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Parceria entre a China e o Talibã: possíveis desdobramentos.


Figura disponível em: https://images.wsj.net/im-376655?width=860&height=573

Com o início da retirada das tropas dos EUA e dos seus aliados do Afeganistão, o grupo fundamentalista Talibã vem conquistando vários territórios no país, onde atualmente controla cerca de 85%. Com isso, vários países vizinhos estão apreensivos com a troca de poder do governo afegão, em virtude de um possível aumento da instabilidade na região.

É digno de nota que começa a haver um grande fluxo de refugiados afegãos, fugindo dos Talibãs, em direção a Turquia e ao Irã.

Porém, outros Estados enxergam a saída estadunidense como uma oportunidade em obter ganhos geopolíticos que atendam aos seus interesses nacionais, dentre eles podemos mencionar o Paquistão, Irã, Arábia Saudita, Rússia, Turquia e, principalmente, a China, que será o objetivo da análise desse artigo devido a ter dado o primeiro movimento nesse sentido.

O Blog vem acompanhando a situação afegã, pois esse país tem sido, nos Séculos XX e XXI, um palco de conflitos duradouro (mais de 30 anos), não somente no campo interno com guerra civil, mas também no externo com disputas geopolíticas entre Estados, como os EUA e a ex-União Soviética, e ainda, em nossa análise, possui os ingredientes para continuar permanecendo como um ator de interesse internacional.

Dessa forma, apresentaremos ao leitor, de forma resumida, alguns de nossos artigos, com o intuito de mostrar uma pequena contextualização do quadro local:

- "Afeganistão: a volta dos Talibãs ao poder", de 10 de agosto de 2020, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/afeganistão-a-volta-dos-talibãs-ao-poder, em que afirmamos que o país tem como característica a divisão em regime tribal onde se destacam os Pashtun, Tajik, Hazara e Uzbek, e devido as décadas de conflito tornou-se extremamente dependente de ajuda econômica estrangeira, além de apresentar grandes problemas de infraestrutura, fazendo com que a população sofra com interrupção de energia, falta de água e um elevado nível de desemprego e miséria. Além disso, informamos que o Talibã, que é a principal força militar no país, possui grande influência saudita, sendo o seu poderio militar mantido à custa de apoio externo, notadamente dos paquistaneses e dos árabes, e mais recentemente dos iranianos. É importante ressaltar que uma parte dos recursos financeiros que é utilizado pelo grupo é proveniente da venda do ópio produzido no país. Convém mencionar que os talibãs foram muito importantes no combate ao estabelecimento do Estado Islâmico no país, e várias fontes alegam que nessa empreitada contaram com o apoio do Irã. Apesar de serem de vertentes muçulmanas antagônicas, possuíam o objetivo comum de impedir a expansão e a consolidação desse grupo extremista no Afeganistão, que faz fronteira com o Irã. Ademais, afirmamos que o Talibã alega, novamente, que o seu intento é trazer paz e prosperidade ao Afeganistão, mas a história mostrou que após chegar ao poder, agiu de forma diferente ao discurso. O grupo nunca reconheceu nenhum governo afegão eleito democraticamente. Dessa forma, em nossa análise, dissemos que o Talibã encerrará o período democrático no Afeganistão, e tentará instalar um governo teocrático;

- "Seção Inteligência: o serviço de inteligência paquistanês e sua ligação com o Talibã", de 21 de outubro de 2020, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/seção-inteligência-o-serviço-de-inteligência-paquistanês-e-sua-ligação-com-o-talibã , onde dissemos que o Inter Services Intelligence - (ISI) que é a principal agência de inteligência paquistanesa, sendo responsável pela área internacional, sendo totalmente independente das outras agências de inteligência desse país, tem ligações com o grupo afegão Talibã, e treinava grupos extremistas para cometer atentados no interior da Índia, principalmente na região disputada da Caxemira, possui campos de treinamento no Afeganistão. Com a aproximação dos EUA com a Índia, visando consolidar uma aliança para conter a China, houve um estreitamento de laços entre os governos de Islamabad e Pequim, com o consequente distanciamento entre os EUA e o Paquistão. Dessa forma, o ISI voltou a apoiar o Talibã, até com operações sigilosas, em seu objetivo de voltar ao poder, e contribuir para a retirada das tropas estadunidenses do território afegão. Nesse sentido, vários analistas relatam que o Talibã é usado como um proxy do Paquistão, por meio do ISI, para realizar atentados no interior da Índia, bem como para ter um aliado relevante no Afeganistão, impedindo uma possível influência indiana nesse governo. Isso também acabaria sendo um bom negócio para a China.

Nesse cenário, a China apresenta a intenção de incluir o Afeganistão em seu projeto da Nova Rota da Seda, conhecido como Belt and Road Iniciative - BRI, pois alega que o território afegão seria importante para facilitar o acesso aos demais países da região, bem como para poder explorar os recursos naturais, que tanto necessita, contidos nas montanhas desse país. Dessa forma, haveria investimentos em infraestrutura, o que é muito necessário para o Afeganistão.

Entretanto, o real interesse chinês reside na manutenção de sua segurança interna, pois tem sofrido ataques terroristas de grupos fundamentalistas islâmicos em sua província de Xinjiang, provenientes da região conhecida como Wakhan Corridor, que fica no Afeganistão e dá acesso a China. Com isso, a saída das tropas da OTAN, que apesar dos problemas traziam uma certa estabilidade e segurança, poderá ter como consequência o aumento da liberdade de ação dos grupos terroristas que operam a partir do território afegão.

Figura disponível em: https://i.dawn.com/primary/2018/02/5a7cd18c1e293.jpg

Dentre os grupos terroristas, o que mais preocupa a China é o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, conhecido como Eastern Turkistan Islamic Movement (ETIM), que aparenta ter ligações com a Al Qaeda e ligações diretas com o Talibã. O Grupo tem como objetivo realizar a independência do Turquestão Oriental, em que a minoria Uigur é reprimida na China com extrema violência em Xinjiang. Com isso, uma parte do território chinês estaria nesse novo país.

Dessa forma, uma parceria com os Talibãs, que possui influência sobre o ETIM, é estrategicamente importante para a China evitar movimentos separatistas em seu território, pois a China é considerada por muitos analistas como colonialista e imperialista, conforme os exemplos da anexação do Tibete, dentre outros.

Figura disponível em: https://i0.wp.com/shanghaiist.com/attachments/shanghailaine/official_mapChina.gif?resize=530%2C391
Figura disponível em: https://east-turkistan.net/wp-content/uploads/2020/05/East-Turkistan-Map-png-1.png

Outrossim, uma parceria estratégica com a China seria importante para o reconhecimento internacional do Talibã como uma força política e militar legítima do Afeganistão, o que lhe daria respaldo interno, bem como em negociações com outros governos no exterior.

Convém mencionar, que tem sido observado que os países que possuem governos autoritários e com pouca instabilidade são os mais interessantes para a China em realizar as suas parcerias estratégicas. Destarte, os Talibãs se apresentam como uma oportunidade para a China atingir os seus dois objetivos: segurança interna e aumento do mercado.

Nesse cenário, em 28 de julho, houve um encontro entre os representantes dos Talibãs com o Ministro das Relações Exteriores da China, onde no evento foi ratificado pelo governo de Pequim a importância daquele grupo no processo de pacificação e de reconstrução do Afeganistão, bem como o apoio da China ao Grupo.

O Blog é de opinião de que a parceria estratégica entre a China e os Talibãs é extremamente importante para ambos. Porém, acreditamos que caso os Talibãs não cumpram a sua parte da parceria, que seria a contenção do ETIM, poderá haver incursões militares chinesas ao território afegão, na região de Wakhan, num futuro próximo, a fim de de reprimir grupos terroristas que sejam consideradas ameaças a soberania chinesa e, com isso, evitar um aumento de movimentos separatistas em Xinjiang.

Acreditamos que o Paquistão possuirá um papel relevante em qualquer parceria ou ação com o Afeganistão.

Resta-nos acompanhar o desenrolar dos eventos e verificar se o Afeganistão manterá a sua sina de ser um palco de disputas.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar em nossa análise:

Matéria de 04/08/2021:

Matéria de 29/07/2021:

Matéria de 09/07/2021:

Matéria de 09/07/2021:

Matéria de 28/07/2021:

Matéria de 28/07/2021:

Matéria de 28/07/2021:

Matéria de 05/08/2021:



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