O Conflito da Ucrânia: a importância da Comunicação Social nos conflitos armados.


Figura disponível em: https://www.icrc.org/sites/default/files/styles/special_page_image/public/document_new/image/2022-03-02_ukraine-crisis-east_1.jpg?itok=RgcxyGzO

O Blog tem acompanhado o Conflito da Ucrânia, mesmo antes do início da invasão russa, por meio de vários dos seus artigos, dentre os quais destacam-se:

- "Ucrânia e a manobra geopolítica russa", de 09 de abril de 2021, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/ucrânia-e-a-manobra-geopolítica-russa;

- "Crise da Ucrânia: laboratório para a problemática de Taiwan", de 20 de janeiro de 2022, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/crise-da-ucrânia-laboratório-para-a-problemática-de-taiwan;

- "A invasão da Ucrânia: o que pode sinalizar para o mundo?", de 24 de fevereiro de 2022, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-invasão-da-ucrânia-o-que-pode-sinalizar-para-o-mundo;

- "O conflito da Ucrânia e o futuro da OTAN", de 27 de fevereiro de 2022, acessível em https://www.atitoxavier.com/post/o-conflito-da-ucrânia-e-o-futuro-da-otan;

- "O conflito na Ucrânia e o aumento da importância geopolítica da África", de 03 de abril de 2022, disponível em https://www.atitoxavier.com/post/o-conflito-na-ucrânia-e-o-aumento-da-importância-geopolítica-da-áfrica;

- "União Europeia - UE - forjada por crises. Consolidação como Centro de Poder?", de 23 de abril de 2022, que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/união-europeia-ue-forjada-por-crises-consolidação-como-centro-de-poder.


Nesse conflito tem nos chamado a atenção o uso da Guerra de Informações, que esteve presente antes, bem como ainda continua durante o embate entre a Rússia, Ucrânia e o Ocidente - EUA e seus aliados europeus. Ademais, os ucranianos vêm usando a sua Comunicação Social - COMSOC, como uma capacidade relacionada às Informações - CRI, de forma eficiente. Para tanto, no atual ambiente saturado de informações do Século XXI, eles vinham dominando a Guerra de Narrativas, potencializando a vilanização russa, conseguindo impor a sua narrativa no cenário internacional.

Assim, podemos inferir que o governo de Kiev, que possui o conhecimento de como impactar a audiência, haja visto que o seu presidente atuava em programas televisivos, demonstra uma expertise interessante no campo da COMSOC relacionada à um ambiente operacional de conflito interestatal.

Dessa forma, a Ucrânia estava conseguindo obter sucesso na obtenção de simpatia mundial contra os russos que vinham empregando, desde a era Putin, a Guerra de Informações de forma agressiva, trabalhando bastante a desinformação. Portanto, a COMSOC ucraniana estava contribuindo, com certo sucesso, para:

- consolidar a sensação de ameaça russa, tanto na população ucraniana quanto na Europa ocidental;

- aumentar o apoio militar à sua defesa, recebendo grande quantidade de material bélico, inclusive mísseis com alto grau de letalidade, impondo graves perdas aos russos;

- diminuir o moral das tropas russas;

- enaltecer suas operações militares, colocando a imagem de uma possível ideia de sucesso;

- apoiar as narrativas ucranianas; e

- construir parcerias com diversos órgãos não governamentais - ONG - bem como com países ao redor do mundo.

Nesse diapasão, a COMSOC empregando as imagens devidamente utilizadas pelos meios da mídia, as comunicações ucranianas e os depoimentos da população em retirada do país mostrava que os russos operavam em total desrespeito ao Direito Internacional dos Conflitos Armados - DICA. Com isso, além de serem rotulados como agressores injustos, os russos estavam sendo chamados de criminosos de guerra, devido aos ataques contra a população civil.

É digno de nota, que em sua defesa, o governo de Moscou alegava que os ataques as áreas civis se justificavam pela decisão ucraniana de colocar aparato militar nessas áreas, o que as transformava em objetivos militares, o que era negado por Kiev.

Entretanto, em 04 de agosto, a ONG Anistia Internacional divulgou um relatório em que afirma que as forças armadas ucranianas empregam táticas que colocam em risco a sua população civil, pois estariam utilizando escolas, hospitais, habitações e outras áreas civis para alojar suas tropas e material bélico, o que é uma séria violação do DICA, e que isso teria como consequência os ataques russos. Segue abaixo um trecho do relatório:


Ukrainian forces have put civilians in harm’s way by establishing bases and operating weapons systems in populated residential areas, including in schools and hospitals, as they repelled the Russian invasion that began in February, Amnesty International said today. Such tactics violate international humanitarian law and endanger civilians, as they turn civilian objects into military targets. The ensuing Russian strikes in populated areas have killed civilians and destroyed civilian infrastructure. “We have documented a pattern of Ukrainian forces putting civilians at risk and violating the laws of war when they operate in populated areas,” said Agnès Callamard, Amnesty International’s Secretary General. “Being in a defensive position does not exempt the Ukrainian military from respecting international humanitarian law.”


Convém mencionar que no relatório, apesar de ser altamente repreensível a postura das forças ucranianas, isso não seria suficiente para justificar as ações militares russas contra áreas civis. Tal relatório pode ser lido em sua íntegra no link https://www.amnesty.org/en/latest/news/2022/08/ukraine-ukrainian-fighting-tactics-endanger-civilians/ .

Isso era tudo que o governo de Kiev não desejava, pois dá respaldo as alegações russas, e macula a imagem ucraniana, os igualando aos russos, o que deu início a uma reação muito bem coordenada da COMSOC ucraniana, deslegitimando a Anistia Internacional, em que pese essa ONG estar sempre acusando a Rússia de violar o DICA acusando-a de crimes de guerra, por meio de uma unicidade de discurso, com mensagens coordenadas, sincronizadas e alinhadas. Logo, o objetivo ucraniano é manter o controle da narrativa, mitigando o estrago em sua imagem, bem como visando a não perder o apoio conquistado.

Nesse sentido, temos como possíveis ensinamentos:

- a importância do emprego da Inteligência no tocante ao ataque a objetivos militares, visando não perder o controle da narrativa com ataques as áreas civis, violando o DICA, e dando a oportunidade da COMSOC do adversário usar isso em seu favor;

- usar a Inteligência como apoio a COMSOC, permitindo uma proatividade na divulgação de suas operações militares, permitindo ter o controle da narrativa;

- usar a COMSOC para dissuadir os esforços adversos que tenham a finalidade degradar o moral e voltar a opinião pública contra as nossas operações;

- a extrema relevância da COMSOC para enviar a população mensagens estratégicas, como percepção de ameaça etc; e

- a importância do emprego da COMSOC junto às Operações Psicológicas.

O Blog é de opinião de que a COMSOC é uma ferramenta muito importante na Guerra de Informações e nos Teatro de Operações, o que está sendo comprovado no Conflito da Ucrânia.

Qual a sua opinião?

Seguem alguns vídeos para auxiliar a nossa análise:

Matéria de 07/08/2022:

Matéria de 05/08/2022:

Matéria de 07/08/2022:

Matéria de 05/08/2022:

Matéria de 07/08/2022:

Matéria de 07/08/2022:

Matéria de 10/08/2022:

Matéria de 09/08/2022: