Acordo de Segurança entre China e Ilhas Salomão: mais um fator de instabilidade no Indo-Pacífico?


Figura disponível em: https://cdn.cnn.com/cnnnext/dam/assets/220325043255-solomon-islands-china-file-2019-super-tease.jpg

A China e as Ilhas Salomão firmaram, em 19 de abril, um acordo de cooperação de segurança, em que a princípio o governo chinês poderá enviar forças de segurança, e até navios, a pedido do governo de Honiara, a fim de auxiliar na manutenção da ordem social nesse país. Além disso, é importante lembrar que as Ilhas Salomão já possuem um acordo de segurança com a Austrália desde 2017. O acordo com Pequim também inclui cooperação em assistência humanitária e em resposta a desastres.

Cabe registrar que o governo do Primeiro-Ministro Sogavare vem enfrentando problemas internos, inclusive com violentos protestos onde alguns deles tiveram como alvo negócios de cidadãos chineses, e que conforme dito pela oposição ao seu governo, o acordo seria importante para que ele se mantenha no poder, bem como seria uma boa oportunidade para a China aumentar a sua influência.

Segue um trecho do pronunciamento do líder da oposição Matthew Wale:


“All the drivers of instability, insecurity and even threats to national unity in Solomon Islands are entirely internal [...] This means that the deal, in giving opportunity to military posturing by China, has nothing to do with Solomon Islands national security. I doubt that the provision for this in the deal is inadvertent, rather it is calculated for geopolitical effect. On the part of Prime Minister Sogavare this is mercenary, on the part of China it is an opportunity too good to miss.”


Convém mencionar que em março houve o vazamento da minuta do acordo, o que provocou grande preocupação por parte dos EUA e, principalmente, da Austrália, pois consideraram o conteúdo do documento muito amplo, e que isso possibilitaria a implementação de uma base naval chinesa nas Ilhas Salomão, e que foi veementemente negado por Sogavare.

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A possibilidade da China possuir instalações militares nas proximidades da Austrália, coloca esse país em alerta máximo, em virtude das recentes tensões entre esses governos, onde o Blog vem acompanhando com os seguintes artigos:

- "A nova aliança AUKUS, o desbalanceamento do Poder Naval, e os possíveis impactos geopolíticos", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-aliança-aukus-o-desbalanceamento-do-poder-naval-e-os-possíveis-impactos-geopolíticos ;

- "A crise sino-australiana: estudo de caso para o Brasil", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-crise-sino-australiana-estudo-de-caso-para-o-brasil ;

- "A crise sino-australiana: estudo de caso para o Brasil, parte II. Não estamos aprendendo", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-crise-sino-australiana-estudo-de-caso-para-o-brasil-parte-ii-não-estamos-aprendendo ;

- "Aliança Índia e Austrália: contenção contra a China", que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/aliança-índia-e-austrália-contenção-contra-a-china ;

Outrossim, esse fato coloca mais pressão nos EUA, que no momento, está com as atenções voltadas para o cenário europeu, em virtude do conflito na Ucrânia, onde vê uma oportunidade para enfraquecer a Rússia.

É digno de nota que os EUA já estavam, e ainda estão, muito envolvidos com as tensões entre a China e os seus aliados no Pacífico Ocidental e Indo-Pacífico, como as problemáticas do Mar do Sul da China, Mar da China Oriental, dentre outras. Nesse sentido, recomendamos a releitura dos nossos artigos "A estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico: reação contra o expansionismo chinês" e "EUA e China: disputa no mar. Tensão constante", que podem ser lidos respectivamente em https://www.atitoxavier.com/post/a-estratégia-dos-eua-para-o-indo-pacífico-reação-contra-o-expansionismo-chinês e https://www.atitoxavier.com/post/eua-e-china-disputa-no-mar-tensão-constante .

A assinatura do acordo supracitado, em nossa análise, reforça a política e postura chinesa de aumentar a sua influência em todo o Pacífico, por meio dos seus soft power (parcerias econômicas etc) e hard power (meios coercitivos), a fim de atingir os seus objetivos geopolíticos e se consolidar como a potência regional no seu entorno estratégico, bem como incrementa a instabilidade na região.

A figura a seguir nos faz relembrar como a região é instável.

Figura disponível em: https://ichef.bbci.co.uk/news/976/cpsprodpb/124A0/production/_124221947_indo_pacific_region_w_solomon_2x640-nc.png

Nas figuras abaixo podemos observar como a China vem ampliando a sua influência nas proximidades da Austrália, e no Pacífico como um todo:

Situação política pró-China em 2019, em desfavor de Taiwan:

Figura disponível em: https://cdn.i-scmp.com/sites/default/files/d8/images/methode/2019/09/13/088b0568-d60b-11e9-a556-d14d94601503_972x_223053.JPG

Situação política pró-China em 2021, em desfavor de Taiwan:

Figura disponível em: https://cdn.i-scmp.com/sites/default/files/d8/images/methode/2021/09/29/6b078fde-20ca-11ec-83d0-b8338c7f9150_972x_103818.jpg

Além disso, podemos inferir que os EUA vêm falhando, já algum tempo, em sua política externa na região, pois atualmente têm adotado uma postura reativa ao expansionismo chinês. Assim, o acordo ratifica a nossa percepção, porque o governo de Washington não possui embaixada nas Ilhas Salomão desde 1993, e com o advento do acordo afirmou a intenção de reabri-la.

No tocante a Austrália, além da preocupação com a sua defesa, o acordo vem no momento das eleições legislativas federais, que acontecerão em 21 de maio, e que poderá impactar no resultado, pois esse fato está sendo muito explorado pelos partidos em disputa. O governo do atual Primeiro-Ministro australiano Scott Morrison, líder do Partido Liberal, possui uma postura bastante contrária aos interesses chineses no país, e vem sendo criticado por ter permitido o acordo entre chineses e salomonenses.

Nesse sentido, tanto os EUA quanto a Austrália vêm realizando pressões diplomáticas no governo das Ilhas Salomão contra o acordo, bem como tentam diminuir o estreitamento dos laços com a China.

O Blog é de opinião de que o acordo entre a China e as Ilhas Salomão traz mais instabilidade à região do Pacífico, e que isso poderá deteriorar ainda mais as relações entre os governos de Pequim e de Camberra, gerando mais tensões e crises.

Além disso, coloca mais pressão geopolítica nos EUA e na Aliança AUKUS, e possivelmente na Aliança QUAD, na contenção do expansionismo chinês no Pacífico, que a nosso ver é inevitável, pois a China, que agora é uma potência, exercerá o seu poder de influência no seu entorno estratégico.

Nos resta acompanhar como será o desenrolar dos acontecimentos numa região tão instável como o Pacífico.

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 25/03/2022 - o vídeo mostra a grande preocupação da Austrália pela visão da Defesa:

Matéria de 19/04/2022:

Matéria de 21/04/2022

Matéria de 29/04/2022:

Matéria de 30/03/2022:

Matéria de 24/03/2022: