Geopolítica Energética e a Emergência Climática: crises, tensões, conflitos e perspectivas - Parte II.
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Introdução: a guerra energética retorna ao centro do sistema internacional
A geopolítica energética contemporânea atravessa um momento de inflexão histórica. Se, nas últimas décadas, observou-se um discurso crescente acerca da transição energética, da descarbonização e da perda relativa de centralidade do petróleo, os acontecimentos recentes no Oriente Médio — particularmente o conflito envolvendo Irã, Israel e EUA — recolocam a energia fóssil, suas infraestruturas e seus fluxos logísticos no epicentro das disputas estratégicas globais.
O ataque a infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico — incluindo campos de gás, refinarias e terminais de exportação — representa não apenas um episódio tático dentro de um conflito regional, mas um evento de natureza sistêmica, com capacidade de reverberação global. A energia, nesse contexto, deixa de ser apenas um fator econômico ou um instrumento indireto de poder, para se consolidar como um vetor operacional direto de conflito.
Essa transformação exige uma atualização conceitual profunda: a geopolítica energética deve ser analisada como um sistema dinâmico, no qual interagem simultaneamente fatores militares, tecnológicos, econômicos e ambientais.
O que se verifica não é um retorno ao passado, mas uma reconfiguração híbrida da geopolítica energética, na qual coexistem:
· a lógica clássica da disputa por recursos energéticos;
· a vulnerabilidade crescente das infraestruturas críticas;
· e a transição energética em curso, ainda incompleta e desigual.
O conflito iniciado em em 28 de fevereiro de 2026 demonstra, de forma inequívoca, que a energia continua sendo simultaneamente:
1. instrumento de poder estratégico;
2. alvo militar prioritário;
3. vetor de coerção econômica global.
Nesse sentido, o presente artigo é uma atualização do "Geopolítica Energética e a Emergência Climática: crises, tensões, conflitos e perspectivas", de 05 de fevereiro de 2022, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/geopolítica-energética-e-a-emergência-climática-crises-tensões-conflitos-e-perspectivas, o qual recomendo a leitura para melhorar a contextualização do tema pelo leitor.
1. A militarização da energia: da interdependência à vulnerabilidade estratégica
A escalada militar entre Irã, Israel e EUA introduziu uma nova fase na geopolítica energética: a militarização explícita das infraestruturas energéticas.
1.1 Ataques diretos a instalações energéticas
O ataque israelense ao campo de gás de South Pars — o maior do mundo — constitui um marco estratégico dessa transformação. O impacto foi imediato:
· interrupção parcial da produção de gás iraniano;
· choque nos preços globais de energia;
· reação militar direta do Irã contra instalações energéticas no Golfo.
Além disso, houve ataques coordenados contra:
· refinarias;
· terminais de exportação;
· complexos industriais de gás natural liquefeito (GNL).
Esse padrão indica que a energia deixou de ser apenas objeto de disputa indireta para se tornar alvo operacional direto.
1.2 A lógica da retaliação energética em cadeia
O conflito evoluiu para uma dinâmica de retaliação simétrica e escalatória, na qual:
· ataques a infraestruturas energéticas geram respostas equivalentes;
· países terceiros (como Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos) tornam-se alvos indiretos.
O Irã, por exemplo, ameaçou explicitamente atacar instalações energéticas em toda a região caso suas próprias infraestruturas fossem atingidas. Logo, essa lógica estabelece um novo paradigma: a energia não apenas financia a guerra — ela se torna o próprio campo de batalha.
Instalações energéticas importantes passaram a ser tratados como alvos de alto valor estratégico, equivalentes a bases militares ou centros de comando. Essa mudança reflete uma lógica clara: a destruição ou disrupção da capacidade energética de um adversário produz efeitos sistêmicos mais amplos do que ataques puramente militares.
2. O Estreito de Ormuz: o “choke point” (ponto de estrangulamento marítimo) energético global sob pressão
O Estreito de Ormuz reafirma sua condição como o ponto nevrálgico da geopolítica energética global.
2.1 Disrupção logística e efeitos sistêmicos
Cerca de 20% do petróleo e gás mundial transitam por essa rota. No contexto do conflito:
· embarcações foram danificadas;
· o tráfego marítimo foi bastante restringido;
· cadeias globais de suprimento energético começaram a ser desorganizadas.
A interrupção prolongada desse fluxo representa um risco sistêmico para a economia global.
2.2 O controle do fluxo energético como instrumento de poder
O Irã demonstrou capacidade de:
· restringir ou ameaçar o tráfego no estreito;
· utilizar essa capacidade como instrumento de coerção estratégica.
Trata-se de uma aplicação clássica do conceito de controle de choke points, adaptado à realidade contemporânea: quem controla os fluxos energéticos (estreitos) controla os ritmos da economia global.
3. Infraestruturas críticas: o novo centro de gravidade estratégico
A guerra atual revela que o verdadeiro centro de gravidade não é apenas o recurso energético, mas sua infraestrutura.
3.1 Vulnerabilidades estruturais
As infraestruturas energéticas apresentam:
· alta concentração geográfica;
· dependência tecnológica;
· baixa redundância.
Isso as torna alvos ideais para:
· ataques de precisão;
· operações de sabotagem;
· ações assimétricas.
3.2 Efeitos multiplicadores
A destruição de infraestruturas energéticas gera:
· impacto econômico imediato;
· instabilidade social;
· pressão política interna.
4. A geopolítica do petróleo está em declínio? Evidências empíricas do conflito
Os eventos de 2026 oferecem um teste empírico direto à hipótese de declínio da geopolítica do petróleo.
Historicamente, a geopolítica do petróleo estruturou-se a partir de três eixos fundamentais:
1. controle de reservas;
2. domínio de rotas logísticas;
3. capacidade de projeção militar para proteção desses ativos.
No entanto, o século XXI introduz variáveis adicionais que ampliam esse escopo:
· interdependência energética global;
· financeirização dos mercados de energia;
· emergência da agenda climática;
· digitalização das infraestruturas críticas.
4.1 Persistência da centralidade dos hidrocarbonetos
Apesar da transição energética:
· o petróleo continua sendo essencial para transporte e indústria;
· o gás natural mantém papel crítico na geração de energia.
A reação dos mercados — com preços ultrapassando US$ 100 por barril — demonstra que: a dependência estrutural permanece elevada.
4.2 A transição energética como processo incompleto
O conflito evidencia que:
· a infraestrutura renovável ainda não substitui plenamente os fósseis;
· sistemas energéticos continuam dependentes de cadeias globais vulneráveis.
Portanto, não há substituição, mas sim sobreposição de paradigmas energéticos.
5. Impactos globais: energia, economia e segurança internacional
5.1 Risco sistêmico global
Executivos do setor energético alertam que a continuidade do conflito pode gerar:
· crise energética global;
· retração econômica;
· desorganização dos mercados.
5.2 Reconfiguração dos fluxos energéticos
O conflito acelera:
· diversificação de fornecedores;
· busca por rotas alternativas;
· investimentos em segurança energética.
A análise do conflito atual no Oriente Médio confirma que não se trata apenas de petróleo ou gás, mas de um ecossistema energético integrado e vulnerável.
6. A relação entre crise climática e conflito energético
A crise climática e a guerra energética não são fenômenos isolados — são interdependentes.
6.1 Paradoxo energético
Enquanto o mundo busca reduzir emissões os conflitos aumentam a dependência de combustíveis fósseis e a segurança energética se sobrepõe à agenda climática.
6.2 Transição sob tensão
A guerra retarda investimentos em energia limpa e redireciona recursos para segurança e defesa.
7. Síntese analítica por meio da MIAG
A aplicação da Metodologia Integrada de Análise Geopolítica - MIAG, constante no livro "A importância da Geopolítica no Mundo Mais Imprevisível e Menos Seguro do Século XXI", no atual conflito do Oriente Médio, nos permite concluir que:
1. Estruturalmente, a energia continua sendo eixo central do poder global;
2. Conjunturalmente, o conflito no Oriente Médio reativa a geopolítica clássica dos hidrocarbonetos;
3. Prospectivamente, a transição energética ocorrerá sob tensão, e não de forma linear.
A aplicação da equação da análise de risco da MIAG (Risco Geopolítico = (Ameaças × Vulnerabilidades) ÷ Capacidades) no conflito evidencia que:
· Ameaças: elevadas e em expansão
· Vulnerabilidades: estruturais e persistentes
· Capacidades: desiguais entre os atores
Logo, o sistema energético global apresenta: "risco geopolítico elevado, com tendência de agravamento em cenários de escalada prolongada."

Conclusão: a energia como eixo da ordem internacional em transformação
O conflito entre Irã, Israel e EUA confirma uma tese fundamental: a geopolítica energética do petróleo ainda não está em declínio.
A transição energética não elimina a centralidade da energia, mas a reconfigura em um sistema mais complexo, no qual:
· fósseis e renováveis coexistem;
· infraestruturas tornam-se alvos estratégicos;
· conflitos assumem caráter sistêmico.
A guerra energética contemporânea não se limita ao controle de recursos — ela envolve:
· controle de fluxos;
· domínio tecnológico;
· capacidade de disrupção.
Nesse contexto, Estados que desejam preservar sua autonomia estratégica deverão:
· diversificar suas matrizes energéticas;
· proteger suas infraestruras críticas;
· integrar segurança energética à sua estratégia nacional.
A energia, portanto, permanece — mais do que nunca — o eixo estruturante da geopolítica do século XXI.
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