Redefinição das Esferas de Influência e a Venezuela como Laboratório Geopolítico nas Américas”, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-estratégia-de-segurança-nacional-dos-eua-redefinição-das-esferas-de-influência-e-a-venezuel;

- “Seria a Venezuela um novo Iraque?”, disponível em  https://www.atitoxavier.com/post/seria-a-venezuela-um-novo-iraque;

- “A influência das ORCRIM nos Estados da América Latina. Parte V: Diplomacia Naval: EUA x Venezuela”, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-influência-das-orcrim-nos-estados-da-américa-latina-parte-v-diplomacia-naval-eua-x-venezuela; e

- “Será o fim do comunismo cubano e o início de um sistema democrático?”, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/será-o-fim-do-comunismo-cubano-e-o-início-de-um-sistema-democrático

 

I. Cuba, a Venezuela e a dependência energética

A relação entre Cuba e Venezuela é um dos pilares da ordem consagrada na América Latina desde o início dos anos 2000. Cuba, um Estado de partido único de orientação marxista-leninista desde 1959, atravessou repetidas crises econômicas, mas sempre sustentou sua estabilidade institucional graças a alianças estratégicas. Entre essas, a mais significativa foi a parceria com a Venezuela sob Hugo Chávez (1999 – 2013) e depois sob Nicolás Maduro (2013 – 2026), que garantiu fluxos de petróleo — essencial para a economia cubana — em troca de serviços médicos, consultoria militar e de inteligência e outros acordos políticos e simbólicos. Portanto, o acordo petróleo-por-serviços permitiu a Cuba amortecer os efeitos do embargo estadunidense e manter níveis mínimos de funcionamento econômico e social.

Com isso, vemos que essa dependência é estrutural: Cuba não possui reservas significativas de hidrocarbonetos e sua produção doméstica é insuficiente para atender à demanda energética interna. A interrupção ou redução drástica dos fornecimentos venezuelanos teria efeitos diretos sobre mobilidade, geração de eletricidade, produção industrial e serviços básicos, ampliando o stress econômico já sentido pela população.

Com a deposição de Maduro do controle direto do poder — que culminou em sua prisão e julgamento em Nova York — ainda é incerta qual será a real liderança política e institucional, o que poderá ameaçar a continuidade desse fluxo de petróleo. Embora as declarações oficiais estadunidenses enfatizem que a operação visou combater narcoterrorismo e crime organizado, a administração Trump deixou claro que pretende exercer envolvimento direto sobre a produção de petróleo venezuelano sob administração transicional.

Essa disrupção energética pode se traduzir em aflições sistêmicas para Cuba que vão além da mera queda de produção, como: em choques de preços, escassez de insumos e, sobretudo, impacto nas condições de vida da população, criando um terreno fértil para tensões internas elevadas.

Logo, uma ausência prolongada de petróleo compromete transporte, geração elétrica, produção de alimentos, funcionamento hospitalar e logística estatal, criando um ambiente propício à erosão do controle político.


II. A estratégia dos EUA: coerção indireta e cerco estratégico a Cuba

Os acontecimentos na Venezuela devem ser interpretados à luz da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, que redefine de forma assertiva suas esferas de influência no Hemisfério Ocidental. Conforme analisado no artigo “A nova estratégia de segurança nacional dos EUA: redefinição das esferas de influência e a Venezuela”, Washington abandonou a expectativa de transições espontâneas e passou a empregar instrumentos combinados de coerção direta e indireta.

O movimento militar e judicial caracterizado pela detenção de Maduro representa uma quebra de paradigma nas relações internacionais regionais, comparável a casos históricos de deposição de regimes — como a captura de Manuel Noriega no Panamá em 1989 — mas com impactos geopolíticos mais amplos.

Assim, nos parece que os EUA buscam consolidar uma política de coerção híbrida que combine meios militares, legais e diplomáticos para desarticular regimes considerados hostis e garantir maior controle sobre recursos estratégicos. No caso venezuelano, além de neutralizar alegadas redes de narcotráfico e corrupção, há evidências de que o controle de capacidades energéticas e logísticas constitui um elemento de centralidade nessa estratégia.

Em nossa análise, Cuba, assim como a Venezuela, é percebida pelos EUA como uma extensão estratégica da influência russa e chinesa no Caribe e na América Latina. A política externa estadunidense tem historicamente considerado o regime cubano como um núcleo de resistência ideológica e estratégica ao que Washington classifica como sua esfera de influência legítima.

Em nossa opinião, as experiências cubana e venezuelana demonstram que regimes autoritários altamente institucionalizados podem suportar longos períodos de adversidade econômica, desde que mantenham coesão interna, controle sobre os mecanismos de poder e certo apoio externo.

Nesse contexto, em nossa visão, Cuba não é alvo imediato de uma intervenção militar direta, mas de um cerco estratégico indireto, baseado em três vetores principais:

  1. Neutralização de aliados estruturantes, como a Venezuela;

  2. Pressão naval e logística no Caribe ampliado, dificultando fluxos energéticos e comerciais; e

  3. Isolamento político e diplomático progressivo, reforçado por narrativas de violação de direitos humanos e autoritarismo.

O artigo “A influência das ORCRIM nos Estados da América Latina – Parte V: Diplomacia Naval EUA x Venezuela” demonstra como a presença naval estadunidense cumpre papel central nesse processo, não apenas como instrumento militar, mas como mensagem estratégica de dissuasão regional. A mesma lógica aplicada à Venezuela pode ser adaptada, em versão indireta, ao entorno cubano.


III. Fragilidades internas de Cuba e os limites da pressão externa

Apesar do agravamento do contexto externo, é fundamental reconhecer que o regime cubano possui mecanismos de resiliência historicamente testados. Ao longo de mais de seis décadas, Cuba sobreviveu:

  • ao colapso da União Soviética;

  • ao endurecimento do embargo;

  • a crises econômicas profundas; e

  • a mudanças no ambiente internacional.

Convém mencionar que regime cubano para sobreviver mantém:

  • controle institucional do aparato de segurança;

  • capacidade de repressão seletiva;

  • domínio do sistema político-partidário; e

  • narrativa ideológica voltada à resistência e à soberania nacional.

Esses fatores explicam por que pressão externa isolada raramente resulta em colapso imediato. Portanto, vemos que Cuba possui uma resiliência institucional difícil de ser subvertida sem uma crise multifacetada que reúna choque econômico severo, crise de legitimidade política interna e ruptura das principais alianças externas.

Assim, embora o corte ou severa redução dos fluxos de petróleo venezuelano — seja pela incapacidade de produzir e transportar sob um novo arranjo geopolítico ou por prioridades estratégicas estadunidenses — possa criar um choque econômico substancial, há limites à forma como isso por si só produzirá o colapso político imediato do regime cubano.

Com o exposto, podemos inferir que Cuba emerge como o próximo elo vulnerável, mas não necessariamente o próximo a cair, pois diferentemente da Venezuela:

  • Cuba possui maior coesão institucional;

  • menor fragmentação das Forças Armadas; e

  • uma elite política mais homogênea.

Entretanto, a dependência energética crítica, agora sem o respaldo venezuelano, representa um fator estrutural novo. Se não houver substituição rápida e sustentável dessa fonte — seja por aliados, seja por concessões estratégicas —, o regime poderá enfrentar um processo gradual de erosão de legitimidade, capacidade estatal e controle social.

Cabe frisar que, atualmente, o Estado cubano encontra-se muito fragilizado econômica e socialmente.


IV - Cenários possíveis para o futuro de Cuba

Com base na análise dos fatores energéticos, estratégicos, internos e externos, podem ser delineados cenários plausíveis:

1. Continuidade do regime com adaptação econômica: Cuba consegue manter o controle político, mesmo com redução significativa de petróleo, ajustando-se por meio de reformas internas e abertura limitada de mercado para aliviar choques econômicos.

2. Crise prolongada com instabilidade política: Choques combinados de escassez energética e aumento de tensão interna podem levar a protestos persistentes, erosão da coesão estatal e risco de fragmentação política.

3. Colapso abrupto do regime: Uma conjunção de crises internas severas, desertores no alto escalão e intervenção externa concertada pode precipitar o fim do governo cubano de forma relativamente rápida.

Desses cenários, acreditamos que o colapso abrupto representa o caso com menor probabilidade no curto prazo, dada a resiliência estrutural do regime e sua capacidade de controle político.

 

Conclusão

A detenção de Nicolás Maduro e as ações dos EUA na Venezuela constituem um marco geopolítico disruptivo que certamente reduzirá a capacidade de Havana de manter seus suprimentos energéticos e ampliará a pressão externa sobre o regime. Contudo, a experiência histórica cubana mostra que sua estrutura política e institucional é notavelmente resiliente, capaz de sobreviver a choques econômicos profundos.

Portanto, podemos inferir que:

  • é altamente plausível que Cuba enfrente tensões econômicas e sociais acentuadas;

  • é provável que isso resulte em adaptações políticas e negociações internas;

  • mas é improvável, no curto prazo, que o regime caia abruptamente sem uma conjunção de fatores internos adicionais que transcendam a mera disrupção de recursos externos.

Assim, a resposta a questão proposta é que Cuba pode estar se aproximando de um ponto de inflexão, mas não se pode afirmar que será o próximo Estado a ter um governo deposto. Sua trajetória dependerá tanto da evolução da crise venezuelana quanto da capacidade do regime cubano de ajustar seus mecanismos de poder e de produzir respostas internas que preservem sua sobrevivência institucional.

Assim sendo, caso os EUA tenham sucesso em colapsar os regimes venezuelano e cubano, com a consequente substituição por governos alinhados aos interesses estadunidenses, isso implicará no enfraquecimento das influências russa e chinesa no atual entorno estratégico dos EUA, o que será uma vitória geopolítica do governo Trump.

Nesse sentido, é interessante atentar para as possíveis respostas russas e chinesas aos movimentos estadunidenses que visam diminuir as suas influências geopolíticas nas Américas.

Dessa forma, cabe ao nosso país acompanhar com extrema atenção essa manobra geopolítica, pois poderá ser fortemente impactado.


Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 05/01/2026:

Matéria de 06/01/2026:

Matéria 06/01/2025:


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