top of page

O Mar do Caribe como Espaço Estratégico para a Segurança Nacional dos EUA no Governo Trump.

Figura gerada com apoio de IA
Figura gerada com apoio de IA

Introdução

O Mar do Caribe ocupa, historicamente, uma posição central na arquitetura de segurança dos EUA. Desde a consolidação da Doutrina Monroe no século XIX, passando pela Guerra Fria e chegando ao século XXI, esse espaço marítimo sempre foi percebido por Washington não apenas como uma área de interesse, mas como um entorno estratégico vital, cuja estabilidade condiciona diretamente a segurança do território continental estadunidense, o controle das rotas marítimas do Hemisfério Ocidental e a preservação de sua primazia regional.

No atual contexto internacional — marcado por crescente multipolaridade, competição estratégica entre grandes potências, erosão das normas liberais e intensificação das disputas por zonas de influência — o Mar do Caribe reassume um papel de destaque. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos - Doutrina Donroe, no governo Donald Trump (segundo mandato), reafirma uma visão realista e soberanista das relações internacionais, enfatizando a defesa do “espaço próximo” (near abroad), a contenção de potências revisionistas e o combate a ameaças híbridas que se manifestam de forma particularmente intensa na América Central, no Caribe e no norte da América do Sul .

Nesse cenário, atores como China, Rússia e Irã, bem como regimes considerados hostis ou instáveis — com destaque para Venezuela e Cuba — passam a ser enquadrados como vetores diretos de risco à segurança dos EUA. A crescente presença chinesa em infraestrutura crítica, portos, telecomunicações e financiamento estatal na América Latina e no Caribe acende alertas estratégicos em Washington, conforme destacado por análises recentes sobre a atuação de Pequim nas Américas Central e do Sul .

Assim, este artigo tem como objetivo analisar a importância estratégica do Mar do Caribe para a segurança dos EUA, estabelecendo um paralelo direto com a nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, utilizando como arcabouço analítico a Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG), desenvolvida no livro "A Importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI". A análise será conduzida a partir de suas cinco dimensões: Espaço, Força, Tempo, Risco Geopolítico e Inteligência Estratégica, culminando em uma avaliação dos impactos potenciais para o Brasil.

Utilizamos no estudo alguns de nossos artigos, como:


1. Dimensão Espaço: O Mar do Caribe como Entorno Estratégico dos EUA

Sob a ótica da MIAG, o espaço não é um elemento neutro, mas um fator ativo que condiciona possibilidades de poder, projeção e vulnerabilidade. O Mar do Caribe constitui um espaço marítimo semicerrado, conectando o Atlântico Norte ao Canal do Panamá, ao Golfo do México e às rotas comerciais que ligam os EUA à América do Sul, Europa e Ásia.

Geopoliticamente, o Caribe funciona como um anel de segurança avançado do território continental estadunidense. Qualquer instabilidade prolongada nesse espaço — seja política, militar ou econômica — tende a projetar efeitos diretos sobre a Flórida, a costa do Golfo e as linhas de comunicação marítima essenciais para o comércio exterior e o abastecimento energético dos EUA.

Além disso, o Caribe abriga chokepoints estratégicos, como as passagens marítimas próximas a Cuba, Hispaniola e ao arco das Antilhas, fundamentais para o tráfego naval e comercial. O controle ou influência sobre esses pontos confere vantagem estratégica significativa, especialmente em cenários de competição entre grandes potências.

A nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump reafirma explicitamente a noção de esferas de influência, recolocando o Hemisfério Ocidental como prioridade estratégica absoluta, em clara reação à presença crescente de potências extrarregionais, em especial a China.


2. Dimensão Força: Capacidades Militares, Poder Naval e Disputa de Influência

Na dimensão Força, a MIAG enfatiza a relação entre capacidades materiais, disposição política para o uso do poder e credibilidade estratégica. No Caribe, os EUA mantêm uma superioridade militar incontestável, sustentada por bases, acordos de cooperação, presença naval contínua e capacidade de projeção rápida de poder.

Destacam-se:

  • A Quarta Esquadra da Marinha dos EUA, responsável por operações no Caribe e na América Central;

  • Bases e instalações estratégicas em território aliado;

  • Capacidade de vigilância marítima, aérea e cibernética;

  • Integração com agências de segurança interna, especialmente no combate ao narcotráfico e ao crime transnacional.

Entretanto, essa superioridade vem sendo desafiada de forma indireta. A China, por meio de investimentos em portos, zonas francas, infraestrutura logística e tecnologia de comunicações, amplia sua influência estrutural na região, sem recorrer à presença militar direta — uma estratégia típica de poder híbrido .

A Rússia, por sua vez, mantém cooperação militar e de inteligência com regimes como o venezuelano e o cubano, buscando criar pontos de pressão simbólicos e operacionais próximos ao território estadunidense.

A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump interpreta esses movimentos como ameaças estratégicas cumulativas, justificando uma postura mais assertiva, inclusive com sanções, pressões diplomáticas e reforço da presença militar.


3. Dimensão Tempo: Continuidade Histórica e Aceleração Estratégica

A dimensão Tempo permite compreender o Caribe não apenas como um palco conjuntural, mas como um espaço de longa duração estratégica para os EUA. Desde o século XIX, Washington busca impedir que potências rivais estabeleçam presença militar ou política dominante nesse entorno.

O governo Trump tenta resgatar essa tradição histórica, mas em um contexto de aceleração estratégica, no qual mudanças ocorrem em ritmo mais rápido e com maior grau de imprevisibilidade. A instabilidade venezuelana, a crise estrutural cubana e a crescente penetração chinesa criaram uma sensação de urgência estratégica.

4. Dimensão Risco Geopolítico: Ameaças, Vulnerabilidades e Capacidades dos EUA no Mar do Caribe

Na Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG), o risco geopolítico não é tratado como uma percepção subjetiva, mas como o resultado mensurável da interação entre ameaças, vulnerabilidades e capacidades. Essa abordagem permite transcender análises meramente alarmistas ou otimistas, oferecendo uma avaliação mais objetiva da exposição estratégica de um ator estatal.

No caso do Mar do Caribe, o risco para os EUA deve ser compreendido como dinâmico, multidimensional e cumulativo, resultante tanto de fatores tradicionais quanto de ameaças não convencionais e híbridas.


4.1 Ameaças Geopolíticas no Mar do Caribe

As ameaças enfrentadas pelos EUA no Caribe podem ser classificadas em quatro grandes categorias interconectadas:

a) Ameaças estatais indiretas (potências extrarregionais):

A presença crescente da China na América Central, no Caribe e no norte da América do Sul constitui uma ameaça estratégica indireta. Pequim atua por meio de:

  • Investimentos em infraestrutura portuária e logística;

  • Controle ou influência sobre telecomunicações e cabos de dados;

  • Diplomacia econômica associada ao endividamento estatal.

Embora não militarizada de forma explícita, essa presença cria dependências estruturais que podem ser exploradas politicamente em cenários de crise, afetando a liberdade de ação dos EUA.

A Rússia, por sua vez, opera como ameaça de perturbação estratégica, com cooperação militar, assessoria de segurança e operações de inteligência junto a regimes hostis a Washington, especialmente Venezuela e Cuba.


b) Regimes hostis ou instáveis:

Venezuela e Cuba representam ameaças geopolíticas persistentes, ainda que assimétricas. Seus impactos decorrem menos de capacidades militares convencionais e mais de:

  • Alinhamento com potências rivais dos EUA;

  • Uso do território como plataforma de influência política e informacional;

  • Potencial colapso interno com efeitos regionais (migração, criminalidade, instabilidade).


c) Ameaças híbridas e transnacionais:

O Caribe é corredor histórico de:

  • Narcotráfico;

  • Tráfico de pessoas;

  • Contrabando;

  • Lavagem de dinheiro.

Essas ameaças corroem a governança regional, alimentam redes criminosas e criam ambientes permissivos para a atuação de atores estatais e não estatais hostis aos EUA.


d) Ameaças informacionais e cognitivas:

Campanhas de desinformação, narrativas antiestadunidenses e exploração de ressentimentos históricos ampliam o custo político da presença e atuação dos EUA no Caribe, afetando alianças e cooperação regional.


4.2 Vulnerabilidades Estratégicas dos EUA no Caribe

Apesar de sua superioridade estrutural, os EUA apresentam vulnerabilidades relevantes, que ampliam o risco geopolítico quando combinadas às ameaças descritas.


a) Vulnerabilidades políticas e diplomáticas

  • Desconfiança histórica de alguns Estados caribenhos em relação à política externa estadunidense;

  • Percepção de intervencionismo;

  • Dificuldade de manter consenso regional duradouro.

Essas vulnerabilidades facilitam a penetração de narrativas alternativas promovidas por China e Rússia.


b) Vulnerabilidades econômicas e sociais regionais:

A fragilidade econômica de diversos países do Caribe — elevada dependência externa, baixa resiliência institucional e vulnerabilidade a choques — cria ambientes favoráveis à influência de potências extrarregionais, limitando a capacidade dos EUA de moldar decisões estratégicas apenas por meios diplomáticos tradicionais.


c) Vulnerabilidades associadas à sobreextensão estratégica:

Os EUA enfrentam simultaneamente desafios estratégicos na Europa (Rússia), no Indo-Pacífico (China) e no Oriente Médio. Essa dispersão de atenção estratégica pode reduzir a priorização efetiva do Caribe em momentos críticos.


d) Vulnerabilidades migratórias:

Crises políticas e econômicas no Caribe e no norte da América do Sul impactam diretamente a segurança interna dos EUA, especialmente por meio de fluxos migratórios descontrolados, tema sensível no debate político doméstico estadunidense.


4.3 Capacidades dos Estados Unidos no Teatro Caribenho

As capacidades dos EUA no Caribe permanecem robustas, integradas e multifuncionais, sendo o principal fator de mitigação do risco geopolítico.


a) Capacidades militares

  • Presença naval permanente (Quarta Esquadra);

  • Capacidade de projeção rápida de poder;

  • Superioridade em vigilância, ISR (Intelligence, Surveillance and Reconnaissance) e controle do espaço marítimo;

  • Integração entre forças armadas e agências civis de segurança.


b) Capacidades institucionais e de inteligência

  • Ampla rede de inteligência estratégica, operacional e econômica;

  • Monitoramento de investimentos estrangeiros sensíveis;

  • Cooperação com aliados regionais.


c) Capacidades diplomáticas e econômicas

  • Instrumentos de sanção econômica;

  • Programas de assistência e cooperação;

  • Poder normativo e influência institucional em organismos regionais.


d) Capacidades informacionais

  • Controle narrativo relevante;

  • Capacidade de resposta em operações de informação;

  • Influência cultural e midiática ainda dominante na região.


Nesse sentido, utilizando a fórmula da MIAG e com base no Quadro Analítico abaixo, chegaremos a ideia do valor do risco geopolítico dos EUA no Mar do Caribe:


Quadro Analítico – Avaliação do Risco Geopolítico dos EUA no Mar do Caribe

Elemento

Avaliação Qualitativa

Justificativa

Ameaças

Altas

Presença chinesa crescente, regimes hostis, crime transnacional e ameaças híbridas

Vulnerabilidades

Médias

Fragilidades políticas regionais, sobreextensão estratégica e sensibilidade migratória

Capacidades

Altas

Superioridade militar, inteligência integrada, diplomacia ativa e poder econômico

Resultado do Risco

Médio

Capacidades elevadas neutralizam parcialmente ameaças e vulnerabilidades

O risco geopolítico dos EUA no Mar do Caribe é classificado como MÉDIO, não por ausência de ameaças, mas pela capacidade superior dos EUA de antecipar, conter e mitigar riscos. Todavia, trata-se de um risco instável e sensível ao tempo: a erosão das capacidades ou o aumento das vulnerabilidades pode rapidamente elevar esse risco para alto.


5. Dimensão Inteligência Estratégica: Antecipação, Decisão e Controle Narrativo

A dimensão Inteligência Estratégica é central na atual abordagem estadunidense. O Caribe é tratado como um espaço onde a antecipação de cenários é essencial para evitar surpresas estratégicas.

O governo Trump reforça:

  • Monitoramento de investimentos estrangeiros;

  • Inteligência econômica e tecnológica;

  • Cooperação com aliados regionais;

  • Controle narrativo sobre democracia, soberania e segurança.

A disputa no Caribe é, cada vez mais, uma disputa informacional e cognitiva, além de material.


6. Possíveis Impactos para o Brasil

Antes da conclusão, é fundamental avaliar os possíveis impactos para o Brasil, potência regional com interesses diretos no Atlântico Sul, mas que vem perdendo a sua influência na região.

O reforço da centralidade estratégica do Caribe para os EUA pode:

  • Reduzir o espaço de manobra diplomática brasileira em relação a Venezuela e Cuba;

  • Pressionar o Brasil a alinhar-se mais claramente às posições estadunidenses;

  • Intensificar a vigilância dos EUA sobre a presença chinesa em infraestrutura crítica brasileira;

  • Reforçar a importância do Atlântico Sul como espaço complementar ao Caribe na lógica hemisférica de segurança.

Portanto, para o Brasil, compreender essa dinâmica é essencial para evitar decisões reativas e preservar autonomia estratégica.


Conclusão

O Mar do Caribe permanece como um pilar fundamental da segurança nacional dos EUA, agora reinterpretado à luz de uma estratégia mais realista, soberanista e competitiva no governo Trump. A aplicação da Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG) demonstra que espaço, força, tempo, risco e inteligência convergem para reafirmar o Caribe como um teatro estratégico decisivo na disputa pela ordem regional e global.

Para os EUA, controlar o Caribe é proteger o território, garantir rotas vitais e impedir a consolidação de potências rivais em seu entorno imediato. Para o Brasil, trata-se de um alerta estratégico: a estabilidade do Hemisfério Ocidental e o equilíbrio entre autonomia e alinhamento serão cada vez mais desafiados.


Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 27/01/2026:

Matéria de 23/12/2025:

Matéria de 29/10/2025:


Comentários


Mande sua crítica ou sugestão 

Muito obrigado por sua colaboração

© 2020 por Alexandre Tito. Feito Wix.com

bottom of page