Jogos de Guerra Profissionais e Metodologias de Elaboração de Cenários: uma relação de complementaridade para uma análise estratégica.

Introdução
A crescente complexidade do ambiente estratégico tem produzido um desafio que ultrapassa a capacidade das metodologias tradicionais de análise: compreender problemas nos quais múltiplos atores possuem interesses distintos, dispõem de diferentes capacidades, tomam decisões de maneira simultânea ou sequencial e, principalmente, reagem às decisões dos demais. Nesse ambiente, duas metodologias adquiriram especial relevância: Elaboração de Cenários e Jogos de Guerra Profissionais.
Embora possuam origens históricas e desenvolvimentos metodológicos próprios, essas duas abordagens apresentam uma importante área de convergência. Ambas procuram lidar com a incerteza e questionar a ideia de que o futuro possa ser simplesmente projetado a partir da extrapolação das tendências do presente. Entretanto, fazem isso de maneiras diferentes.
As metodologias de cenários procuram construir representações estruturadas de futuros possíveis, plausíveis ou relevantes. Seu propósito não é necessariamente prever o futuro, mas ampliar a compreensão sobre aquilo que poderá ocorrer e permitir que organizações se preparem para diferentes possibilidades.
O Jogo de Guerra Profissional, por sua vez, introduz atores em um ambiente estruturado no qual eles precisam tomar decisões, interagir com outros participantes, reagir a acontecimentos e enfrentar as consequências de suas próprias escolhas. Dessa forma, transforma um futuro representado em um ambiente dinâmico de decisão e interação.
Nesse sentido, os cenários fornecem uma representação estruturada do futuro possível, enquanto o Jogo de Guerra transforma essa representação em um ambiente no qual decisões, interações, reações e consequências podem ser exploradas.
A questão central deste artigo, portanto, não é determinar qual das duas metodologias é superior. A questão mais relevante é compreender como elas podem ser integradas sem que suas características metodológicas sejam confundidas.
Para tanto utilizaremos as informações constantes no livro "Desvendando os Jogos de Guerra: uma introdução no assunto", os artigos constantes na nossa Seção sobre Jogos de Guerra, disponíveis em https://www.atitoxavier.com/my-blog/categories/jogos-de-guerra, os artigos: "The Use of Scenarios" ,disponível em https://www.hudson.org/technology/the-use-of-scenarios, "Scenario techniques for energy and environmental research: An overview of recent developments to broaden the capacity to deal with complexity and uncertainty", acessível em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1364815217303936, "Scenarios: Uncharted Waters Ahead", disponível em https://hbr.org/1985/09/scenarios-uncharted-waters-ahead, e "Integrating Forecasting with Gaming: Building an Analytic Framework for Decision Advantage", que pode ser lido em https://www.rand.org/pubs/perspectives/PEA3490-3.html.
A hipótese defendida é que cenários e Jogos de Guerra Profissionais constituem camadas complementares de uma arquitetura de análise estratégica. O cenário estrutura o ambiente e explicita hipóteses sobre futuros possíveis; o Jogo de Guerra coloca atores nesse ambiente e permite investigar como suas decisões e interações podem alterar a evolução do problema; finalmente, a análise dos resultados produz conhecimento que pode levar à revisão das próprias premissas utilizadas na construção do cenário.
Portanto, essa relação transforma o Jogo de Guerra em algo que vai muito além de uma atividade de treinamento. Quando adequadamente concebido, ele pode constituir um instrumento de investigação, experimentação e descoberta estratégica.
1. Duas metodologias com origens distintas
É importante iniciar a discussão evitando uma interpretação simplista segundo a qual a metodologia de cenários teria simplesmente dado origem aos Jogos de Guerra Profissionais, ou vice-versa. As duas metodologias possuem genealogias parcialmente independentes.
Os Jogos de Guerra possuem uma história muito anterior à consolidação das modernas metodologias de cenários. O Kriegsspiel prussiano, desenvolvido no século XIX, já incorporava elementos que continuam fundamentais para os Jogos de Guerra contemporâneos: representação do espaço, regras, movimento, oposição e arbitragem.
Posteriormente, a tradição dos Jogos de Guerra evoluiu de uma ferramenta predominantemente militar para uma metodologia utilizada também na análise operacional, no planejamento estratégico e na investigação de problemas complexos.
A moderna metodologia de cenários consolidou-se principalmente a partir da década de 1950, em um contexto marcado pela Guerra Fria, pela possibilidade de conflito nuclear e pela necessidade de pensar sobre futuros caracterizados por elevado grau de incerteza.
Nesse processo, Herman Kahn e a RAND Corporation tiveram papel relevante. Kahn utilizava cenários para construir sequências hipotéticas de acontecimentos e explorar processos causais, pontos de decisão e possíveis consequências. Dessa forma, o cenário não deveria ser compreendido como previsão, mas como uma construção destinada a explorar como uma situação poderia evoluir.
Essa concepção aproxima os cenários do raciocínio empregado nos Jogos de Guerra. Podemos representar essa lógica da seguinte maneira:
Situação inicial → decisão do Ator A → reação do Ator B → consequência → nova decisão → nova reação → novo estado do sistema.
Essa sequência é essencialmente uma cadeia dinâmica de decisões e consequências. A diferença é que o cenário pode representar essa cadeia de forma predominantemente narrativa ou analítica, enquanto o Jogo de Guerra permite que os participantes produzam a cadeia por meio de suas próprias decisões. Essa distinção é metodologicamente decisiva.
2. O cenário não é o Jogo de Guerra
Uma das maiores fontes de confusão conceitual entre as duas áreas consiste em considerar que um cenário suficientemente detalhado já seria, por si só, um Jogo de Guerra. Não é.
O cenário estabelece o ambiente e as condições dentro das quais uma atividade analítica poderá ocorrer. O Jogo de Guerra acrescenta uma dimensão comportamental e interativa. Em um Jogo de Guerra Profissional encontramos, entre outros elementos:
participantes;
atores com interesses distintos;
objetivos;
capacidades;
limitações;
tomada de decisão;
interação;
oposição;
regras;
adjudicação;
consequências;
iteração;
observação;
coleta de evidências; e
análise posterior.
Portanto, pode-se estabelecer uma distinção simples: Cenário representa o ambiente. Jogo de Guerra representa atores tomando decisões dentro desse ambiente.
Essa distinção é particularmente importante porque o valor analítico do Jogo de Guerra não reside apenas naquilo que foi previamente concebido pelo planejador. Ele reside também naquilo que os participantes podem descobrir durante a interação. Um participante pode interpretar uma situação de maneira diferente daquela imaginada pelos planejadores. Pode identificar uma vulnerabilidade não percebida. Pode utilizar uma capacidade de maneira inesperada. Pode adotar uma estratégia assimétrica. Pode cometer um erro. Pode mudar de objetivo. Pode explorar uma oportunidade.
É precisamente nesse espaço entre o que foi imaginado e o que acontece durante a interação que reside uma das maiores potencialidades dos Jogos de Guerra Profissionais.
3. O cenário como espaço de experimentação
A relação entre as duas metodologias pode ser compreendida de maneira mais precisa quando o cenário é considerado como um espaço de experimentação. Um cenário estabelece determinadas condições iniciais. Por exemplo, pode-se estabelecer que, em determinado horizonte temporal:
uma potência enfrenta uma crise energética;
outra controla infraestrutura marítima crítica;
determinado Estado enfrenta restrições econômicas;
um ator não estatal passa a dispor de determinada capacidade; e
uma organização internacional encontra dificuldades para produzir consenso.
Essas condições não determinam necessariamente o comportamento dos atores. Elas apenas estabelecem o ambiente no qual as decisões serão tomadas. É justamente nesse ponto que o Jogo de Guerra acrescenta valor.
O cenário pergunta:
“O que poderá acontecer?”
O Jogo de Guerra acrescenta:
“O que os atores poderão fazer diante disso?”
E a análise posterior acrescenta uma terceira pergunta:
“O que podemos aprender com aquilo que fizeram?”
Essa sequência é extremamente importante para compreender a natureza analítica dos Jogos de Guerra Profissionais.
4. Cenários fornecem hipóteses; Jogos de Guerra confrontam essas hipóteses
Um cenário não deve ser tratado como uma verdade antecipada sobre o futuro. Ele constitui uma hipótese estruturada sobre determinado ambiente futuro. Consequentemente, sua utilidade não depende necessariamente de sua capacidade de antecipar exatamente aquilo que ocorrerá.
Essa concepção encontra forte correspondência na tradição de Herman Kahn e, posteriormente, na utilização empresarial dos cenários desenvolvida pela Shell, especialmente por Pierre Wack.
