A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte VI - Situação após a Guerra Irã–EUA–Israel.
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Introdução
O Blog vem acompanhando os acontecimentos no Oriente Médio por meio da sua seção Oriente Médio, acessível em: https://www.atitoxavier.com/my-blog/categories/ori-m%C3%A9dio. Nesse contexto, iniciamos uma série chamada "A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel", desde 2020. Todos os artigos podem ser lidos no link referenciado. Sugerimos a leitura dos artigos anteriores, pois possibilitará ao leitor ver a evolução dos acontecimentos:
"A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel", de 24 de dezembro de 2020, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel;
"A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte II - "olho por olho", será que todos ficarão cegos?", de 20 de abril de 2024, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel-parte-ii-olho-por-olho-será-qu;
"A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte III - incertezas", de 07 de agosto de 2024, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel-parte-iii-incertezas;
"A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte IV - aberta a Caixa de Pandora", de 06 de outubro de 2024, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel-parte-iv-aberta-a-caixa-de-pandor; e
"A nova configuração do Oriente Médio: bipolaridade Irã x Israel. Parte V: E agora?", de 20 de junho de 2025, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-configuração-do-oriente-médio-bipolaridade-irã-x-israel-parte-v-e-agora.
A atual guerra entre Israel, Irã e EUA, iniciada a partir da escalada militar que culminou nos ataques israelenses contra instalações estratégicas iranianas e na posterior intervenção estadunidense, representa um dos eventos mais significativos da geopolítica do Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003. Mais do que um conflito militar convencional, a crise revelou uma transformação estrutural do sistema regional de poder, expondo a erosão dos mecanismos tradicionais de equilíbrio que, durante décadas, sustentaram relativa estabilidade na região.
A interpretação apresentada por Ian Bremmer em seu artigo The Middle East Enters the G-Zero, disponível em https://www.gzeromedia.com/by-ian-bremmer/the-middle-east-enters-the-g-zero, é particularmente relevante porque desloca o foco da análise do campo de batalha para a arquitetura geopolítica regional. Segundo Bremmer, a principal consequência da guerra não é a vitória militar de um ator específico, mas a consolidação de um Oriente Médio inserido na lógica do "G-Zero", conceito desenvolvido pelo próprio autor para descrever um sistema internacional no qual nenhuma potência possui simultaneamente capacidade, legitimidade e disposição para liderar a ordem internacional.
Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, os EUA desempenharam o papel de árbitro estratégico do Oriente Médio. A presença militar estadunidense no Golfo Pérsico, as alianças com Israel, Arábia Saudita, Egito e Jordânia e a capacidade de intervir decisivamente em crises regionais garantiram uma estrutura relativamente previsível de poder. Entretanto, os acontecimentos recentes demonstram que Washington continua possuindo capacidade militar extraordinária, mas apresenta crescente relutância em assumir os custos políticos e econômicos de uma liderança regional permanente.
Ao mesmo tempo, a República Popular da China amplia sua influência econômica e diplomática sem demonstrar interesse em substituir os EUA como garantidora da segurança regional. A Rússia, profundamente envolvida na guerra da Ucrânia e afetada por sanções econômicas, encontra-se limitada em sua capacidade de projeção de poder no Oriente Médio. O resultado é o surgimento de um ambiente caracterizado por múltiplos polos de poder, alianças flexíveis e elevada incerteza estratégica.
Nesse contexto, a Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG), que encontra-se descrita no livro "A Importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI", oferece um instrumento particularmente adequado para compreender as transformações em curso. Por meio de suas cinco dimensões — Espaço, Força, Tempo, Risco Geopolítico e Inteligência Estratégica — torna-se possível analisar não apenas os eventos imediatos, mas também as tendências estruturais que moldarão o futuro da região.
1 - A Dimensão Espaço
Na MIAG, a dimensão Espaço corresponde ao ambiente geográfico, político, econômico e estratégico onde se desenvolvem as disputas de poder.
O Oriente Médio ocupa uma posição singular na geopolítica global. Situado na interseção entre Europa, Ásia e África, constitui um dos mais importantes centros de circulação de energia, mercadorias e influência política do planeta.
A guerra atual reforçou a centralidade de cinco espaços estratégicos fundamentais:
O Golfo Pérsico
O Golfo Pérsico permanece sendo o principal coração energético do sistema internacional. Mesmo com a expansão da produção estadunidense de petróleo e gás, aproximadamente um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo continua transitando pela região.
A guerra demonstrou que qualquer ameaça ao fluxo energético do Golfo produz impactos imediatos sobre mercados financeiros, cadeias logísticas e preços globais da energia. O Irã mantém capacidade de influenciar diretamente a segurança desse espaço por meio de:
mísseis balísticos;
drones;
minas navais;
forças navais assimétricas; e
redes de aliados regionais.
O Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz continua sendo um dos maiores gargalos estratégicos do planeta. A crise evidenciou que mesmo sem realizar um bloqueio completo, Teerã possui capacidade suficiente para elevar dramaticamente os custos do transporte marítimo.
A importância geopolítica de Ormuz aumenta justamente porque os EUA demonstraram não desejar um envolvimento militar permanente para garantir a segurança da rota. Essa percepção altera os cálculos estratégicos de todos os atores regionais.
O Levante
Região geográfica e histórica no Mediterrâneo Oriental, englobando a costa da Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Palestina e o sul da Turquia.
Israel emerge da guerra como principal potência militar regional. Entretanto, seu poder continua geograficamente condicionado pela existência de múltiplos focos de instabilidade:
Faixa de Gaza;
Líbano;
Síria;
Cisjordânia.
A profundidade estratégica limitada do território israelense continua sendo uma vulnerabilidade estrutural. Por essa razão, Tel Aviv busca ampliar seu espaço geopolítico através dos Acordos de Abraão e de novas parcerias com monarquias árabes.
O Mar Vermelho
Os ataques dos Houthis contra a navegação internacional demonstraram que o Mar Vermelho tornou-se um espaço estratégico decisivo. A interrupção parcial do tráfego marítimo pelo Canal de Suez produziu impactos globais significativos.
A crise revelou que atores não estatais podem influenciar rotas comerciais de importância planetária.
O Espaço Indo-Mediterrânico
Uma das principais transformações reveladas pela guerra é a crescente integração geopolítica entre:
Mediterrâneo Oriental;
Mar Vermelho;
Oceano Índico;
Golfo Pérsico.
Esses espaços formam um sistema estratégico interligado. A nova configuração regional não pode mais ser analisada apenas pela lógica tradicional do Oriente Médio. Ela deve ser compreendida como parte de um corredor geopolítico ampliado que conecta Europa, África e Ásia.
2 - A Dimensão Força
A dimensão Força da MIAG analisa os instrumentos de poder disponíveis aos atores envolvidos. A guerra revelou uma redistribuição significativa do poder regional:
Israel
Israel emerge como o principal vencedor militar imediato. O conflito demonstrou:
superioridade tecnológica;
integração entre inteligência e combate;
capacidade de projeção aérea;
domínio em guerra eletrônica; e
elevada capacidade de neutralização de alvos estratégicos.
Todavia, a vitória militar não significa hegemonia regional. A principal limitação israelense reside em sua dependência do apoio político e tecnológico estadunidense.
Além disso, Israel enfrenta crescente desgaste diplomático em diversos fóruns internacionais.
Irã
O Irã sofreu perdas significativas. Entretanto, seria incorreto interpretar o conflito como uma derrota estratégica definitiva. O país mantém importantes capacidades:
Capacidade Demográfica
Mais de 90 milhões de habitantes.
Capacidade Industrial
Complexo industrial-militar relativamente autônomo.
Capacidade Tecnológica
Produção nacional de:
drones;
mísseis; e
sistemas eletrônicos.
Capacidade de Influência Regional
Rede de parceiros composta por:
Hezbollah;
Houthis;
milícias iraquianas; e
grupos sírios.
Mesmo enfraquecido, o Irã continua sendo uma potência regional relevante.
EUA
A guerra evidenciou um paradoxo fundamental. Os Estados Unidos da América continuam sendo a maior potência militar do planeta. Porém, sua disposição para exercer liderança regional diminuiu. Washington busca:
impedir o surgimento de uma potência hostil dominante;
proteger Israel; e
preservar fluxos energéticos.
Contudo, procura evitar ocupações prolongadas e compromissos excessivos. Esse comportamento é um dos pilares do conceito de G-Zero.
Arábia Saudita
Talvez o ator mais beneficiado pela nova configuração seja a Arábia Saudita. Riad conseguiu:
preservar relações com Washington;
ampliar contatos com Pequim;
reduzir tensões com Teerã; e
aumentar sua autonomia estratégica.
A política saudita aproxima-se cada vez mais do conceito de potência de equilíbrio.
Turquia
A Turquia emerge como um dos grandes vencedores indiretos. Seu posicionamento permite atuar simultaneamente em:
Europa;
Oriente Médio;
Cáucaso; e
Ásia Central.
A flexibilidade diplomática turca amplia significativamente sua influência regional.
China
A China constitui a principal beneficiária estratégica de longo prazo. Pequim amplia sua influência através de:
comércio;
investimentos;
infraestrutura; e
diplomacia.
Ao contrário dos EUA, não assume os custos militares da segurança regional. Essa combinação produz ganhos geopolíticos consideráveis.
Surgimento de Dois Grandes Blocos
A guerra acelera a formação de dois agrupamentos estratégicos:
A) Bloco Abraâmico
Liderado por:
Israel;
Emirados Árabes Unidos;
Bahrein;
parceiros alinhados.
Objetivo principal: Conter a influência iraniana e ampliar integração tecnológica e econômica.
B) Bloco Islâmico
Articulado por:
Arábia Saudita;
Turquia;
Paquistão;
Egito (gradualmente).
Objetivo principal: Preservar autonomia regional sem submissão completa a Washington ou Teerã.
Essa divisão não configura uma aliança formal, mas representa uma tendência estratégica relevante.
3 - A Dimensão Tempo
Na Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG), a dimensão Tempo procura compreender como os eventos atuais se inserem em processos históricos mais amplos, identificando tendências de continuidade, ruptura e transformação.
Uma das principais armadilhas da análise geopolítica consiste em interpretar conflitos apenas a partir de acontecimentos recentes. Na realidade, a atual guerra entre Irã, Israel e EUA representa a manifestação mais recente de dinâmicas que vêm se desenvolvendo há décadas. A crise atual somente pode ser compreendida adequadamente quando analisada em três horizontes temporais distintos:
o tempo histórico;
o tempo conjuntural; e
o tempo prospectivo.
O Tempo Histórico: da Ordem Bipolar ao G-Zero Regional
Durante a Guerra Fria (1947 - 1991), o Oriente Médio estava inserido na lógica bipolar entre EUA e União Soviética. Embora os conflitos regionais possuíssem causas próprias, a rivalidade entre Washington e Moscou fornecia uma estrutura relativamente previsível para o comportamento dos Estados.
Após o colapso soviético em 1991, surgiu um momento unipolar. Os EUA tornaram-se a potência dominante não apenas globalmente, mas também regionalmente.
Entre 1991 e aproximadamente 2011, Washington exerceu papel central em praticamente todas as grandes questões do Oriente Médio:
Guerra do Golfo;
processo de paz israelo-palestino;
invasão do Afeganistão;
invasão do Iraque; e
combate ao terrorismo.
A Primavera Árabe, iniciada em 2011, começou a revelar as limitações dessa hegemonia.
Os acontecimentos posteriores aprofundaram essa tendência:
guerra civil síria;
fortalecimento de grupos armados não estatais;
expansão da influência iraniana;
crescente presença chinesa; e
retorno da Rússia ao Oriente Médio.
A guerra atual acelera esse processo histórico. O que está ocorrendo não é apenas uma mudança de alianças, mas a transição de uma ordem regional relativamente hierarquizada para uma estrutura multipolar fragmentada.
É exatamente esse fenômeno que Ian Bremmer identifica como a entrada do Oriente Médio na era G-Zero.
O Tempo Conjuntural: a Guerra como Acelerador Estratégico
Embora diversas tendências já estivessem presentes anteriormente, a guerra atuou como um poderoso acelerador histórico. Três processos ganharam velocidade:
Primeiro Processo: Erosão da Dissuasão Tradicional
Durante décadas, a simples possibilidade de uma intervenção militar estadunidense em larga escala funcionava como elemento dissuasório. A atual crise demonstrou que essa disposição diminuiu significativamente.
Mesmo quando intervêm, os EUA buscam ações limitadas e objetivos específicos. Essa percepção altera profundamente os cálculos estratégicos dos atores regionais.
Segundo Processo: Crescimento da Autonomia Regional
Os Estados do Oriente Médio passaram a depender menos de garantias externas. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Egito estão investindo em capacidades próprias. A mensagem é clara: A sobrevivência estratégica dependerá cada vez mais da autonomia nacional e menos da proteção de potências externas.
Terceiro Processo: Ascensão da Diplomacia Multifacetada
A antiga lógica de alinhamentos rígidos está sendo substituída por uma diplomacia mais pragmática. Hoje é possível observar Estados que:
cooperam militarmente com os EUA;
realizam comércio intenso com a China;
mantêm diálogo político com a Rússia; e
negociam simultaneamente com rivais regionais.
Essa flexibilidade caracteriza a nova realidade geopolítica do Oriente Médio.
