O Rearmamento Alemão diante da Ameaça Russa sob a ótica da Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG).
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Introdução
A decisão do governo alemão de promover um amplo rearmamento nacional representa uma das mais profundas inflexões estratégicas da Europa desde o fim da Guerra Fria. O processo, anunciado inicialmente em 2022 pelo chanceler Olaf Scholz sob o conceito de Zeitenwende (mudança de época), deixou de ser uma resposta conjuntural à invasão russa da Ucrânia para se consolidar como uma reconfiguração estrutural da política de defesa da Alemanha, conforme podemos ver no artigo “Turning point or turning back: German defence policy after Zeitenwende“, disponível em https://ecfr.eu/article/turning-point-or-turning-back-german-defence-policy-after-zeitenwende/ .
A guerra desencadeada por Vladimir Putin contra a Ucrânia alterou de forma dramática a arquitetura de segurança europeia. A percepção de ameaça no flanco oriental da Europa — particularmente nos Estados Bálticos, na Polônia e na própria Alemanha — tornou-se concreta. O artigo “Germany decides to leave history in the past and prepare for war“ da BBC News, acessível em https://www.bbc.com/news/articles/cdjyjlkewr2o, destaca que a elite política alemã passou a reconhecer que a dependência energética de Moscou e o subinvestimento militar deixaram Berlim vulnerável. Já o texto “Germany’s rearmament upends Europe’s power balance“, do POLITICO Europe, disponível em https://www.politico.eu/article/germany-rearmament-upends-europes-power-balance-military/, enfatiza que o rearmamento alemão altera o equilíbrio de poder intraeuropeu, reposicionando Berlim como potencial eixo central da defesa continental. Complementarmente, o historiador Niall Ferguson, em seu texto “Germany’s rearmament needs warp speed”, que pode ser lido em https://wwsg.com/speaker-news/niall-ferguson-germanys-rearmament-needs-warp-speed/, argumenta que o processo precisa ocorrer em “velocidade de guerra”, sob pena de a Alemanha repetir erros históricos de hesitação estratégica.
Este artigo aplica a Metodologia Integrada de Análise Geopolítica (MIAG) constante no livro "A Importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI" — nas dimensões de espaço, força, tempo, risco geopolítico e inteligência estratégica — para tentar examinar o significado estrutural do rearmamento alemão.
I. Espaço: A Reconfiguração Geopolítica do Centro da Europa
A Alemanha ocupa uma posição geográfica singular: é o maior Estado da Europa Ocidental em população e economia, localizado no coração do continente, com fronteiras com nove países e projeção tanto para o Mar do Norte quanto para o Báltico. Essa centralidade espacial historicamente gerou dilemas estratégicos — ora como potência revisionista, ora como potência contida.

Após 1990, a Alemanha apostou na integração econômica e na diluição do poder militar dentro da arquitetura da União Europeia - UE e da OTAN. O pressuposto era que a interdependência econômica reduziria a probabilidade de conflito com a Rússia. Essa aposta mostrou-se equivocada.
A invasão da Ucrânia transformou o espaço europeu em um ambiente novamente marcado por linhas de fratura militares. A Alemanha, até então protegida por um “cinturão de segurança” composto por Estados membros da OTAN a leste, passou a encarar um novo cenário:
A Rússia demonstrou disposição para alterar fronteiras pela força.
Países do flanco oriental demandam liderança alemã.
A segurança continental não pode depender exclusivamente dos EUA.
Nesse sentido, o rearmamento alemão deslocará o centro gravitacional da defesa europeia de Paris e Londres para Berlim. Se concretizado, esse movimento altera a geometria estratégica do continente.
Sob a dimensão espacial da MIAG, o rearmamento alemão significa:
Consolidação da Alemanha como potência central terrestre da Europa;
Reforço do eixo Berlim–Varsóvia–Báltico;
Redução da assimetria militar intra-UE;
Reequilíbrio da relação franco-alemã.
Não se trata apenas de aumentar capacidades militares; trata-se de redefinir o papel territorial da Alemanha como pilar de contenção no centro da Europa.
II. Força: Capacidade Militar, Indústria de Defesa e Credibilidade Estratégica
A dimensão “força” da MIAG examina capacidades concretas — militares, industriais e políticas.
1. O Fundo Especial de Defesa
O governo alemão aprovou um fundo extraordinário de €100 bilhões para modernização das Forças Armadas alemãs ou Bundeswehr, https://www.bundeswehr.de/en/. A medida rompeu com décadas de austeridade militar.
