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Tecnologia própria é independência! Será que estamos atentos a isso? Análise da Defesa brasileira.


Figura disponível em: https://img.olhardigital.com.br/wp-content/uploads/2022/12/shutterstock_1932042689.jpg

No nosso artigo de 25 de setembro de 2020 intitulado "Geopolítica Brasileira: a contribuição do Setor de Defesa", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/geopol%C3%ADtica-brasileira-a-contribui%C3%A7%C3%A3o-do-setor-de-defesa, afirmamos, dentre várias análises, que as tecnologias militares desenvolvidas e em desenvolvimento contribuem para o aprimoramento tecnológico, criação de empregos, melhoria da formação dos trabalhadores, emprego no bem-estar da sociedade civil, aumento do parque industrial, e incremento da economia nacional. Ademais, também afirmamos que ter a capacidade de desenvolver sensores, sistemas, armamentos e meios de defesa, projeta o país no cenário internacional, bem como contribui para a dissuasão estratégica. Em uma das análises do artigo, dissemos que somente com o apoio do poder político, que é escolhido pela população, é que poderemos ter um desenvolvimento forte e perene, e não um desenvolvimento por "espasmos" e a mercê da boa vontade do governante no poder. Deve ser um programa de Estado, de toda a sociedade brasileira.

Outrossim, as tecnologias militares possuem, em sua maioria, um caráter dual, pois podem ser empregadas no meio civil, visando atender a sociedade, vide a internet, radar dentre outras. No Brasil, um exemplo é o Programa Nuclear da Marinha - PNM que apoia na implementação do Reator Multipropósito Brasileiro - RMB, que possibilitará o incremento da energia nuclear em apoio aos serviços de saúde, como combate ao câncer barateando e socializando o tratamento para a população carente, dentre outros estudos e setores.

Entretanto, como a nossa Base Industrial de Defesa - BIND é muito carente de apoio governamental perene, o nosso país, ainda, depende de componentes, ferramental, maquinário e tecnologia estrangeira, o que, em certa medida, nos deixa "reféns" da "boa vontade" de alguns Estados em nos transferir tecnologia, a preços elevados, bem como de vetos e sanções econômicas, descritos em cláusulas contratuais, caso não concordem com a exportação de produtos para algum país, mesmo que o projeto e a produção sejam nacionais. Em outras palavras, se conseguirmos desenvolver o projeto, mas que para a sua implementação precisamos da importação de algum componente estrangeiro, estaremos sujeitos, por força contratual, com a anuência do país exportador para vender a algum Estado.

Convém mencionar que o desenvolvimento tecnológico demanda grande investimento em tempo e de volumosos recursos humanos e financeiros. Dessa forma, para que a fabricação do produto desenvolvido ganhe escala industrial, que consiga pagar todos os investimentos e dar algum lucro, é necessário que se tenha mercado, tanto interno quando externo. Caso isso não aconteça, a empresa desenvolvedora corre o sério risco de falir, fazendo com que vários trabalhadores qualificados percam os seus empregos.

Nesse sentido, o apoio do governo é fundamental por meio de recursos para aquisição pelo mercado interno para atender as suas Forças Armadas, como no mercado externo por intermédio do Setor de Relações Exteriores, como a maioria dos Estados, que possuem protagonismo no cenário internacional, fazem.

Infelizmente no nosso país o apoio para o mercado interno (orçamento da Defesa) e externo (política do Ministério das Relações Exteriores) é pífio, se analisarmos a importância que o Brasil possui, em virtude da sua extensão territorial e dos recursos naturais, no mundo.

Na reportagem da Sputnik Brasil, de 24 de fevereiro, acessível em https://telegra.ph/Apoio-do-Itamaraty-a-produtos-de-defesa-brasileiros-%C3%A9-quase-inexistente-diz-ex-secret%C3%A1rio-Degaut-02-24, o ex- Secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut corrobora o nosso pensamento quando nos diz:


"A base industrial brasileira tem vocação exportadora [...] Cerca de 75% a 80% dos produtos de defesas fabricados no Brasil se destinam ao exterior, fazendo com que o setor se converta em um importante gerador de divisas, empregos de alta qualificação e renda.[...] conseguimos aumentar significativamente nossa presença em outros mercados relevantes, mas nos quais não tínhamos capacidade de penetração, como o Sudeste Asiático e a África Subsaariana [...] Dentre alguns dos principais produtos, destacam-se sistemas de artilharia por saturação de área, sistemas de criptografia e de proteção das comunicações, material não letal para controle de distúrbios, [...] mísseis e foguetes guiados, aeronaves, sistemas de controle de tráfego aéreo [...] Aliás, somos o maior fornecedor de munições da OTAN. [...] De maneira absolutamente anacrônica, produtos de defesa ainda são vistos com muita desconfiança e reticências no Itamaraty, fazendo com que o apoio daquela Casa seja tímido, quando não francamente inexistente [...] é importante lembrar que a mera presença de embaixadores brasileiros em feiras de produtos de defesa mundo afora apenas para cortar a fita inaugural do Pavilhão do Brasil [organizado pelo Ministério da Defesa e pelo setor privado, com auxílio da APEX] nesses eventos ou o oferecimento de um jantar de boas-vindas às delegações brasileiras nessas ocasiões estão longe de configurar atividades de promoção comercial [...] É necessária a alocação de recursos financeiros para fomentar e viabilizar projetos de pesquisa de interesse da Defesa, para o desenvolvimento endógeno de alta tecnologia."


Tal pensamento é compartilhado por vários analistas e estudiosos de defesa brasileiros.

Um exemplo marcante sobre o mencionado acima foi o projeto do tanque pesado brasileiro Osório, desenvolvido pela empresa brasileira ENGESA nos anos 80, e que infelizmente fez a empresa falir em 1993.

Nesse cenário, no dia 23 de fevereiro, o Escritório Governamental de Controle de Exportação da Alemanha (Federal Office for Economic Affairs and Export Control) promulgou o embargo alemão à venda de 28 blindados Guarani, desenvolvidos pelo Exército Brasileiro em parceria com a empresa Iveco, para as Filipinas, pois existem alguns componentes daquele país no veículo.

Segue o vídeo, de 5 de dezembro de 2019, elaborado pelo Exército Brasileiro que aborda o Guarani:

Logo, o lema do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo - CTMSP, que diz que "Tecnologia Própria é Independência" (título deste artigo), é uma verdade incontestável, que demonstra, claramente, que somente por meio da tecnologia autóctone, principalmente no Setor de Defesa, é que seremos totalmente soberanos e, assim, independentes.

É digno de nota que em caso de conflito é fundamental a sustentação ao combate (manutenção, ressuprimento etc), que é conseguida por meio do apoio logístico, e para isso a BIND é fundamental. Com isso, uma grande dependência da tecnologia e de produtos estrangeiros coloca o Estado de "joelhos", fazendo com que o fracasso seja "líquido e certo", como a sabedoria popular nos diz.

O Blog é de opinião que o Brasil deve investir e apoiar o desenvolvimento de tecnologias militares autóctones, pois elas reverterão positivamente para a economia, gerando bens e riquezas que serão usufruídas pela sociedade brasileira, fomentarão a educação, bem como deixarão o país realmente soberano, mitigando a grande dependência externa, pois afinal, como sempre temos alertado, infelizmente, vivemos num mundo menos seguro e mais imprevisível, em que o Conflito da Ucrânia nos serve de reflexão.

Outrossim, a tecnologia própria contribui para a dissuasão estratégica, e com a Geopolítica Brasileira.

Portanto, devemos amadurecer geopoliticamente, nos conscientizando que estamos num mundo em que impera a visão realista nas relações entre os Estados, e retirarmos a visão míope de que a tecnologia militar é "maldita".

Qual a sua opinião?

Segue o vídeo abaixo para ajudar em nossa análise:

Matéria de 25/02/2023:


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