O Tempo Prospectivo: Cenários para 2030
A análise prospectiva permite identificar tendências que provavelmente moldarão a região até o final da década. A partir da MIAG, podem ser construídos três cenários principais:
Cenário 1 – Equilíbrio Competitivo (Mais Provável)
Probabilidade estimada: 50%
Nesse cenário:
nenhum ator alcança hegemonia regional;
Israel mantém superioridade militar;
Irã preserva capacidade de influência;
Arábia Saudita amplia seu protagonismo; e
China expande influência econômica.
O resultado seria um sistema relativamente estável, porém marcado por competição permanente.
Cenário 2 – Fragmentação Regional
Probabilidade estimada: 30%
Neste cenário:
aumentam conflitos indiretos;
cresce a atuação de milícias;
multiplicam-se crises locais; e
surgem novos focos de instabilidade.
O Oriente Médio passaria a apresentar características semelhantes às observadas em partes da África Subsaariana, onde coexistem Estados fortes e espaços parcialmente desgovernados.
Cenário 3 – Arquitetura Regional Cooperativa
Probabilidade estimada: 20%
Neste cenário:
consolida-se a aproximação saudita-iraniana;
fortalecem-se mecanismos diplomáticos regionais;
diminuem conflitos por procuração; e
amplia-se a integração econômica.
Embora desejável, este continua sendo o cenário menos provável.
4 - A Dimensão Risco Geopolítico
A dimensão Risco Geopolítico constitui um dos elementos centrais da MIAG. Segundo a metodologia:
Risco Geopolítico = (Ameaças × Vulnerabilidades) ÷ Capacidades
A aplicação dessa fórmula ao Oriente Médio permite compreender de forma mais precisa os desafios estratégicos emergentes.
I) Principais Ameaças:
Ameaça 1 – Escalada Militar Não Planejada
O risco de erros de cálculo permanece elevado. Uma operação militar limitada pode desencadear respostas em cadeia envolvendo:
Israel;
Irã;
Hezbollah;
Houthis;
forças dos EUA.
A multiplicidade de atores aumenta significativamente a complexidade do ambiente estratégico.
Ameaça 2 – Guerra Híbrida
O futuro dos conflitos regionais tende a combinar:
ataques cibernéticos;
campanhas de influência;
sabotagem econômica;
operações psicológicas; e
ações militares convencionais.
Ameaça 3 – Competição entre Grandes Potências
Embora a região caminhe para o G-Zero, a rivalidade entre EUA e China continua influenciando decisões estratégicas locais. Não podemos esquecer da Rússia.
Essa competição cria oportunidades, mas também riscos adicionais.
II) Principais Vulnerabilidades:
Vulnerabilidade 1 – Dependência Energética Global
O sistema econômico internacional continua vulnerável a interrupções nos fluxos energéticos da região.
Vulnerabilidade 2 – Fragilidade Institucional
Diversos países apresentam:
polarização política;
tensões sectárias;
dificuldades econômicas; e
baixa legitimidade governamental.
Vulnerabilidade 3 – Dependência Tecnológica Externa
Muitos Estados dependem de fornecedores externos para sistemas críticos de defesa.
Capacidades Mitigadoras
Apesar das ameaças e vulnerabilidades, a região possui capacidades importantes:
Capacidade Econômica
As monarquias do Golfo dispõem de enormes recursos financeiros.
Capacidade Militar
Israel, Turquia e Arábia Saudita possuem forças armadas modernas.
Capacidade Diplomática
A crescente diversificação de parcerias amplia a margem de manobra estratégica.
Capacidade Tecnológica
O investimento regional em inovação militar e inteligência artificial cresce rapidamente.
Avaliação MIAG do Risco Regional
Ao aplicar a fórmula da MIAG observa-se que:
as ameaças aumentaram significativamente;
diversas vulnerabilidades permanecem elevadas; e
as capacidades regionais cresceram, mas de forma desigual.
Consequentemente, o risco geopolítico regional permanece elevado, embora inferior ao observado imediatamente após os ataques iniciais da guerra.
Em outras palavras: O Oriente Médio não está caminhando para o colapso. Entretanto, também não está se aproximando de uma paz duradoura. O cenário predominante é de competição estratégica permanente.
5 - A Dimensão Inteligência Estratégica
A dimensão Inteligência Estratégica busca transformar informação em capacidade de antecipação. Seu objetivo não é prever o futuro, mas reduzir incertezas e ampliar a qualidade das decisões. Aplicada ao atual contexto do Oriente Médio, essa dimensão revela aspectos particularmente importantes:
Primeira Constatação: O Sistema Regional Tornou-se Mais Autônomo
Durante décadas, muitos analistas interpretavam o Oriente Médio principalmente como reflexo das disputas entre grandes potências. Essa visão tornou-se insuficiente.
Os atores regionais adquiriram capacidade crescente de moldar os acontecimentos por conta própria.
Hoje Israel, Arábia Saudita, Turquia, Irã e Emirados Árabes Unidos atuam como polos estratégicos relativamente independentes.
Segunda Constatação: A China é o Principal Beneficiário Estrutural
A análise tradicional frequentemente concentra atenção nos aspectos militares da guerra. Entretanto, uma avaliação estratégica mais profunda sugere que a China emerge como grande beneficiária indireta. Pequim obtém:
acesso energético;
influência diplomática;
oportunidades comerciais; e
expansão da Iniciativa Cinturão e Rota.
Tudo isso sem assumir os custos de segurança enfrentados pelos EUA.
Terceira Constatação: O Poder Militar Não Produz Necessariamente Ordem
A guerra demonstrou que superioridade militar não garante estabilidade política. Israel pode vencer batalhas. Os EUA podem destruir alvos estratégicos. Entretanto, a construção de uma ordem regional sustentável depende de fatores muito mais amplos.
Essa é uma das principais lições da experiência estadunidense no Iraque e no Afeganistão.
Quarta Constatação: O Centro de Gravidade Regional Está se Deslocando
Historicamente, grande parte da atenção geopolítica concentrava-se no conflito árabe-israelense. Hoje, o centro de gravidade estratégico desloca-se para uma competição mais ampla envolvendo:
Israel;
Irã;
Arábia Saudita;
Turquia;
China;
EUA.
O conflito palestino continua relevante, mas deixou de ser o único eixo estruturador da política regional.
Quinta Constatação: O Oriente Médio Torna-se Laboratório da Ordem Pós-Americana
Talvez a conclusão mais importante seja que o Oriente Médio está se transformando em um laboratório antecipado da futura ordem internacional. A região apresenta características que poderão ser observadas em outras partes do mundo:
multipolaridade;
alianças flexíveis;
competição permanente;
ausência de hegemonia consolidada;
crescente autonomia regional.
Em certo sentido, o Oriente Médio tornou-se uma prévia do sistema internacional do século XXI.
Conclusão
A guerra entre Irã, EUA e Israel representa muito mais do que um confronto militar regional. Ela simboliza uma transformação estrutural da ordem geopolítica do Oriente Médio. Conforme argumenta Ian Bremmer, a região ingressa progressivamente em uma lógica G-Zero, caracterizada pela ausência de uma potência capaz e disposta a exercer liderança hegemônica estável.
A análise pela Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG) permite compreender essa transformação em profundidade. A dimensão Espaço revelou a centralidade dos corredores energéticos e marítimos. A dimensão Força demonstrou a redistribuição relativa do poder entre atores regionais e externos. A dimensão Tempo evidenciou que a guerra atua como acelerador de tendências históricas já existentes. A dimensão Risco Geopolítico mostrou a persistência de ameaças elevadas em um ambiente de capacidades desiguais. Por fim, a dimensão Inteligência Estratégica permitiu identificar tendências estruturais frequentemente ocultas pela atenção excessiva aos acontecimentos imediatos.
O resultado é o surgimento de um Oriente Médio mais autônomo, mais complexo e mais imprevisível. Israel continua sendo a principal potência militar regional. O Irã permanece um ator estratégico relevante. A Arábia Saudita emerge como potência de equilíbrio. A Turquia amplia sua influência multidimensional. A China fortalece sua presença econômica e diplomática. Os EUA continuam indispensáveis, mas já não são incontestáveis.
A principal característica da nova configuração regional não é a hegemonia de um ator específico, mas a coexistência de múltiplos centros de poder em permanente competição. Essa realidade tende a definir o Oriente Médio até pelo menos 2030.
Sob a ótica da MIAG, a questão fundamental não é identificar quem venceu a guerra atual. A questão verdadeiramente estratégica consiste em compreender que o conflito acelerou a transição para uma nova arquitetura regional, na qual a estabilidade dependerá cada vez mais da capacidade dos próprios atores locais de administrar rivalidades, construir mecanismos de cooperação e evitar que crises limitadas se transformem em confrontos sistêmicos. Nesse sentido, a guerra atual poderá ser lembrada pela história não como o evento que redefiniu fronteiras, mas como o momento em que o Oriente Médio entrou definitivamente na era geopolítica do G-Zero, o que concordamos plenamente com Bremmer.
Qual a sua opinião?
Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:
Matéria de 22/06/2026:
Matéria de 03/03/2026:





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