União Europeia - UE - forjada por crises. Consolidação como Centro de Poder?


Figura disponível em: https://www.tasgroup.eu/media/eu/solutions/t2s_europa.jpg

O continente europeu sempre foi importante na história da humanidade, e com isso é impossível desassociar a Europa dos principais eventos no cenário internacional, bem como não analisar a geopolítica da região, ainda mais quando os principais conflitos mundiais tiveram origem nessa área geográfica. Dessa forma, o Blog possui a Seção Europa, acessível em https://www.atitoxavier.com/my-blog/categories/europa, com vários artigos sobre essa parte do mundo.

Ao olharmos com atenção a União Europeia - UE podemos ver que, apesar da sua criação em 1992, ela enfrentou várias crises internas e externas que chegaram a colocar certa dúvida quanto a sua sobrevivência como união política e econômica, tendo ocorrido vários choques entre os seus Estados - Membros. Atualmente é composta por 27 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, República Checa, Romênia, Suécia.

A figura a seguir mostra o tamanho e a configuração atual da UE:

Figura disponível em: https://img.freepik.com/vetores-gratis/uniao-europeia-no-mapa-politico-da-europa-em-2022-sem-a-russia-mapa-politico-do-mundo-altamente-detalhado_599062-3436.jpg?w=740

Abaixo destacamos algumas crises, que levaram ao tensionamento entre os Membros da UE:


- Crise Econômica da UE, em 2011, em que vimos praticamente um embate entre o eixo Norte, com menor endividamento e economias mais organizadas com destaque para a Alemanha, considerada o banco da UE por causa da sua política de austeridade e vigor econômico, e o eixo Sul, que apresentavam economias com elevado endividamento, que por coincidência eram os que mais se afastaram dos critérios de convergência estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, como Itália, Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia, considerados à época como países periféricos da UE. Ressalta-se que o problema econômico europeu teve origem nos EUA, por meio da crise de 2008.

Assim, essa crise da UE chegou a colocar em questionamento a ideia de unificação da moeda euro, bem como abriu espaço para o surgimento de ideologias radicais de esquerda e a ascensão da extrema-direita, demonstrando uma falta de coesão política entre os Estados - Membros. Logo, essa crise pode ser considerada como o embrião de movimentos para saída da Zona do Euro, como o BREXIT;


- Crise Migratória, em 2015, que vimos a criação de várias políticas de controle de imigração pela UE, em que os movimentos nacionalistas de extrema-direita pregavam o banimento e a até a proibição da entrada de imigrantes vindos pelo leste europeu e da África. Portanto, podemos ver uma crise entre os eixos ocidental e o oriental europeus.

Convém mencionar que os imigrantes foram utilizados como arma política, em vários episódios, contra a Europa Ocidental, e que foram analisados pelo Blog em diversos artigos, como: "Ascensão turca: chega de ceder!", "O uso da migração de refugiados como arma política: Guerra Híbrida?" e "O uso da migração de refugiados como arma política. Parte II. Polônia: o novo alvo bielorrusso", todos constantes na Seção Europa; e


- Crise da COVID-19, em 2020, onde apesar de alguns movimentos nacionalistas europeus, observamos uma grande cooperação entre a UE e os seus Estados - Membros com o intuito de mitigar os impactos tanto econômicos, quanto de saúde em suas populações. Com isso, observa-se, ao final dessa crise, uma UE mais organizada e integrada.


Nesse sentido, em virtude de todas essas crises, bem como com o governo Trump relegando a OTAN a um segundo plano, exigindo um maior investimento militar dos europeus na aliança, ficou claro e cristalino que a Europa estava vivendo uma crise existencial, e que era importante se reinventar, ainda mais devido a atual era da Competição entre as Grandes Potências: China, EUA e Rússia.

Nesse diapasão, o Blog em seu artigo "Europa uma senhora decadente, época de se reinventar", de 10 de abril de 2020, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/europa-uma-senhora-decadente-época-de-se-reinventar, mostrou uma Europa dividida, enfrentando problemas econômicos, políticos e sociais, apresentando uma baixa taxa de natalidade, e em meio a pandemia do coronavírus, apresentou um continente que estava perdendo o protagonismo de outrora, e com uma grande necessidade de se reinventar, visando recuperar o prestígio passado. Além disso, falou que a OTAN estava enfrentando uma crise, ainda mais com o corte de recursos por parte dos EUA durante o governo o Trump, deixando o continente preocupado com a ameaça russa.

Assim, a partir de 2021 foi perceptível verificar que tais crises, apesar dos inúmeros desgastes entre os Estados - Membros da UE, e do surgimento dos movimentos ideológicos extremistas, tiveram como mérito melhorar a integração e o fortalecimento da UE.

Entretanto, o atual conflito da Ucrânia que gerou uma nova e severa crise na Europa, nos campos econômico, militar, social (migração ucraniana) e energético (carvão, gás e petróleo russo), conseguiu pela primeira vez, na visão do Blog, unir a UE como ainda não havia sido visto, com decisões rápidas e assertivas contra a Rússia e a favor da Ucrânia.

Destarte, o conflito entre russos e ucranianos ratifica os dizeres de Jean Monnet, que foi um político francês, visto por muitos como o arquiteto da unidade europeia: "Europe will be forged in crises and will be the sum of the solutions adopted for those crises".

É digno de nota que a UE possui uma vertente militar, ainda pouco discutida, que pode ser comprovada na aprovação pelo Conselho da União Europeia, em 2008, pela primeira vez, de uma missão militar, a Força Naval da União Europeia na Somália (EUNAVFOR Somalia), também conhecida como “Operação Atalanta”. Seu objetivo principal é o combate à pirataria no Golfo de Áden e nas águas da Somália, protegendo o tráfego marítimo que atravessa diariamente essa região marítima. Além disso, no nosso artigo "A Finlândia poderá ser o novo objetivo militar russo?", abordamos a cláusula de defesa mútua dos Estados - Membros da UE.

Nesse cenário, vemos que os europeus cometeram dois erros e que tentam remediar:

- ter confiado aos EUA a sua defesa, ficando reféns dos investimentos militares estadunidenses e de sua boa vontade. O governo Trump demonstrou claramente essa fragilidade; e

- a dependência energética dos russos, e que não existe uma solução de curto prazo para isso. Entretanto, existe um movimento europeu para mitigar essa vulnerabilidade, por meio de medidas e políticas para o incremento da sua segurança energética.

Dessa forma, o Blog é de opinião que uma Europa cada vez mais unida e autossuficiente, sem a dependência estadunidense, permitirá, em futuro próximo, consolidar a UE como um Centro de Poder. Ademais, o atual conflito da Ucrânia teve o mérito de catalizar esse movimento, que talvez levasse mais tempo para ocorrer.

Essa análise alinha-se com o nosso artigo "O conflito da Ucrânia e o futuro da OTAN", 27 de fevereiro, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/o-conflito-da-ucrânia-e-o-futuro-da-otan, em que afirmamos que a OTAN, que estava enfraquecida e tentava reaver a sua força, credibilidade e protagonismo do passado, ressurge no atual conflito da Ucrânia como uma aliança coesa e forte, tentando fazer com que a Europa volte a ser um Polo de Poder. Com isso, a atual invasão russa à Ucrânia permitiu com que os problemas e vulnerabilidades apontados no nosso artigo "Europa uma senhora decadente, época de se reinventar", de 10 de abril de 2020, comecem a ser solucionados.

Uma reflexão que nos cabe nesse momento é se o Reino Unido - RU tomou a decisão correta em sair da UE. Cremos que em mais alguns anos teremos uma resposta mais madura. Em nossa visão, até o momento, foi uma decisão equivocada, pois colocou, praticamente, o destino do RU nas mãos dos EUA.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para ajudar a nossa análise:

Matéria de 15/12/2020:

Matéria de 15/10/2019:

Matéria de 10/09/2015: