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As pérolas inglesas no Atlântico Sul e a sua importância estratégica. Parte III


Figura disponível em https://www.geomar.de/fileadmin/content/service/presse/Pressemitteilungen/2015/tristan_da_cunha.jpg

O Blog acompanha a situação geopolítica do Atlântico Sul, que faz parte do Entorno Estratégico Brasileiro - EEB com atenção, pois sempre considerou a nossa fronteira oriental como a principal vulnerabilidade à segurança e a defesa do Estado Brasileiro, conforme pode ser visto nos artigos que podem ser acessados na nossa Seção Brasil, acessível em https://www.atitoxavier.com/my-blog/categories/brasil.

Nesse sentido, o papel da Marinha do Brasil - MB ganha relevância, sendo importante a presença de seus meios nas nossas águas jurisdicionais, bem como demonstra a importância e premência de termos uma consciência situacional marítima, que seria, smj, por meio do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul - SISGAAz.

Ademais, também é relevante uma eficaz coordenação interagências, com a Polícia Federal, IBAMA, ABIN dentre outros órgãos governamentais, para que a MB possa fazer valer a preservação da nossa soberania, o que pelo Plano Estratégico da Marinha - PEM-2040 disponível em https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/pub_pem_2040/book.html, seria o COMBATE PELO MAR:


Na conjuntura atual brasileira, cabe ressaltar que as atividades extrativistas na Amazônia Azul, materializadas por uma produção oceânica alicerçada na implementação de infraestruturas críticas, têm evocado a necessidade de desenvolvimento de um novo paradigma associado à defesa de interesses marítimos na doutrina naval brasileira, o Combate pelo Mar. Este conceito estratégico marítimo-naval deve privilegiar tanto a interoperabilidade — capacidade de forças militares nacionais operarem, efetivamente, de acordo com a estrutura de comando estabelecida – quanto a capacidade de conduzir operações interagências, que integram as Forças Armadas e outros órgãos com a finalidade de conciliar interesses e coordenar esforços, o que se revela crucial nas vastas porções marítimas e fluviais brasileiras. Nesse sentido, devemos enfatizar o desenvolvimento da capacidade de condução de ações conjuntas, dada a complexidade dos desafios no setor de Defesa e a necessidade de emprego racional de recursos militares, na consecução dos objetivos nacionais. (PEM-2040, pag. 34)


Nesse sentido, dois temas têm sido abordados pelo Blog: presença militar do Reino Unido no Atlântico Sul e a Elevação do Rio Grande - ERG, como podemos ver nos arquivos abaixo, e que recomendamos a leitura, pois ajudará ao leitor entender melhor a relevância dos temas, bem como eles estão interligados:


- "As pérolas inglesas no Atlântico Sul e a sua importância estratégica", de 12 de abril de 2020, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/as-pérolas-inglesas-no-atlântico-sul-e-a-sua-importância-estratégica;

- "Elevação do Rio Grande: oportunidade e vulnerabilidade para o Brasil", de 24 de fevereiro de 2021, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/elevação-do-rio-grande-oportunidade-e-vulnerabilidade-para-o-brasil;

- "Elevação do Rio Grande: oportunidade e vulnerabilidade para o Brasil. Parte II", de 29 de abril de 2023, que pode ser lida em https://www.atitoxavier.com/post/elevação-do-rio-grande-oportunidade-e-vulnerabilidade-para-o-brasil-parte-ii; e

- "As pérolas inglesas no Atlântico Sul e a sua importância estratégica. Parte II", de 21 de junho de 2023, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/as-pérolas-inglesas-no-atlântico-sul-e-a-sua-importância-estratégica-parte-ii.


Como mencionado no nosso artigo "Elevação do Rio Grande: oportunidade e vulnerabilidade para o Brasil", o Brasil conseguiu o direito exclusivo de pesquisa exploratória na ERG por 15 anos, o que poderá dar ao nosso país, no futuro próximo, a extensão de sua Zona Econômica Exclusiva - ZEE, fazendo com que possamos explorar as riquezas presentes no fundo do mar, como as "terras raras" que são estratégicas no desenvolvimento tecnológico. Convém mencionar que em 2018 o Brasil solicitou à ONU o aumento da extensão da sua plataforma continental, incluindo a ERG.

Segue um trecho do artigo da FAPESP, disponível em https://revistapesquisa.fapesp.br/en/revelations-from-a-submerged-archipelago-2/, de agosto de 2019, que corrobora a importância da ERG e tudo o que dissemos:


Located 1,300 kilometers (km) from Porto Alegre the Rio Grande Rise covers approximately 150,000 square kilometers, an area three times the size of the state of Rio de Janeiro, and has depths ranging from 700 to 2,000 meters. Furthermore, the Rio Grande Rise has received increasing study over recent years because of its economic value. In 2015, the International Seabed Authority (ISA) granted the Geological Survey of Brazil (CPRM), a state-owned company linked to the Ministry of Mines and Energy, a 15-year right to investigate the potential for economic exploitation of the ferromanganese crusts in the rock of the rise, which is rich in cobalt, nickel, molybdenum, niobium, platinum, titanium, tellurium, and other chemical elements. In a preliminary survey presented at a 2015 congress in Florida in the United States, the CPRM reported the identification of 9,729 square kilometers with high reflectance (radiation reflection), indicating the likely presence of ferromanganese crusts. In December 2018, the Brazilian government requested that the United Nations extend the legal boundaries of Brazil’s continental shelf beyond 200 nautical miles (370 km) to include the rise.

Nesse contexto, não podemos esquecer da disputa que envolve a Argentina e o Reino Unido pelas Ilhas Falklands, de posse dos britânicos, que continuam sendo pleiteadas pelos argentinos, inclusive ganhando apoio recente da China, o que tem preocupado o governo de Londres, bem como o de Washington. Sugerimos a leitura dos nossos artigos abaixo:


- "40 anos da Guerra das Malvinas - Reflexões para a Defesa Brasileira", de 17 de fevereiro de 2022, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/40-anos-da-guerra-das-malvinas-reflexões-para-a-defesa-brasileira; e

- "Entorno Estratégico Brasileiro: estabelecimento de bases chinesas e seus possíveis desdobramentos II", de 22 de janeiro de 2023, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/entorno-estratégico-brasileiro-estabelecimento-de-bases-chinesas-e-seus-possíveis-desdobramentos-ii


Tais preocupações dos governos anglo-saxões são potencializadas pela intenção argentina de adquirir para a sua força aérea o caça chinês JF-17, que podem ser ratificas pela matéria do site Inteligence Online, de 17 de abril de 2023, intitulada "Top US general travels to Buenos Aires in bid to block China's JF-17 Thunder aircraft deal", disponível em https://www.intelligenceonline.com/international-dealmaking/2023/04/17/top-us-general-travels-to-buenos-aires-in-bid-to-block-china-s-jf-17-thunder-aircraft-deal,109945706-art, bem como pelo site Defense Aerospace, em seu artigo "Argentina is Considering Procurement of JF-17 Fighter Jets: Embassy", de 16 de março de 2023, que pode ser lido em https://www.defense-aerospace.com/argentina-reportedly-considering-procurement-of-jf-17-fighter-jets-china-claims/ , que separamos o trecho abaixo:


"[...] Fu Qianshao, a Chinese military aviation expert, told the Global Times on Wednesday that Argentina has long been seeking to procure new fighter jets to replace its aging and shrinking warplane fleet, but because of the issue of the Malvinas Islands, the UK has blocked Argentina's aircraft procurement attempts on the international market. The UK can lobby Western countries not to sell through diplomatic means, and it can also deter countries like South Korea and India, because their fighter jets use UK parts, including ejection seats, Fu said. China's position on the issue of the Malvinas Islands is consistent, and China firmly supports Argentina's legitimate claim to exercise full sovereignty over the Malvinas Islands, the Chinese Foreign Ministry and the Chinese Embassy in the UK stated last year. That is why the JF-17 is the most available fighter jet to Argentina, Fu said."


Várias mídias de imprensa têm veiculado que o atual governo brasileiro tem a firme intenção de apoiar, por meio de iniciativas do BNDES, os aliados da esquerda argentina na recuperação econômica do país, principalmente devido a proximidade das eleições presidenciais deste ano, visando evitar uma possível vitória da direita argentina, conforme podemos ver a seguir:


- "Com o BNDES, Lula tenta salvar eleição dos aliados na Argentina", de 02 de maio de 2023, disponível em https://veja.abril.com.br/coluna/radar/com-o-bndes-lula-tenta-salvar-eleicao-dos-aliados-na-argentina;

- "Como visita de Lula a Buenos Aires pode ajudar presidente da Argentina em ano eleitoral", de 24 de janeiro de 2023, disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64384246;

- "Presidente Lula recebe Alberto Fernández e celebra integração com a Argentina", de 26 de junho de 2023, disponível em https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2023/06/presidente-lula-recebe-alberto-fernandez-e-celebra-integracao-com-a-argentina;

- "O que será discutido no encontro entre Lula e Alberto Fernández nesta terça-feira", de 02 de maio de 2023, acessível em https://www.cartacapital.com.br/mundo/o-que-sera-discutido-no-encontro-entre-lula-e-alberto-fernandez-nesta-terca-feira/;


Outrossim, o governo do atual Presidente do Brasil sempre apoiou (passado e presentemente) o pleito argentino no tocante a soberania argentina nas Ilhas Falklands (ou Malvinas para a Argentina), e que será manifestado pelo Ministério das Relações Exteriores, como podemos ver na matéria "Lula recebe Alberto Fernández e discute apoio à Argentina", de 27 de junho de 2023, acessível em https://www.dw.com/pt-br/lula-recebe-alberto-fern%C3%A1ndez-e-discute-apoio-%C3%A0-argentina/a-66040269:


"Os três pontos constam de um plano anunciado pelo Itamaraty que incluiu ainda pontos como a criação de um crédito para exportação de blindados pelo Exército Brasileiro e o apoio aos "direitos legítimos" da Argentina na disputa com o Reino Unido pelas Malvinas"


Nesse cenário, em nossa análise, é com certeza absoluta que o Brasil encontrará uma objeção britânica em seu pleito junto à ONU de ampliar a sua ZEE incluindo a ERG, devido aos motivos abaixo:


- apoio brasileiro ao pleito argentino de ter a posse das Ilhas Falklands; e

- inibir a extensão da plataforma continental brasileira, incluindo a ERG, em direção da ZEE do seu arquipélago de Tristão da Cunha, formado por seis ilhas.

