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Suriname: Guiana Chinesa? Possível palco de disputa geopolítica entre potências.


Figura disponível em: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/attachments/maps/NS-map.jpg

O Suriname é um pequeno país que faz fronteira ao norte com o Brasil, e é esquecido por boa parte dos brasileiros. Porém, tem ganhado destaque nos últimos anos devido aos fatores abaixo:

  • descoberta de boas reservas de petróleo e gás na área marítima da Guiana e que se estende às águas jurisdicionais do Suriname, e que poderá colocar esse país como um ator importante na geopolítica do petróleo ;

  • ser um Estado amazônico, onde cerca de 90% do país é coberto pela floresta, com acesso a biodiversidade e aos recursos naturais disponíveis em seu território;

  • ter assinado um acordo de cooperação estratégica com a China em 2019, notadamente nos setores de infraestrutura, agricultura, silvicultura, pesca, comunicações e energia;

  • ter aceitado, em 2018, fazer parte do projeto Belt and Road Iniciative chinês para a América do Sul e Caribe.

Convém mencionar que várias empresas de exploração de petróleo tem interesses na região, dentre elas a Exxon Mobil dos EUA.

Figura disponível em: https://www.petroleum-economist.com/media/7483/suriname-apache-jan20-2.jpg?width=
Figura disponível em: https://www.silkroadbriefing.com/news/wp-content/uploads/2019/05/Caribbean-West-Indies-Nations-That-Have-Joined-Chinas-Belt-Road-Initiative.jpg

O governo de Paramaribo possui uma história de instabilidade de política, em que um dos seus mais notórios presidentes foi Desiré Bouterse que governou o país em três ocasiões, sendo uma durante a ditadura militar no período de 1980 a 1987, e quando foi eleito em 2010 e reeleito em 2015. No final de 2019 foi condenado no Suriname, quando estava ausente em viagem oficial à China, por pretensos crimes de eliminação de adversários políticos durante a sua primeira gestão, mas ainda nada aconteceu, e tentou um novo mandato nas eleições de 2020, sendo derrotado por Chan Santokhi.

A contextualização acima é importante para demonstrar que durante o regime autoritário de Bouterse houve a aproximação com a China. Nos demais períodos em que governou reconheceu a política de uma só China, e abriu o país para os investimentos chineses e aderiu ao projeto da nova rota da seda. Desde 2010, aconteceu o incremento de chineses no Suriname, em que atualmente encontramos no país centenas de empresas chinesas ou comandadas por chineses, desde lojas, casinos, restaurantes até empresas de exploração de recursos minerais, dentre eles o alumínio, e bancos. Atualmente os chineses são responsáveis por cerca de 90% dos estabelecimentos de alimentação. Além disso, é digno de nota que há um canal de televisão que opera em mandarim.

Um dos principais interesses chineses no país é no tocante as riquezas existentes na floresta amazônica surinamesa, como ouro, bauxita, madeira e alumínio. A China é o principal parceiro comercial do Suriname, e tem aumentado a presença de chineses na população do país.

Nesse cenário, os EUA estão tentando diminuir a influência chinesa no Suriname, bem como defender os interesses de suas empresas na exploração de petróleo e gás nas águas do país, demonstrando a preocupação do governo de Washington com o aumento da presença chinesa em sua vizinhança, conforme o Blog analisou em seu artigo: "China e as Américas Central e do Sul: preocupação para os EUA", disponível em: https://www.atitoxavier.com/post/china-e-as-américas-central-e-do-sul-preocupação-para-os-eua .

Para tanto, Mike Pompeo, em setembro deste ano, visitou Paramaribo, sendo a primeira de um Secretário de Estado estadunindense ao país. Nesse evento, ele elogiou as empresas dos EUA e fez duras críticas à forma com que a China realiza parcerias econômicas, o que gerou reclamações contundentes do governo chinês, conforme podemos verificar na nota abaixo do Embaixador chinês no Suriname:


Press Release

By the Embassy of the P. R. China in the Republic of Suriname 2020/09/18 On September 17, US Secretary of State Michael R. Pompeo made provocative remarks on China-related issues during his working visit to Suriname,to which we strongly oppose. Under the pretext of "democracy", "freedom" and "human rights", Pompeo leveled groundless accusations and attacks against China, maliciously instigated China’s relations with other countries. As is evident, China and Suriname are good friends and good partners with mutual respect, equality and mutual benefit. Our relations has set a good example among countries having different political systems, different cultures and geographical sizes. Over the years, the close cooperation in various fields has yielded fruitful results for the betterment of our two peoples. China firmly adheres to the principles of mutual respect, mutual benefit and win-win cooperation in developing relations with Latin American countries including Suriname. The Chinese government has always required overseas Chinese companies to abide by local laws and regulations, and to run business in an open, clean and transparent manner. We believe that Surinamese people from all walks of life will make their own correct judgment. Any attempt to sow discord between China and Suriname is doomed to fail. We advise Mr. Pompeo to respect facts and truth, abandon arrogance and prejudice, stop smearing and spreading rumors about China.


Outro fato interessante que devemos observar é que o Suriname possui cerca de 25% da sua população constituída por indianos ou por descendentes, o que faz com que o país tenha laços com a Índia. Dessa forma, o Primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que possui uma política assertiva e vive um período conturbado com a China, tenta, nos dias de hoje, se aproximar do atual presidente surinamês Santokhi, que possui ascendência indiana, visando aumentar a influência do governo de Nova Delhi no país, e diminuir o protagonismo chinês.

O nosso país possui alguns acordos de cooperação com o Suriname, mas não exerce influência nesse Estado. Existem registros de problemas entre garimpeiros brasileiros ilegais em busca de ouro, indígenas que habitam a área de fronteira e autoridades surinamesas.

O Blog é de opinião que devido o Suriname ser uma porta de acesso aos recursos da floresta amazônica, bem como a descoberta de reservas de petróleo e gás em suas águas territoriais possam colocá-lo como um ator importante na exploração desses recursos energéticos, em que pese não tenha grandes dimensões territoriais, faz com que esse país possa se transformar num palco de disputa geopolítica entre China, EUA e Índia.

Nesse sentido, é recomendável que o Brasil atente para a região de fronteira com o Suriname, visando evitar exploração econômica ou migração ilegais nessa região. Ademais, essa possível disputa entre as potências elencadas no artigo poderá impactar no nosso país, pois poderá ocorrer o estabelecimento, no Suriname, de bases ou tropas militares exógenas ao nosso continente, como a China vem realizando na África, trazendo instabilidade geopolítica ao nosso Entorno Estratégico.

Qual a sua opinião sobre o assunto? O Brasil deve se preocupar com o que vem ocorrendo com o Suriname? É interessante tentarmos exercer uma influência política e econômica no nosso vizinho, visando evitar o estabelecimento de potências estrangeiras ao nosso continente?

Seguem alguns vídeos para ajudar nas nossas análises:

Matéria de 27/11/2019:

Matéria de 14/07/2018:

Matéria de 30/11/2019:

Matéria de 26/07/2020:

Matéria de 02/05/2018:

Matéria de 21/11/2012:

Matéria de 23/01/2020:

Matéria de 02/04/2020:

Matéria de 09/08/2020:



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