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O Rearmamento Alemão diante da Ameaça Russa sob a ótica da Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG).

  • há 5 minutos
  • 5 min de leitura
Figura gerada com apoio de IA
Figura gerada com apoio de IA

Introdução

A decisão do governo alemão de promover um amplo rearmamento nacional representa uma das mais profundas inflexões estratégicas da Europa desde o fim da Guerra Fria. O processo, anunciado inicialmente em 2022 pelo chanceler Olaf Scholz sob o conceito de Zeitenwende (mudança de época), deixou de ser uma resposta conjuntural à invasão russa da Ucrânia para se consolidar como uma reconfiguração estrutural da política de defesa da Alemanha, conforme podemos ver no artigo “Turning point or turning back: German defence policy after Zeitenwende“, disponível em https://ecfr.eu/article/turning-point-or-turning-back-german-defence-policy-after-zeitenwende/ .

A guerra desencadeada por Vladimir Putin contra a Ucrânia alterou de forma dramática a arquitetura de segurança europeia. A percepção de ameaça no flanco oriental da Europa — particularmente nos Estados Bálticos, na Polônia e na própria Alemanha — tornou-se concreta. O artigo “Germany decides to leave history in the past and prepare for war“ da BBC News, acessível em https://www.bbc.com/news/articles/cdjyjlkewr2o, destaca que a elite política alemã passou a reconhecer que a dependência energética de Moscou e o subinvestimento militar deixaram Berlim vulnerável. Já o texto “Germany’s rearmament upends Europe’s power balance“, do POLITICO Europe, disponível em https://www.politico.eu/article/germany-rearmament-upends-europes-power-balance-military/, enfatiza que o rearmamento alemão altera o equilíbrio de poder intraeuropeu, reposicionando Berlim como potencial eixo central da defesa continental. Complementarmente, o historiador Niall Ferguson, em seu texto “Germany’s rearmament needs warp speed”, que pode ser lido em https://wwsg.com/speaker-news/niall-ferguson-germanys-rearmament-needs-warp-speed/, argumenta que o processo precisa ocorrer em “velocidade de guerra”, sob pena de a Alemanha repetir erros históricos de hesitação estratégica.

Este artigo aplica a Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG) constante no livro "A Importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI"  — nas dimensões de espaço, força, tempo, risco geopolítico e inteligência estratégica — para tentar examinar o significado estrutural do rearmamento alemão.


I. Espaço: A Reconfiguração Geopolítica do Centro da Europa

A Alemanha ocupa uma posição geográfica singular: é o maior Estado da Europa Ocidental em população e economia, localizado no coração do continente, com fronteiras com nove países e projeção tanto para o Mar do Norte quanto para o Báltico. Essa centralidade espacial historicamente gerou dilemas estratégicos — ora como potência revisionista, ora como potência contida.

Após 1990, a Alemanha apostou na integração econômica e na diluição do poder militar dentro da arquitetura da União Europeia - UE e da OTAN. O pressuposto era que a interdependência econômica reduziria a probabilidade de conflito com a Rússia. Essa aposta mostrou-se equivocada.

A invasão da Ucrânia transformou o espaço europeu em um ambiente novamente marcado por linhas de fratura militares. A Alemanha, até então protegida por um “cinturão de segurança” composto por Estados membros da OTAN a leste, passou a encarar um novo cenário:

  1. A Rússia demonstrou disposição para alterar fronteiras pela força.

  2. Países do flanco oriental demandam liderança alemã.

  3. A segurança continental não pode depender exclusivamente dos EUA.

Nesse sentido, o rearmamento alemão deslocará o centro gravitacional da defesa europeia de Paris e Londres para Berlim. Se concretizado, esse movimento altera a geometria estratégica do continente.

Sob a dimensão espacial da MIAG, o rearmamento alemão significa:

  • Consolidação da Alemanha como potência central terrestre da Europa;

  • Reforço do eixo Berlim–Varsóvia–Báltico;

  • Redução da assimetria militar intra-UE;

  • Reequilíbrio da relação franco-alemã.

Não se trata apenas de aumentar capacidades militares; trata-se de redefinir o papel territorial da Alemanha como pilar de contenção no centro da Europa.


II. Força: Capacidade Militar, Indústria de Defesa e Credibilidade Estratégica

A dimensão “força” da MIAG examina capacidades concretas — militares, industriais e políticas.

1. O Fundo Especial de Defesa

O governo alemão aprovou um fundo extraordinário de €100 bilhões para modernização das Forças Armadas alemãs ou Bundeswehr, https://www.bundeswehr.de/en/. A medida rompeu com décadas de austeridade militar.

O debate interno foi intenso, refletindo o trauma histórico alemão com militarização excessiva. Contudo, a percepção de vulnerabilidade tornou-se politicamente insustentável.

2. Capacidades e Lacunas

A Bundeswehr enfrentava problemas estruturais:

  • Baixa prontidão operacional;

  • Falta de munições;

  • Carência de equipamentos modernos;

  • Dependência tecnológica externa.

O rearmamento envolve aquisição de sistemas avançados — inclusive aeronaves F-35 para compartilhamento nuclear da OTAN — e fortalecimento da indústria nacional.

3. O Argumento de Ferguson

Niall Ferguson sustenta que a Alemanha precisa acelerar drasticamente o processo. Para ele, o problema não é apenas investir, mas investir com rapidez estratégica. A guerra na Ucrânia demonstra que conflitos convencionais de alta intensidade retornaram à Europa.

A dimensão “força” na MIAG exige análise de três níveis:

  • Força material;

  • Força política;

  • Força de dissuasão percebida.

Assim, o desafio alemão é converter recursos financeiros em capacidade operacional real.


III. Tempo: A Urgência Estratégica e a Janela de Oportunidade

A dimensão temporal é crítica. A Rússia opera em horizonte longo, enquanto a Alemanha, historicamente, adotou um horizonte econômico, ou seja, ela organizou sua estratégia nacional em torno da economia como principal instrumento de poder e estabilidade — diferentemente de uma postura tradicionalmente militarizada.

Portanto, um atraso no rearmamento alemão pode comprometer a credibilidade europeia. Ferguson é ainda mais incisivo: a história mostra que potências que reagem tardiamente pagam custos elevados.

O tempo estratégico europeu está comprimido. A guerra na Ucrânia pode prolongar-se; a incerteza sobre o compromisso estadunidense aumenta; e a Rússia demonstra capacidade de mobilização industrial.

Logo, a Alemanha precisa reduzir o hiato entre decisão política e prontidão militar.


IV. Risco Geopolítico: Aplicação da Fórmula MIAG

A fórmula da MIAG define:

Risco Geopolítico = (Ameaças × Vulnerabilidades) ÷ Capacidades

1. Ameaças

  • Expansão russa;

  • Instabilidade no flanco oriental;

  • Redução do compromisso americano;

  • Guerra híbrida.

2. Vulnerabilidades

  • Subinvestimento militar histórico;

  • Dependência energética passada;

  • Cultura estratégica pacifista;

  • Lentidão burocrática.

3. Capacidades

  • Maior economia da Europa;

  • Indústria tecnológica avançada;

  • Base industrial de defesa robusta;

  • Inserção institucional na OTAN e UE.


Quadro Síntese

Elemento

Avaliação

Ameaça

Alta

Vulnerabilidade

Média-Alta

Capacidade

Alta (potencial), Média (operacional atual)

Resultado: o risco geopolítico alemão permanece significativo enquanto capacidades potenciais não se traduzirem em poder operacional.


V. Inteligência Estratégica: Antecipação, Cultura e Liderança

A dimensão final da MIAG examina a capacidade de antecipação estratégica.

A Alemanha demonstrou falhas ao subestimar a disposição russa para guerra aberta. A confiança excessiva no comércio como instrumento pacificador revelou-se limitada.

Agora, a inteligência estratégica alemã enfrenta três imperativos:

  1. Antecipar cenários de escalada;

  2. Coordenar política industrial e defesa;

  3. Reeducar cultura estratégica nacional.

O rearmamento não é apenas técnico — é cultural.

A liderança alemã precisa equilibrar responsabilidade histórica com responsabilidade contemporânea. O passado impõe cautela; o presente exige ação.


Conclusão

O rearmamento alemão representa uma inflexão estrutural no sistema europeu de poder. Sob a ótica da MIAG:

  • Espaço: Alemanha reafirma centralidade estratégica.

  • Força: Busca converter poder econômico em poder militar.

  • Tempo: Enfrenta urgência estratégica.

  • Risco: Permanece elevado até plena operacionalização.

  • Inteligência: Exige transformação cultural profunda.

A Europa entra em nova fase histórica. A Alemanha, por décadas potência civil, caminha para reassumir papel de potência estratégica. O sucesso ou fracasso dessa transição determinará o equilíbrio de poder europeu nas próximas décadas.

A Zeitenwende não é apenas uma mudança de política; é mudança de identidade estratégica. E, como toda transformação histórica alemã, poderá ter repercussões continentais.


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Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 06/02/2026:

Matéria de 15/12/2025:

Matéria de 31/12/2025:


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