O Paraguai na atual Geopolítica Sul-Americana: Uma Análise pelo Método Integrado de Análise Geopolítica (MIAG).
- Alexandre Tito Xavier

- há 1 minuto
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Introdução
A geopolítica sul-americana atravessa um momento de inflexão silenciosa, porém profunda. Em um ambiente internacional caracterizado por competição entre grandes potências, erosão das normas multilaterais e retorno explícito da lógica das esferas de influência, países tradicionalmente percebidos como periféricos passam a ocupar posições centrais no cálculo estratégico das potências globais. O Paraguai é um desses casos paradigmáticos.
Historicamente enquadrado como ator secundário na América do Sul, o Paraguai vem adquirindo crescente relevância geopolítica em razão de sua posição geográfica, de suas vulnerabilidades estruturais, de sua importância logística e energética, e de sua crescente inserção em dinâmicas de segurança hemisférica — especialmente no contexto da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A recente intensificação da cooperação militar entre Washington e Assunção é expressão concreta dessa revalorização estratégica.
Este artigo tem como objetivo analisar o Paraguai no contexto sul-americano a partir da aplicação integral do Método Integrado de Análise Geopolítica (MIAG) — em suas cinco dimensões: espaço, força, tempo, risco geopolítico e inteligência estratégica. A partir dessa análise estruturante, estabelece-se uma correlação estratégica entre o Paraguai, a nova estratégia dos EUA para o hemisfério e os desafios e oportunidades que se colocam para o Brasil.
Utilizaremos o livro "A Importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI", que apresenta o MIAG, as recentes notícias das mídias sobre o recente acordo de cooperação entre os EUA e o Paraguai, e os nossos artigos abaixo:
"A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA: Redefinição das Esferas de Influência e a Venezuela como Laboratório Geopolítico nas Américas", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-estratégia-de-segurança-nacional-dos-eua-redefinição-das-esferas-de-influência-e-a-venezuel;
"Porque devemos olhar com mais atenção para o Paraguai?", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/porque-devemos-olhar-com-mais-atenção-para-o-paraguai.
1. O Paraguai no Sistema Regional Sul-Americano
Antes da aplicação metodológica do MIAG, é necessário situar o Paraguai no sistema regional. País central, localizado no coração da América do Sul, o Paraguai conecta o Cone Sul ao eixo amazônico-andino por meio da Bacia do Prata. Essa condição, longe de ser apenas geográfica, é profundamente estratégica.
O Paraguai compartilha fronteiras extensas com Brasil, Argentina e Bolívia, posicionando-se como um elo logístico entre economias maiores, zonas produtivas e corredores bioceânicos. Além disso, abriga parte relevante de infraestruturas críticas regionais, como Itaipu Binacional, e integra a Hidrovia Paraguai–Paraná, eixo vital para o escoamento de commodities.
Paradoxalmente, essa centralidade espacial convive com fragilidades institucionais, assimetrias de poder, presença de criminalidade transnacional e dependência externa. É exatamente nessa tensão entre centralidade geográfica e vulnerabilidade estrutural que reside o interesse geopolítico crescente pelo Paraguai.
2. Aplicação do MIAG ao Paraguai
2.1 Dimensão do Espaço
No MIAG, o espaço não é entendido apenas como território físico, mas como espaço funcional, relacional e estratégico.
O Paraguai ocupa uma posição de país pivô na América do Sul. Seu território conecta:
O eixo atlântico-industrial (Brasil e Argentina);
O eixo amazônico-andino (Bolívia);
O sistema fluvial da Bacia do Prata;
As rotas terrestres e logísticas do agronegócio regional.
Essa posição confere ao Paraguai um valor estratégico que ultrapassa sua capacidade de projeção própria. O país torna-se, assim, um espaço de disputa indireta, onde potências externas buscam garantir acesso, influência e capacidade de monitoramento regional.