O objetivo não era descobrir o “futuro correto”, mas preparar os decisores para futuros significativamente diferentes daqueles implicitamente considerados nas projeções convencionais. Assim, o valor do cenário está menos em acertar o futuro do que em melhorar a qualidade das decisões diante de futuros possíveis. O Jogo de Guerra amplia essa lógica.
Se o cenário apresenta uma hipótese sobre o ambiente, o Jogo de Guerra permite colocar essa hipótese diante do comportamento humano. Podemos pensar em um ciclo:
Cenário → hipótese → Jogo de Guerra → decisão → interação → consequência → descoberta → revisão da hipótese.
Nesse modelo, o cenário deixa de ser apenas um produto final do planejamento e passa a ser também um objeto de investigação.
5. A importância da interação humana
É nesse aspecto que os Jogos de Guerra Profissionais apresentam uma característica que não pode ser reproduzida integralmente por uma metodologia de cenários puramente narrativa. O comportamento humano.
Um cenário pode estabelecer que determinado Estado possui determinada capacidade militar, econômica ou diplomática. Mas possuir uma capacidade não significa necessariamente empregá-la de determinada maneira.
A capacidade pode ser empregada de forma diferente daquela imaginada pelo planejador. O ator pode interpretar equivocadamente uma informação:
Pode superestimar sua própria capacidade;
Pode subestimar o adversário;
Pode assumir riscos que o analista considerava improváveis;
Pode buscar uma solução indireta; e
Pode mudar de estratégia em resposta ao comportamento do adversário.
Essa dimensão comportamental introduz uma variável fundamental: a decisão humana transforma o ambiente. É por isso que o Jogo de Guerra não deve ser compreendido simplesmente como uma narrativa em movimento. Ele é um ambiente estruturado de interação no qual as decisões dos participantes produzem novas condições para as decisões subsequentes. Essa característica produz um fenômeno particularmente importante: a emergência.
O resultado de uma rodada pode não ter sido previsto por nenhum dos participantes individualmente. Ele emerge da interação entre decisões.
6. Cenários ampliam possibilidades; Jogos de Guerra exploram possibilidades
Uma das contribuições mais interessantes da metodologia de cenários é romper com a tendência de trabalhar apenas com o futuro considerado mais provável. Essa preocupação está presente tanto na tradição de Kahn quanto em outras escolas de pensamento prospectivo. A elaboração de cenários permite perguntar: E se?
E se determinado ator mudar de comportamento?
E se determinada capacidade deixar de estar disponível?
E se ocorrer uma crise simultânea?
E se uma vulnerabilidade for explorada?
E se uma tendência considerada secundária se tornar dominante?
O cenário amplia o espaço de possibilidades. O Jogo de Guerra, então, explora a dinâmica existente dentro desse espaço. Por isso, as duas metodologias podem atuar de forma complementar: Cenários ampliam o espaço de possibilidades. Jogos de Guerra exploram a dinâmica dessas possibilidades.
Essa relação é particularmente útil quando se pretende estudar problemas nos quais o comportamento dos atores é uma variável crítica.
7 - Do cenário ao Jogo de Guerra: uma arquitetura metodológica
Considerando a experiência acumulada no desenvolvimento de Jogos de Guerra Profissionais, é possível propor uma arquitetura na qual a elaboração de cenários esteja inserida dentro de um processo mais amplo.
A. Problema
O processo deve começar pelo problema que se deseja compreender. Não pelo jogo. Essa distinção é fundamental. O Jogo de Guerra é um instrumento metodológico. O problema é aquilo que justifica sua utilização.
B. Ambiente
A partir do problema, procura-se compreender o ambiente no qual ele está inserido. Aqui podem ser utilizadas metodologias de cenários para estruturar futuros possíveis e relevantes.
C. Atores
Identificam-se os atores relevantes, seus interesses, objetivos, capacidades, limitações e relações.
D. Hipóteses
São estabelecidas hipóteses sobre possíveis comportamentos, eventos e interações.
E. Desenho do Jogo de Guerra
O cenário passa então a integrar o desenho do Jogo de Guerra, estabelecendo as condições nas quais os participantes irão atuar.
F. Execução
Os participantes tomam decisões, interagem, reagem e adaptam suas estratégias.
G. Observação
O comportamento dos participantes e as consequências das decisões são registrados.
H. Análise
As informações produzidas durante o Jogo de Guerra são analisadas para identificar vulnerabilidades, oportunidades, padrões comportamentais, pontos de decisão e resultados inesperados.
I. Revisão
Finalmente, os resultados podem provocar a revisão das premissas utilizadas na construção do cenário. Assim, o processo deixa de ser linear e assume uma característica iterativa:
Problema → cenário → Jogo de Guerra → descobertas → revisão → novo cenário → novo Jogo de Guerra.
Essa estrutura é particularmente adequada à análise de problemas complexos.
8 - O Jogo de Guerra como instrumento de investigação
Essa integração conduz a uma questão particularmente importante para os estudiosos dos Jogos de Guerra Profissionais. Qual é, afinal, a finalidade de um Jogo de Guerra?
Se for concebido apenas como treinamento, o foco estará predominantemente no desenvolvimento de competências - JG Experiencial ou de Treinamento;
Se for utilizado como exercício didático, poderá priorizar a aprendizagem - JG Educacional; e
Entretanto, quando empregado como instrumento analítico, seu propósito passa a ser diferente. O objetivo é produzir conhecimento sobre um problema. - JG Analítico.
Nesse contexto, JG Analítico, o cenário desempenha papel fundamental. Ele cria as condições experimentais nas quais determinadas hipóteses poderão ser confrontadas com decisões humanas. Essa concepção permite compreender por que os Jogos de Guerra podem contribuir para a investigação de problemas complexos.
O Jogo não necessariamente fornece uma previsão. Ele pode fornecer algo mais útil: insights sobre como determinado sistema pode se comportar quando seres humanos tomam decisões dentro dele.
Essa é uma diferença epistemológica importante.
9 - Uma relação epistemológica: cenários e Jogos de Guerra contra o determinismo
Existe ainda uma relação mais profunda entre as duas metodologias. Tanto os cenários quanto os Jogos de Guerra questionam, cada um a seu modo, o determinismo.
Os cenários desafiam a ideia de que exista apenas um futuro que possa ser extrapolado a partir das tendências atuais. Os Jogos de Guerra desafiam a ideia de que seja possível prever o comportamento dos atores simplesmente conhecendo suas capacidades e interesses.
Pode-se sintetizar essa diferença da seguinte forma: Cenários desafiam o determinismo temporal. Jogos de Guerra desafiam o determinismo comportamental.
Essa formulação ajuda a compreender por que a integração entre os dois métodos é tão poderosa. Um cenário pode mostrar que existem diversos futuros possíveis. O Jogo de Guerra pode demonstrar que, mesmo dentro de um futuro específico, existem múltiplos caminhos possíveis decorrentes das decisões humanas. Consequentemente, a incerteza possui pelo menos duas dimensões:
incerteza sobre o que poderá acontecer; e
incerteza sobre como os atores irão reagir ao que acontecer.
A metodologia de cenários trabalha particularmente bem com a primeira. O Jogo de Guerra acrescenta uma ferramenta especialmente poderosa para explorar a segunda.
10 - A contribuição dos Jogos de Guerra para a metodologia de cenários
A relação também pode ser analisada no sentido inverso. Não são apenas os cenários que contribuem para os Jogos de Guerra. Os Jogos de Guerra também podem contribuir para aperfeiçoar os cenários. Durante um Jogo, os participantes podem identificar:
eventos que não haviam sido considerados;
relações causais inesperadas;
vulnerabilidades;
oportunidades;
comportamentos assimétricos;
capacidades subestimadas;
consequências de segunda e terceira ordem;
pontos de decisão críticos; e
interações não lineares.
Essas descobertas podem retornar para a metodologia de cenários. Assim, um cenário inicialmente construído pelos analistas pode ser modificado depois da interação com os participantes. Essa característica permite estabelecer uma relação de retroalimentação: Cenário → Jogo de Guerra → conhecimento → cenário revisado.
A metodologia deixa, portanto, de tratar o futuro como um objeto passivo de observação e passa a investigá-lo como um sistema dinâmico de possibilidades.
11 - A importância do desenho profissional
Essa integração também evidencia a importância do desenho metodológico do Jogo de Guerra. Não basta simplesmente colocar um cenário diante de participantes e pedir que eles “joguem”.
O cenário precisa estar relacionado ao problema de pesquisa ou de análise. As condições iniciais devem ser coerentes. Os atores precisam possuir objetivos e capacidades adequadamente definidos. As regras devem permitir a interação que se deseja observar. A adjudicação deve ser compatível com os objetivos do jogo. Os dados relevantes precisam ser registrados. E, sobretudo, deve existir uma metodologia de análise posterior. Caso contrário, o resultado poderá ser apenas uma experiência interessante, mas não necessariamente conhecimento analítico robusto.
É nesse ponto que a elaboração do cenário deixa de ser uma atividade periférica e passa a integrar o próprio desenho metodológico do Jogo de Guerra. Assim, a literatura de wargaming considera o cenário um elemento fundamental do desenho, pois ele estabelece a situação na qual os participantes tomarão suas decisões e pode influenciar significativamente as decisões disponíveis aos jogadores.
Conclusão
A relação entre as metodologias de elaboração de cenários e os Jogos de Guerra Profissionais não deve ser compreendida como uma relação de competição, mas de complementaridade.
Historicamente, elas possuem origens distintas. Metodologicamente, entretanto, aproximaram-se à medida que organizações passaram a enfrentar problemas caracterizados por incerteza, interação entre atores e necessidade de tomada de decisão em ambientes complexos.
A principal contribuição dos cenários está na construção de representações estruturadas de futuros possíveis. Eles permitem romper com uma visão determinista do futuro e explorar diferentes condições, contingências e trajetórias. O Jogo de Guerra acrescenta algo que o cenário, isoladamente, não consegue produzir da mesma maneira: a interação humana estruturada. Ele coloca atores diante de situações concretas, exige decisões, produz reações, permite adaptações e revela consequências que podem não ter sido antecipadas durante a construção do cenário.
Por isso, a formulação que melhor sintetiza essa relação é: Cenário é o mundo possível. Jogo de Guerra são os atores agindo nesse mundo. Análise é o conhecimento produzido pela interação. Essa relação permite compreender uma característica fundamental dos Jogos de Guerra Profissionais: eles não precisam começar pelo problema.
A partir do problema, define-se aquilo que se pretende investigar. Em seguida, compreende-se o ambiente, constroem-se hipóteses e, quando necessário, elaboram-se cenários capazes de representar futuros relevantes para a investigação. O Jogo de Guerra surge então como instrumento para colocar essas hipóteses em movimento.
Essa perspectiva é particularmente importante porque evita que o Jogo de Guerra seja reduzido a uma simples dramatização de um cenário previamente concebido. O cenário não deve determinar o resultado do jogo. Ele deve criar as condições para que o resultado seja investigado.
Essa diferença parece sutil, mas possui profundas implicações metodológicas. Um cenário excessivamente rígido pode conduzir o Jogo de Guerra à confirmação das próprias premissas que lhe deram origem. Um cenário adequadamente construído, ao contrário, deve permitir que os participantes desafiem essas premissas. É nesse momento que o Jogo de Guerra passa de instrumento de representação para instrumento de descoberta.
O resultado mais interessante de um Jogo de Guerra Profissional pode, portanto, não ser aquilo que os planejadores esperavam encontrar. Pode ser justamente aquilo que eles não haviam imaginado.
Essa característica aproxima o Jogo de Guerra da investigação científica de problemas complexos: formula-se uma hipótese, cria-se uma estrutura para confrontá-la, observa-se o comportamento do sistema, identificam-se resultados inesperados e reformulam-se as hipóteses. Consequentemente, a integração entre cenários e Jogos de Guerra pode ser representada como um ciclo:
Problema → Cenário → Hipóteses → Jogo de Guerra → Interação → Evidências → Insights → Revisão → Novo cenário → Novo Jogo de Guerra.
Essa concepção também reforça uma ideia central para o desenvolvimento dos Jogos de Guerra Profissionais: o Jogo não é o fim do processo analítico; é um meio para produzir conhecimento.
Quando essa lógica é compreendida, cenários e Jogos de Guerra deixam de ser ferramentas isoladas. Passam a constituir componentes de uma arquitetura mais ampla de análise estratégica, na qual o futuro é explorado por meio de cenários, o comportamento é investigado por meio da interação e o conhecimento é produzido pela análise sistemática das decisões e de suas consequências.
Em síntese, os cenários ajudam a responder “o que poderá acontecer?”; os Jogos de Guerra ajudam a investigar “o que os atores poderão fazer diante disso?”; e a análise procura responder “o que aprendemos com essa interação?”.

É nessa complementaridade que reside uma das mais promissoras possibilidades de desenvolvimento dos Jogos de Guerra Profissionais como metodologia de análise de problemas complexos.
Qual a sua opinião?




Comentários