Figura disponível em http://historyoftheearthcalendar.blogspot.com/2014/11/november-11-cretaceous-flood-basalts.html

Outrossim, os britânicos também fazem objeções a qualquer pleito argentino de aumento de sua ZEE.

Além disso, no nossos artigos sobre a ERG, afirmamos que o Reino Unido e outros países têm interesses em explorar a região que está sendo pleiteada pelo nosso país.

É importante comentar que Tristão da Cunha, apesar de ser habitada, não possui muitos recursos para apoio logístico militar, pois tem um pequeno porto que não permite a atração de meios navais relevantes e nem de um aeroporto, conforme podemos verificar em https://www.tristandc.com/harbour.php. Entretanto, as suas águas são patrulhadas por navios patrulhas britânicos, ou Fisheries Patrol Vessel - FPV.

Portanto, em nossa visão, a aproximação, cada vez maior, da Argentina com a China, inclusive com mais concessões de instalações de bases chinesas e possível aquisição de moderno caça chinês, aliado com o apoio brasileiro a causa argentina, faz com que o Reino Unido aumente a sua preocupação com a defesa das Ilhas Falklands, em virtude do conflito de 1982, o que pode justificar a recente qualificação da Ilha de Santa Helena para pouso da aeronave C-17 Globemaster, como analisamos no nosso artigo "As pérolas inglesas no Atlântico Sul e a sua importância estratégica. Parte II", pois não podemos esquecer o papel dos bombardeiros britânicos Avro Vulcan no apoio as operações anfíbias.

Em que pese o RU tenha diminuído a sua marinha, possui planos para voltar a ter um protagonismo naval, conforme analisamos em nosso artigo "O retorno do Reino Unido - ressurgimento da potência britânica?", de 23 de novembro de 2020, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/o-retorno-do-reino-unido-ressurgimento-da-potência-britânica, bem como não podemos esquecer do que falamos sobre a AUKUS, quando abordamos a futura classe de submarino que será construída junto com a Austrália, e que pode ser relembrado em "A nova aliança AUKUS, o desbalanceamento do Poder Naval, e os possíveis impactos geopolíticos - II", de 01 de abril de 2023, em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-aliança-aukus-o-desbalanceamento-do-poder-naval-e-os-possíveis-impactos-geopolíticos-ii. Porém, atualmente possui certa dependência do apoio de inteligência e militar do seu principal aliado, os EUA.

É digno de nota que temos afirmado, em nossos artigos, que não é interesse do Brasil que haja o aumento da militarização do Atlântico Sul, daí a importância para o nosso país do conceito da Zona de Paz e de Cooperação do Atlântico Sul - ZOOPACAS.

Logo, com base no que foi exposto, podemos concluir que o Brasil e o Reino Unido têm interesses que apresentam uma "colisão geopolítica", em futuro próximo.

O Blog é de opinião que o governo brasileiro deve analisar com atenção a questão da ERG, e traçar uma estratégia para lidar com essa possível "colisão geopolítica" no futuro próximo, podendo ser de cooperação (como temos feito) ou confrontação, pois há vários atores e interesses envolvidos.

Portanto, faz-se urgente o desenvolvimento da nossa consciência situacional, o aumento da presença da MB em nossa ZEE empregando a cooperação interagências - COMBATE PELO MAR, reverter a obsolescência do nosso Poder Naval - COMBATE NO MAR - como analisamos em "Como planejar uma Marinha de Guerra? Tema para reflexão da sociedade. Parte II: Brasil" (https://www.atitoxavier.com/post/como-planejar-uma-marinha-de-guerra-tema-para-reflexão-da-sociedade-parte-ii-brasil) trabalhando a nossa dissuasão, e uma Comunicação Estratégica que mostre para a sociedade brasileira que o Atlântico Sul não é um "lago de tranquilidade".

Afinal, não podemos esquecer que temos a França na América no Sul, e o Reino Unido no Atlântico Sul, e que ambos têm disposição e postura para defender os seus objetivos nacionais, como o passado sempre mostrou.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para ajudar a nossa análise:

Matéria de 29/06/2023:

Matéria de 12/05/2023. O vídeo confirma a nossa análise da certa objeção britânica sobre a ampliação da nossa ZEE:

Matéria de 13/06/2022:

Matéria de 16/01/2020:

Matéria de 06/09/2022. Esse vídeo mostra a cooperação entre o Brasil e o Reino Unido:

Matéria de 04/05/2012:


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