Orientações para a futura estratégia da OTAN - aumento da instabilidade no cenário europeu.


Figura disponível em: https://www.nato.int/docu/review/images/d4d7c1_1_simon_nato-summit-jun-2021_nato_article.jpg

O Blog desde a sua criação vem acompanhando a situação geopolítica no mundo. Assim, devido a relevância da aliança transatlântica - OTAN, também, temos realizado algumas análises sobre ela ao longo do tempo, como podemos ver resumidamente nos artigos que separamos abaixo, embora termos outros:


- "Europa uma senhora decadente, época de se reinventar", de 10 de abril de 2020, em dissemos que a OTAN vinha enfrentando uma crise, ainda mais com o corte de recursos por parte dos EUA durante o governo o Trump, deixando o continente preocupado com a possível ameaça russa;


- "A redução das tropas dos EUA da Alemanha será um erro estratégico?", de 15 de junho de 2020, em que afirmamos que o presidente dos EUA por ocasião do começo do seu mandato fez várias críticas aos países europeus que investiam pouco nas suas forças armadas, e consequentemente na OTAN, pois os EUA eram o grande garantidor da defesa desse continente contra as principais ameaças externas, e "incentivou"a todos os governos da aliança que elevassem os gastos de defesa para cerca de 2% dos seus PIB. A maioria elevou os gastos, mas a Alemanha resistia em aumentar e a chegar a esse patamar, estando atualmente em 1,24%. Entretanto, esse país planejava incrementar os seus gastos de defesa para 1,5% até 2021. Sendo assim, a intenção de Trump seria uma forma de "punição"à Alemanha, pois ele estava pressionando a premiê Angela Merkel a aumentar os gastos militares, acusando-a de não fazer isso por ser dependente energeticamente da Rússia (petróleo e gás), pois ele acreditava que o governo alemão tinha receio de que o aumento em sua militarização pudesse afetar a relação russo-alemã. Além disso, também dissemos que o maior privilegiado, com a redução das tropas estadunidenses, seria a Rússia que poderia se sentir mais a vontade para atingir os seus objetivos geopolíticos na região, notadamente nas regiões do Báltico e do Mar Negro, o que poderia fortalecer o governo de Putin, e que com certeza acirraria as tensões dos países europeus com a Rússia;


- "A OTAN e a rebeldia turca: o que fazer?", de 04 de novembro de 2020, em que falamos que a OTAN estava sofrendo um grande constrangimento nas crises que envolveram os seus membros, como a Turquia, Grécia e a França, pois não estaria sabendo como resolver adequadamente essas questões, que foram originadas por iniciativas turcas. Nesse sentido, vivenciava um debate sobre o que fazer com a Turquia, pois alguns defendiam que fossem adotadas sanções, outros alegavam que o governo turco deveria ser expulso da aliança e uma parcela tinha receio de aplicar medidas de punição devido ao receio da saída turca, em virtude de sua importância geopolítica e estratégica para a Organização;


- "OTAN 2030 - possíveis impactos geopolíticos no cenário internacional. O Brasil será impactado?", de 09 de dezembro de 2020, no qual afirmamos que A Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN, que é uma Aliança tanto política, quanto militar, é composta, atualmente, por 30 Estados-membros e vinha sofrendo muitas críticas e enfrentando alguns problemas, que contribuíram para a diminuição do protagonismo dessa Organização no cenário internacional. Ademais, a agressividade russa, por meio dos seus serviços de inteligência, a anexação de territórios (Crimeia e crise com a Georgia) e a implementação de bases na Síria (Mediterrâneo Oriental) e no Sudão (uma das principais linhas de comunicações marítimas para a Europa e com acesso ao Mediterrâneo), a política agressiva chinesa de expansão de sua influência geopolítica, o interesse sino-russo no Ártico e o terrorismo jihadista são considerados ameaças relevantes à segurança europeia e que preocupam demasiadamente a OTAN. Nesse sentido, visando fazer frente as ameaças e aos problemas elencados anteriormente, e que são potencializados pela emergência climática e pela pandemia da COVID-19, ainda mais num mundo mais imprevisível e menos seguro, os países membros da OTAN, desde dezembro de 2019, vinham debatendo possíveis ações por meio de uma estratégia, que seja unânime por todos, com o intuito de assegurar a segurança dos países membros e recuperar o protagonismo do passado. Sendo assim, foi produzido, em 25 de novembro de 2020, o documento intitulado: NATO 2030: United for a New Era Analysis and Recommendations of the Reflection Group Appointed by the NATO Secretary Generall, onde encontram-se análises e recomendações para atingir os objetivos pela Organização até 2030, e que podemos afirmar que está baseado no tripé: fortalecimento militar - coesão política dos seus membros - aumento da presença global.