O Chaco Paraguaio, em particular, emerge como área sensível: vasto, pouco povoado, com baixa presença estatal e proximidade com fronteiras porosas. Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um espaço propício à atuação de atores ilícitos, mas também de interesse para atividades de vigilância, treinamento e projeção logística.
2.2 Dimensão da Força
A dimensão da força no MIAG abrange capacidades militares, coercitivas, econômicas e políticas — tanto internas quanto externas.
O Paraguai possui forças armadas de baixa capacidade dissuasória convencional, limitadas em meios, orçamento e tecnologia. Essa fragilidade militar tradicional, no entanto, não reduz sua importância; ao contrário, aumenta sua dependência de parceiros externos para garantir segurança, controle territorial e estabilidade institucional.
É nesse contexto que se insere o recente acordo militar entre EUA e Paraguai, que inclui cooperação em treinamento, intercâmbio, logística, inteligência e possível acesso a instalações estratégicas, conforme podemos ver em https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2025/12/secretary-of-state-marco-rubio-and-paraguayan-foreign-minister-ruben-ramirez-lezcano-at-the-united-states-paraguay-status-of-forces-agreement-signing-ceremony . Para Washington, trata-se de um ponto de apoio em uma região sensível; para Assunção, uma forma de compensar suas limitações estruturais.
No plano econômico, o Paraguai exerce força indireta por meio de sua política tributária atrativa, tornando-se polo de atração de capitais, empresas e fluxos humanos — especialmente brasileiros. Essa dinâmica, contudo, gera impactos sociais, políticos e de segurança que extrapolam sua capacidade de gestão estatal.
2.3 Dimensão do Tempo
O tempo, no MIAG, é interpretado como processo histórico, trajetória estratégica e projeção de futuros possíveis.
Historicamente, o Paraguai carrega os efeitos de traumas estruturais, como a Guerra da Tríplice Aliança, que moldaram uma cultura estratégica defensiva, cautelosa e dependente. Ao longo do século XX, alternou períodos de isolamento, autoritarismo e abertura controlada, sem jamais consolidar plenamente capacidades autônomas de poder.
No tempo presente, observa-se uma aceleração de sua inserção geopolítica, impulsionada por fatores externos: competição entre potências, crise de governança regional e reconfiguração das prioridades dos EUA no hemisfério.
No horizonte futuro, o Paraguai tende a se tornar cada vez mais relevante como plataforma logística, espaço de influência e elemento de contenção geopolítica, especialmente se persistirem instabilidades em países vizinhos e a presença de atores extrarregionais na América do Sul.
2.4 Dimensão do Risco Geopolítico
No MIAG, o risco geopolítico resulta da interação entre ameaças, vulnerabilidades e capacidades.
No caso paraguaio, as principais ameaças incluem:
Crime organizado transnacional;
Tráfico de drogas, armas e contrabando;
Presença de redes ilícitas na tríplice fronteira;
Pressões externas associadas à competição entre potências.
As vulnerabilidades são evidentes:
Baixa capacidade estatal de controle territorial;
Instituições frágeis;
Dependência econômica;
Limitações em inteligência e segurança interna.
As capacidades, por sua vez, são insuficientes para mitigar plenamente esses riscos, o que torna o Paraguai altamente permeável à influência externa, demonstrando um risco geopolítico muito alto. Logo, essa equação de risco explica por que o país se torna atrativo para estratégias de influência preventiva por parte dos EUA.
2.5 Dimensão da Inteligência Estratégica
A inteligência estratégica, no MIAG, não se limita à coleta de informações, mas envolve capacidade de antecipação, leitura de cenários e tomada de decisão soberana.
O Paraguai apresenta déficits relevantes nessa dimensão. Sua capacidade de formular estratégias de longo prazo é limitada, o que o leva a reagir mais do que a conduzir processos geopolíticos. Isso o torna suscetível à agenda de atores externos que oferecem soluções imediatas para problemas estruturais.
Para os EUA, essa fragilidade representa uma oportunidade de estabelecer presença estratégica com baixo custo político, ampliando sua capacidade de monitoramento regional, especialmente em um contexto de disputa com China, Rússia e Irã na América Latina.
3. Correlação com a Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA parte do pressuposto de que o mundo retornou a uma lógica de competição entre grandes potências, com clara delimitação de esferas de influência. Nesse contexto, o hemisfério ocidental volta a ser percebido como área prioritária de segurança.
O Paraguai encaixa-se perfeitamente nessa lógica por três razões principais:
Localização estratégica no centro da América do Sul;
Baixa resistência política e institucional à influência externa;
Proximidade com áreas sensíveis, como a Amazônia, a tríplice fronteira e corredores logísticos regionais.
O acordo militar recente não deve ser interpretado como evento isolado, mas como parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento dos EUA na América do Sul, utilizando países-chave como pontos de apoio flexíveis, sob a lógica da presença indireta e da cooperação seletiva.
4. Implicações Geopolíticas para o Brasil
A análise do Paraguai pelo MIAG revela implicações diretas e indiretas para o Brasil.
Do ponto de vista espacial, o Paraguai é área de profundidade estratégica brasileira. Qualquer ampliação significativa da presença militar ou de inteligência de uma potência externa em território paraguaio afeta, direta ou indiretamente, o entorno estratégico do Brasil.
Na dimensão da força, o Brasil enfrenta o desafio de manter sua autonomia estratégica sem confrontar diretamente os EUA, mas também sem aceitar passivamente a consolidação de uma arquitetura de segurança hemisférica que o marginalize.
No tempo, a ausência de uma estratégia brasileira consistente para o Paraguai pode resultar, no médio e longo prazo, na perda de capacidade de influência em um espaço historicamente sensível.
Quanto ao risco geopolítico, a combinação de crime organizado, presença externa e fragilidades institucionais no Paraguai representa um vetor de instabilidade para o Brasil, especialmente nas regiões de fronteira.
Por fim, na inteligência estratégica, o caso paraguaio evidencia a necessidade de o Brasil aprimorar sua capacidade de leitura antecipatória e de formulação de políticas de longo prazo para seu entorno imediato.
No nosso artigo "Porque devemos olhar com mais atenção para o Paraguai?", explicamos e alertamos que o Brasil deveria dar uma maior atenção e importância na sua relação com o Paraguai, exercendo uma influência geopolítica, de preferência na forma de soft power, e com isso se firmar como o líder regional da América do Sul, bem como era fundamental que o governo brasileiro exercesse uma influência nesse vizinho, visando atingir os nossos objetivos geopolíticos.
Conclusão
A aplicação do Método Integrado de Análise Geopolítica (MIAG) ao Paraguai demonstra que o país deixou de ser apenas um ator periférico para se tornar um espaço estratégico central na disputa geopolítica sul-americana. Sua localização, vulnerabilidades e inserção em novas dinâmicas de segurança o transformam em peça relevante na estratégia dos EUA para o hemisfério.
Para o Brasil, compreender o Paraguai a partir dessa lente não é uma opção, mas uma necessidade estratégica. Ignorar essa realidade equivale a aceitar a erosão silenciosa de sua influência regional e de sua autonomia estratégica.
Convém mencionar que a presença militar estadunidense próxima as nossas fronteiras não é algo desejável para o nosso país, o que pode se tornar realidade com o recente acordo entre os EUA e o Paraguai.
Em um mundo mais imprevisível e menos seguro, como destacamos no livro utilizado como referência do texto, quem não analisa o espaço estratégico ao seu redor com método, profundidade e antecipação, acaba sendo condicionado por outros, ficando somente reativo.
Qual a sua opinião?
Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise: Matéria de 15/12/2025:
Matéria de 21/05/2025:







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