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A importância da Inteligência Artificial - IA na Geopolítica do Século XXI.

  • há 6 minutos
  • 5 min de leitura
Figura gerada com apoio de IA
Figura gerada com apoio de IA

Introdução

No limiar da década de 2020, a inteligência artificial (IA) deixou de ser um fenômeno meramente tecnológico para se tornar um elemento estratégico e central da organização do poder estrutural dos Estados soberanos, pois ela é hoje uma tecnologia transversal, que permeia desde sistemas de defesa e inteligência, passando por infraestruturas críticas, até setores econômicos, educação, saúde pública, meios de comunicação e gestão governamental.

Nesse sentido, existem razões profundas pelas quais Estados contemporâneos estão engajados em esculpir capacidades autóctones de IA, ao invés de simplesmente incorporar soluções estrangeiras. Portanto, em nossa visão, essa não é apenas uma preocupação tecnológica: é uma necessidade geopolítica.

Afinal, em um contexto global de competição estratégica, notadamente entre a China e os EUA, a IA pode ser considerada tanto um campo de disputa quanto um vetor configurador de poder nacional no século XXI.

Dessa forma, o presente artigo tentará mostrar a importância da IA, bem como os seus possíveis impactos na Geopolítica do Século XXI.


I - Dependência Tecnológica e Vulnerabilidades Estratégicas

Ter uma dependência de tecnologias estrangeiras, especialmente em sistemas de IA, acarreta vulnerabilidades estratégicas que se manifestam em múltiplas dimensões da soberania estatal:


1. Acesso e Controle de Dados Sensíveis

Modelos de IA dependem de volumes massivos de dados para treinamento, operação e melhoria contínua dos algoritmos. Quando esses dados transitam por infraestrutura controlada no exterior, eles podem ficar sujeitos a legislações estrangeiras (como leis de acesso a dados) e a possíveis exigências de cooperação com serviços de inteligência de terceiros. Isso representa um risco direto à privacidade de informações sensíveis e à segurança nacional, principalmente quando se trata de dados do setor público, sistemas de defesa ou segmentos críticos da economia, bem como os sistemas de Jogos de Guerra das Forças Armadas.


2 - Intrusão e Comprometimento de Segurança

Sistemas de IA operados por terceiros podem, em casos extremos, ser explorados como vetores de ataque. Isso pode ocorrer por meio de backdoors, exploração de vulnerabilidades ainda não mitigadas, ou mesmo pela coleta e análise de padrões de uso que revelem estruturas decisórias do Estado, estratégias de defesa, fraquezas institucionais ou planos operacionais. Esses riscos são mais agudos quando tais sistemas são utilizados em pilares estatais críticos, como segurança nacional, telecomunicações, vigilância fronteiriça ou defesa cibernética.


3 - Dependência em Infraestrutura Estratégica

A dependência de IA estrangeira também se materializa na dependência de infraestrutura de computação, como servidores em nuvem, redes de data centers e cadeias de fornecimento de semicondutores, que são dominadas por poucos países. Esse desequilíbrio tecnológico cria um vetor de vulnerabilidade funcional: durante crises políticas ou conflitos geopolíticos, a disponibilidade desses serviços pode ser restringida unilateralmente.


4 - Perda de Capital Humano Especializado

Além dos riscos técnicos, existe um efeito estrutural de longo prazo: a dependência de tecnologia externa enfraquece o desenvolvimento de capital humano especializado. Quando não há estímulo endógeno para capacitação em IA, a formação de cientistas de dados, engenheiros de machine learning e especialistas em infraestrutura crítica simplesmente não acompanha a curva de crescimento tecnológico global. Isso acentua a dependência e perpetua uma posição subordinada no sistema internacional de inovação.


II - Soberania Tecnológica e Autonomia Estratégica

Desenvolver capacidades próprias de IA, o que alguns analistas designam como “AI sovereignty", é, essencialmente, um projeto de soberania tecnológica. Isso significa garantir que um Estado controle sua infraestrutura digital, seus dados, suas capacidades de desenvolvimento e sua regulamentação tecnológica, alinhados com seus próprios interesses e valores.


A) Resiliência Estratégica em Tempos de Crise

Estados com IA soberana podem continuar operando sistemas essenciais mesmo diante de rupturas em cadeias de fornecimento internacional ou tensões geopolíticas. Isso significa que, no caso de um conflito ou sanção econômica, o país mantém seus mecanismos críticos de comunicação, defesa, segurança pública e gestão governamental.


B) Independência em Política Externa e Defesa

A tecnologia de IA vincula-se diretamente à capacidade de projetar poder no sistema internacional. Um Estado que depende de tecnologia combinada de outras potências pode ver sua margem de manobra diplomática reduzida, pois qualquer decisão estratégica pode afetar seus fornecedores tecnológicos e, por extensão, suas alianças comerciais ou militares.

Assim, construir capacidades autônomas de IA reduz essa assimetria e promove uma política externa menos vulnerável a pressões tecnológicas.


III - Dimensões Geopolíticas da Corrida pela IA


1) Corrida Tecnológica Global

Hoje, existe uma competição estratégica intensa entre EUA, China e a União Europeia para dominar tecnologias de IA. Essa disputa é tão relevante que analistas a denominam “nova Guerra Fria da Inteligência Artificial”: uma rivalidade não apenas econômica, mas estrutural, por controle de dados, redes, hardware crítico e modelos avançados de IA.

Os EUA dominam atualmente grande parte do desenvolvimento de modelos de IA generativa e plataformas em nuvem, enquanto a China concentra esforços massivos de investimento estatal em capacidades com ênfase em integrações de IA em segurança, cidades inteligentes, infraestrutura e cadeia produtiva. A União Europeia, por sua vez, tem procurado equilibrar autonomia tecnológica com regulação rigorosa para proteger usuários e fomentar mercados internos.


2) Soberania e Cooperação Estratégica

A busca por soberania em IA não implica isolamento tecnológico completo. Alguns Estados têm adotado estratégias híbridas, que combinam desenvolvimento nacional com parcerias estratégicas e co-criação internacional, mas mantendo um núcleo de capacidades que não ficam sujeitas totalmente a terceiros. Isso tem se visto, por exemplo, na estratégia de alguns países do Oriente Médio que investem em programas nacionais de IA enquanto desenvolvem cooperações específicas com empresas globais, preservando no entanto controle estatal sobre dados sensíveis e infraestrutura crítica.


Conclusão

A construção de capacidades autônomas de inteligência artificial não é apenas uma meta tecnológica, mas sim um componente estruturante da autonomia estratégica de um Estado. No mundo contemporâneo, onde dados, algoritmos e modelos inteligentes moldam tanto a economia quanto as estruturas de poder, a soberania tecnológica torna-se uma forma de soberania nacional — um patrimônio estratégico que preserva integridade, independência e liberdade decisória.

A dependência de sistemas estrangeiros implica riscos multifacetados: exposição de dados sensíveis, vulnerabilidades em infraestrutura crítica, limitações de manobra em crises geopolíticas e erosão do capital humano tecnológico. Por outro lado, a construção de uma base nacional de IA, sustentada por regulação apropriada, investimento em infraestrutura, formação de especialistas e políticas públicas robustas, fortalece não apenas a segurança, mas a capacidade de projeção de poder e a resiliência estatal em um ambiente internacional competitivo e inovador.

Em suma, a inteligência artificial soberana é um eixo estratégico imperativo do século XXI, uma expressão contemporânea da luta pela autonomia e pela capacidade de moldar o próprio destino no sistema internacional.


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Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 22/01/2026:

Matéria de 29/07/2025:

Matéria de 07/03/2025:

Matéria de 16/03/2024:


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