O debate interno foi intenso, refletindo o trauma histórico alemão com militarização excessiva. Contudo, a percepção de vulnerabilidade tornou-se politicamente insustentável.
2. Capacidades e Lacunas
A Bundeswehr enfrentava problemas estruturais:
Baixa prontidão operacional;
Falta de munições;
Carência de equipamentos modernos;
Dependência tecnológica externa.
O rearmamento envolve aquisição de sistemas avançados — inclusive aeronaves F-35 para compartilhamento nuclear da OTAN — e fortalecimento da indústria nacional.
3. O Argumento de Ferguson
Niall Ferguson sustenta que a Alemanha precisa acelerar drasticamente o processo. Para ele, o problema não é apenas investir, mas investir com rapidez estratégica. A guerra na Ucrânia demonstra que conflitos convencionais de alta intensidade retornaram à Europa.
A dimensão “força” na MIAG exige análise de três níveis:
Força material;
Força política;
Força de dissuasão percebida.
Assim, o desafio alemão é converter recursos financeiros em capacidade operacional real.
III. Tempo: A Urgência Estratégica e a Janela de Oportunidade
A dimensão temporal é crítica. A Rússia opera em horizonte longo, enquanto a Alemanha, historicamente, adotou um horizonte econômico, ou seja, ela organizou sua estratégia nacional em torno da economia como principal instrumento de poder e estabilidade — diferentemente de uma postura tradicionalmente militarizada.
Portanto, um atraso no rearmamento alemão pode comprometer a credibilidade europeia. Ferguson é ainda mais incisivo: a história mostra que potências que reagem tardiamente pagam custos elevados.
O tempo estratégico europeu está comprimido. A guerra na Ucrânia pode prolongar-se; a incerteza sobre o compromisso estadunidense aumenta; e a Rússia demonstra capacidade de mobilização industrial.
Logo, a Alemanha precisa reduzir o hiato entre decisão política e prontidão militar.
IV. Risco Geopolítico: Aplicação da Fórmula MIAG
A fórmula da MIAG define:
Risco Geopolítico = (Ameaças × Vulnerabilidades) ÷ Capacidades
1. Ameaças
Expansão russa;
Instabilidade no flanco oriental;
Redução do compromisso americano;
Guerra híbrida.
2. Vulnerabilidades
Subinvestimento militar histórico;
Dependência energética passada;
Cultura estratégica pacifista;
Lentidão burocrática.
3. Capacidades
Maior economia da Europa;
Indústria tecnológica avançada;
Base industrial de defesa robusta;
Inserção institucional na OTAN e UE.
Quadro Síntese
Elemento | Avaliação |
Ameaça | Alta |
Vulnerabilidade | Média-Alta |
Capacidade | Alta (potencial), Média (operacional atual) |
Resultado: o risco geopolítico alemão permanece significativo enquanto capacidades potenciais não se traduzirem em poder operacional.
V. Inteligência Estratégica: Antecipação, Cultura e Liderança
A dimensão final da MIAG examina a capacidade de antecipação estratégica.
A Alemanha demonstrou falhas ao subestimar a disposição russa para guerra aberta. A confiança excessiva no comércio como instrumento pacificador revelou-se limitada.
Agora, a inteligência estratégica alemã enfrenta três imperativos:
Antecipar cenários de escalada;
Coordenar política industrial e defesa;
Reeducar cultura estratégica nacional.
O rearmamento não é apenas técnico — é cultural.
A liderança alemã precisa equilibrar responsabilidade histórica com responsabilidade contemporânea. O passado impõe cautela; o presente exige ação.
Conclusão
O rearmamento alemão representa uma inflexão estrutural no sistema europeu de poder. Sob a ótica da MIAG:
Espaço: Alemanha reafirma centralidade estratégica.
Força: Busca converter poder econômico em poder militar.
Tempo: Enfrenta urgência estratégica.
Risco: Permanece elevado até plena operacionalização.
Inteligência: Exige transformação cultural profunda.
A Europa entra em nova fase histórica. A Alemanha, por décadas potência civil, caminha para reassumir papel de potência estratégica. O sucesso ou fracasso dessa transição determinará o equilíbrio de poder europeu nas próximas décadas.
A Zeitenwende não é apenas uma mudança de política; é mudança de identidade estratégica. E, como toda transformação histórica alemã, poderá ter repercussões continentais.
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Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:
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