- "Exercício Sea Breeze 2021: mensagem à Rússia sobre a questão ucraniana. Tensão aumenta no Mar Negro.", de 02 de julho de 2021, em que falamos que as relações entre a Rússia com os EUA e os países da Europa Ocidental têm sido marcadas por períodos de tensão e crise, onde a assertividade e a agressividade russas no cenário internacional é interpretada como a principal ameaça militar na atualidade, seja pela sua atividade na GRAY ZONE, com o uso de mercenários, seja na Guerra Híbrida por meio da Guerra de Informação, bem como devido a anexação da Crimeia, ao aparelhamento militar, e as constantes ameaças a soberania dos seus vizinhos, como os países bálticos, e a Ucrânia. Nesse sentido, em nossa opinião, esse exercício, que foi o maior desde a sua criação em 1997, tinha, também, como objetivo intrínseco de mostrar a importância da Ucrânia para a OTAN, bem como colocar uma certa pressão geopolítica na Rússia, a fim de evitar a assimilação ucraniana pelos russos, o que transformou, assim, a Ucrânia num palco de disputa geopolítica entre os países aliados aos EUA e o governo de Moscou. Ademais, também, mostrou o comprometimento de manter a liberdade de navegação no Mar Negro. Assim, colocamos uma questão para reflexão: A OTAN estaria espremendo a Rússia para o leste fazendo uma contenção, ou os russos estariam tentando aumentar a sua área de segurança para o oeste? Outrossim, em nossa análise, o exercício Sea Breeze 2021 foi uma mensagem clara e direta a Rússia de que não será tolerado que esse país impeça a livre navegação no Mar Negro, e de que a OTAN e os EUA apoiariam a Ucrânia no caso de conflito. Ademais, o exercício se prestaria a demonstrar que a comunidade internacional não reconhece a anexação da Crimeia pela Rússia, e com isso as águas em torno dessa região não seriam de soberania russa. Dessa forma, continuaríamos a ver um "jogo"geopolítico tenso entre os russos e os EUA e seus aliados.

- "A relação conturbada entre a Rússia e a OTAN - dilema para os EUA?", de 25 de outubro de 2021, Putin conseguiu colocar a Rússia como um protagonista geopolítico, e revitalizou a capacidade militar do país que estava em decadência. Desde que assumiu a liderança do Estado russo, tem como nítida preocupação evitar a contenção que estava sendo feita pelos ocidentais, e para tanto adotou uma postura assertiva e agressiva, inclusive com intervenções e ameaças de intervenção em territórios de países do seu entorno, como foi com a Georgia e com a Ucrânia, bem como aumentando a sensação de insegurança dos Estados bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia), e de outros países da Europa Oriental, como a Polônia. Ademais, Putin tentava criar Estados "tampão" ou buffer zone contra a OTAN, visando incrementar a segurança russa. Além do mais, usa a ameaça do uso da força, caso algum desses Estado "tampão"entre para a OTAN. Tal postura ensejou a realização de grandes exercícios militares por parte da OTAN, com o intuito de se preparar para uma possível agressão, além dos exercícios serem uma mensagem aos russos. É nítido e notório que o desgaste entre a OTAN e a Rússia aumentou em 2014 com a anexação da Crimeia, bem como com a adoção da Guerra Híbrida pelo governo de Moscou contra os países do ocidente pertencentes à aquela aliança. Outrossim, os assassinatos e as tentativas de homicídio de oposicionistas pela agência de inteligência GRU, em território europeu, potencializaram o desgaste. Nesse sentido, a OTAN vem afirmando que a Rússia é a sua principal ameaça, sendo a China encarada como um desafio, diferentemente do pensamento estadunidense que encara a China como o seu principal adversário, e com isso tentava convencer a aliança e a Europa a encarar dessa mesma forma. Em 07 de outubro, a OTAN expulsou 8 diplomatas russos que faziam parte da missão da Rússia junto à aliança sob a alegação de estarem realizando espionagem, bem como apoiando operações especiais em solo europeu. Tais alegações teriam sido provenientes de fontes de inteligência. Essa medida gerou uma resposta do governo de Moscou mais enérgica, onde suspendeu a missão diplomática da OTAN em território russo, o que na prática significou que a partir de 01 de novembro não haveria um canal formal de comunicação entre ambos para resolver ou esclarecer possíveis problemas. A partir dessa data, caso houvesse alguma necessidade de comunicação, deveria ser utilizada a embaixada da Bélgica em Moscou. Após o anúncio da retaliação russa, a OTAN, em reunião de 21 de outubro, discutiu a urgência da elaboração de uma estratégia para fazer frente a uma possível agressão dos russos, principalmente nas regiões do Báltico e do Mar Negro, em qualquer ambiente operacional, inclusive o cibernético. Nesse sentido, a Rússia e a OTAN chegaram ao nível mais baixo de suas relações desde o período da Guerra Fria entre os EUA e a ex-URSS. Logo, o Blog acreditava que haveria um aumento da sensação de insegurança na Europa, e ratificaria a Rússia como a principal ameaça militar da região, bem como a paz e a segurança mundial.


- "O conflito da Ucrânia e o futuro da OTAN", de 27 de fevereiro de 2022, afirmamos que a Rússia possui uma história de agressões e de invasões, o que impele os governantes russos a serem muitos zelosos com os assuntos afetos a sua Segurança Nacional, ainda mais que não há barreiras naturais que possam dificultar uma invasão. Nesse sentido, entendíamos a importância de se ter uma buffer zone, ou espaço tampão, entre os russos e os seus potenciais adversários. Assim, podemos concluir que os russos consideram, atualmente, a OTAN a sua principal ameaça, sendo a recíproca verdadeira. Porém, com o aumento da ameaça russa à Europa Ocidental, potencializada pela agressão à Ucrânia, vemos que a Aliança tem ficado mais coesa, tendo a possibilidade de receber novos membros como a Finlândia e a Suécia, após as recentes ameaças russas a esses países caso ingressem na OTAN. Tal movimento, caso aconteça, poderá atrair outros, como Irlanda, Chipre e Malta. Ademais, acreditamos que os países da aliança aumentarão os seus investimentos em defesa, ainda mais, chegando aos 2% do PIB. A recente invasão russa à Ucrânia marca, em nossa visão, uma grave fratura no relacionamento já tenso entre a OTAN e a Rússia, que estava, como vimos acima, no nível mais baixo desde o período da Guerra Fria. Assim, acreditamos que não deverá haver qualquer reaproximação russa com a OTAN, enquanto Putin estiver no poder. Nesse sentido, nos parece que a OTAN, que estava enfraquecida e tentava reaver a sua força, credibilidade e protagonismo do passado, ressurge como uma aliança coesa e forte, tentando fazer com que a Europa volte a ser um Polo de Poder. Com isso, a invasão russa permitiu com que os problemas e vulnerabilidades apontados nos artigos anteriores começassem a serem solucionados. Portanto, a invasão da Ucrânia propiciou o ressurgimento de uma OTAN coesa e com força para tentar frear as possíveis investidas russas contra Estados europeus neutros, e que a Aliança aumentará de tamanho devido à ameaça russa. Assim, em nossa visão, aumenta a probabilidade de ocorrência de um conflito de alta intensidade.


Dessa forma, vimos, pelo resumo dos nossos artigos acima, que a OTAN que estava enfraquecida, desunida, e com pouco protagonismo, foi se transformando, em virtude da percepção sobre o aumento da ameaça russa, em uma aliança coesa, forte e com protagonismo no cenário internacional.

Além disso, em que pese sempre o Ocidente considerar a Rússia como uma possível ameaça, mas com possibilidade de diálogo e parceria, após o encontro realizado no período de 29 a 30 de junho em Madri, a OTAN agora afirma que a Rússia é uma ameaça direta, sem possibilidade de parceria. Assim, a postura da aliança passa de deterrência contra a ameaça russa para a de defesa contra uma possível agressão russa, aumentando ainda mais a instabilidade na região. Destarte, vimos nos artigos acima a deterioração das relações entre o Ocidente e os russos, incrementado a insegurança na Europa.

Outra possível análise, com base nos artigos acima, é que os russos se sentiram encorajados a serem mais assertivos em razão da sua percepção de fragilidade da OTAN.

Ademais, a China que era considerada como um desafio passa a ser vista como um desafio sistêmico a segurança internacional, ainda mais em virtude da parceria estratégica com a Rússia, e que tratamos nos artigos "A Aliança Estratégica Sino- Russa e a Nova Ordem Mundial", de 06 de fevereiro de 2022, "China e Rússia: cada vez mais parceiros contra os adversários comuns, de 16 de dezembro de 2021, e "Análise das mensagens de Ano Novo dos três principais líderes mundiais, de 03 de janeiro de 2022. Assim, não foi por coincidência que foram convidados para o encontro da OTAN a Austrália, Nova Zelândia, Japão e a Coreia do Sul.

Nesse cenário, vemos que a Europa que poderia ser considerada um teatro de operações secundário, em decorrência da competição no Indo-Pacífico entre os EUA e a China, ganha prioridade novamente como no período da Guerra Fria.

Nesse diapasão, em nossa visão, isso seria positivo para a China, pois diminui momentaneamente a pressão sobre ela, ganhando mais tempo para ajustar a sua estratégia de expansão geopolítica.

Dessa forma, a OTAN elaborou o documento NATO 2022 STRATEGIC CONCEPT, que substitui a versão de 2010, e que pode ser lida no Blog por meio do link https://de9abb8c-83aa-4859-a249-87cfa41264df.usrfiles.com/ugd/de9abb_4a0ee8b314554e428b9b0ed7b7e92116.pdf. Tal documento estabelece os objetivos políticos e militares que a OTAN deverá atingir, servindo como referência para elaboração de uma futura estratégia combinada contra as ameaças e desafios vislumbrados.

Nesse sentido, é previsto o incremento da Força de Resposta Rápida da OTAN - NATO Response Force, de 40.000 militares para 300.000, bem como a elaboração de planos de pronto emprego nos ambientes operacionais terrestre, marítimo, aéreo e cibernético. Assim, é esperado que essa transição de postura esteja pronta até 2023.

Outra medida prevista é o aumento da presença militar estadunidense na Europa, possivelmente na Polônia, incluindo, também, o aumento de seus navios na Espanha e da instalação de dois esquadrões de F-35 no Reino Unido.

Assim, vemos uma certa similaridade com o período da Guerra Fria, em que existia uma ameaça latente proveniente da ex-União Soviética. Dado o exposto, vemos que haverá um aumento dos gastos militares e o incremento da militarização na Europa.

Conforme opiniões de alguns analistas estrangeiros, o Ocidente pretende evitar que o exemplo ucraniano não aconteça em Taiwan. Assim, o anúncio do NATO 2022 STRATEGIC CONCEPT foi bastante criticado pelo governo chinês.

O encontro também teve como destaque a formalização do convite para a entrada da Finlândia e da Suécia para a aliança, após a aceitação das solicitações políticas dos turcos que estavam dificultando a entrada desses países, aumentando a aliança de 30 para 32 países e trazendo mais pressão geopolítica para a Rússia, podendo ser mais um fator que potencialize a instabilidade, já alta, no teatro europeu, pois Putin alertou que se os finlandeses e os suecos permitirem a presença de tropas e aparatos militares da OTAN em seus territórios, ele teria que, por reciprocidade, apresentar as mesmas ameaças.

Portanto, o Blog acredita que a parceria estratégica sino-russa buscará a adesão de outros parceiros, a fim de equilibrar a competição geopolítica com o Ocidente. Além disso, as nossas análises anteriores foram corroboradas, bem como a nossa afirmação de que estamos vivendo mundo cada vez mais inseguro e imprevisível.

Outrossim, vemos que somente a percepção de uma ameaça crível é que possibilita o aumento do investimento e da prontidão militar.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 30/06/2022:

Matéria de 30/06/2022:

Matéria de 16/06/2022:

Matéria de 30/06/2022:

Matéria de 23/06/2022:

Matéria de 30/06/2022: