Empresas Militares e de Segurança Privada Chinesas e o seu crescimento no mundo.


Figura disponível em: https://warontherocks.com/wp-content/uploads/2020/06/nouwnes-1024x683.jpg

No Século XXI temos observado um elevado crescimento das Empresas Militares e de Segurança Privada - EMSP no mundo, e que vêm prestando serviços de combate e de segurança em caráter internacional. Atualmente, têm sido utilizadas por vários governos com o objetivo de atender a alguns dos seus objetivos geopolíticos, e com isso são contratadas para atuar em distintos Teatros de Operações, como África, Ásia, América do Sul e Oriente Médio.

Alguns fatores que contribuem para o crescimento das EMSP são:

- Crises econômicas que afetaram os orçamentos de Defesa de alguns países e que por isso necessitaram diminuir o tamanho de suas forças armadas, bem como as de suas forças policiais, criando uma força de trabalho desempregada que é especializada no emprego da violência;

- Aumento do uso da Guerra Híbrida no Século XXI, o que torna atrativo o uso das EMSP por alguns Estados;

- Estarmos vivendo na Era da Competição entre as Grandes Potências: China, EUA e Rússia, que acaba fomentando uma disputa geopolítica por influência no mundo; e

- Apresentam um custo menor para os Estados comparado ao uso de forças armadas.

Ademais o uso das EMSP pelos Estados, tem como vantagem encobrir ou diminuir o desgaste proveniente do uso da imagem de suas tropas em um conflito ou em possíveis atos de agressão em países estrangeiros na proteção dos seus interesses e bens nacionais.

Nesse sentido, alguns analistas começam a chamar esse fenômeno de "privatização da guerra". Vimos isso em alguns de nossos artigos, como: "Líbia: palco de interesses geopolíticos. II parte", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/líbia-palco-de-interesses-geopolíticos-ii-parte. Temos, também, como exemplo o Conflito na Ucrânia, onde há o uso pelos russos do Wagner Group. Além disso, existem informações, não confirmadas, que algumas EMSP contratadas por governos ocidentais estariam apoiando os ucranianos.

Convém mencionar, que a força de trabalho das EMSP é formada, em sua maioria, por ex-militares, inclusive de forças especiais, de várias patentes, bem como de ex-integrantes de forças policiais de várias partes do mundo, ou seja, é uma força de trabalho multinacional.

Esse fenômeno não é novo, e começou a ganhar visibilidade com a empresa estadunidense Blackwater, fundada em 1996, por um ex- Navy Seal , sendo contratada pelo governo dos EUA em 2000, após o ataque ao navio USS Cole. Além disso, também prestou serviços para o governo estadunidense em 2003 no Iraque, além de outros.

Abaixo segue um Podcast produzido pela Stars and Stripes, dos EUA, intitulado Soldier turned contractor explains Blackwater training, security detail in Iraq, datado de 14 de março de 2019, que descreve um pouco o trabalho executado em 2003 no Iraque, além de fornecer outros detalhes.


O Blog tem acompanhado as EMSP, e no artigo "Seção Inteligência: Os mercenários russos", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/seção-inteligência-os-mercenários-russos, abordou a EMSP russa Wagner Group. Além disso, acompanha, também, as EMSP de Segurança Cibernética, conforme a nossa análise no artigo "As empresas privadas de segurança cibernética: desafio ou oportunidade para a Inteligência?", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/as-empresas-privadas-de-segurança-cibernética-desafio-ou-oportunidade-para-a-inteligência.

Outrossim, acordo informações de Inteligência, alguns atores não estatais estariam contratando as EMSP para agirem contra alguns Estados. É digno de nota, que as EMSP são contratadas, também, para a segurança de empresas multinacionais em países com problemas de instabilidade, bem como para resgate ou proteção de pessoas extremamente ricas.

Nesse cenário, a China vem apresentando um crescimento silencioso de suas EMSP nos países com instabilidade interna em que possui empresas chinesas trabalhando em infraestrutura relacionadas ao seu projeto Belt and Road Iniciative - BRI, bem como na região marítima do Indo-Pacífico, efetuando segurança do seu tráfego marítimo, notadamente no Estreito de Málaca, com embarcações com e sem armamento.

Recomendamos para os leitores e pesquisadores do Blog a leitura do relatório produzido pelo The National Bureau of Asian Research intitulado Securing the Belt and Road Initiative China’s Evolving Military Engagement Along the Silk Roads, com especial ênfase para o capítulo da página 91, e que pode ser lido aqui por meio do link https://de9abb8c-83aa-4859-a249-87cfa41264df.usrfiles.com/ugd/de9abb_bef3c7f54fad4b57b50a01e2194ee725.pdf.

As EMSP chinesas visando desassociar a sua imagem à das estadunidenses e russas, que criaram uma reputação ruim no cenário internacional, tentam mostrar que trabalham com uma regulamentação própria, onde nem tudo seria permitido. Isso também visa à não macular a imagem da China no mundo. Essa afirmação pode ser compreendida por meio do documento Order of the Ministry of Public Security of the People's Republic of China, disponível em http://www.gov.cn/flfg/2010-03/03/content_1546331.htm, além de outras instruções regulatórias do governo de Pequim sobre as suas EMSP.

Em que pese, ainda, não haver um laço perceptível entre o governo chinês e as EMSP desse país, é claro que elas contribuem para os objetivos geopolíticos da China, pois estão atuando na proteção dos interesses e dos bens nacionais chineses, mesmo que privados, no mundo. Daí podemos entender um dos motivos do grande crescimento da EMSP chinesas.

Ademais, as EMSP marítimas chinesas contribuem com o esforço da Marinha da China - PLAN em proteger as suas Linhas de Comunicação Marítimas - LCM, retirando-lhe uma sobrecarga de trabalho, e também evitando um maior desgaste em ações de combate à pirataria em regiões como a África Ocidental - Golfo da Guiné, e da África Oriental - "chifre da África".

Assim, destacam-se as seguintes EMSP chinesas: Hua Xin Security Services, Zhongjun Junhong Security Group "Sea Guards", China Overseas Security Association, The Overseas Security Guardians.

De acordo com o Center for Strategic & International Studies haveria cerca de 20 EMSP chinesas operando ao redor do mundo, disponível em https://www.csis.org/analysis/stealth-industry-quiet-expansion-chinese-private-security-companies. Já o Mercator Institute for China Studies informa que há por volta de 5.000 EMSP chinesas registradas no país, acessível em https://merics.org/en/report/guardians-belt-and-road.

A seguir vemos alguns dados de algumas importantes EMSP chinesas:

Figura disponível em: https://merics.org/sites/default/files/styles/pt_media_default/public/2020-04/merics_ChinaMonitor_Guardians_180814_6.jpg?itok=7bVluqZK

As EMSP marítimas da China, além de navios mercantes, também têm prestado serviços de proteção à embarcações de pesca chinesas contra piratas, e com isso podem contribuir com a Milícia Marítima chinesa, abordada no nosso artigo "A milicia marítima chinesa e o seu emprego na Gray Zone", que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/a-milicia-marítima-chinesa-e-o-seu-emprego-na-gray-zone.

A figura abaixo nos mostra a atuação das EMSP chinesas no mundo, em cerca de quase 40 países:

Figura disponível em: https://csis-website-prod.s3.amazonaws.com/s3fs-public/220110_Markusen_StealthIndustry_ChinesePSCs_map_WEB.png?z4MrNYPhlvqq1ENPpbQ6Y985utfC00WZ
Figura disponível em: https://merics.org/sites/default/files/styles/pt_media_default/public/2020-04/merics_ChinaMonitor_Guardians_180814_3.jpg?itok=WrdW7mzb

Além disso, as EMSP chinesas também têm prestado serviços de treinamento para forças policiais de alguns países, o que contribui com o softpower chinês.

Logo, vemos que o uso da EMSP pela China, EUA e Rússia é mais uma "ferramenta" geopolítica na competição entre eles.

O Blog é de opinião que o nosso governo, por meio da Atividade de Inteligência, deve monitorar as EMSP operando no nosso Entorno Estratégico, pois já há confirmações de EMSP russas e chinesas em atividade tanto na Venezuela, quanto na África Ocidental.

Outrossim, como as EMSP marítimas chinesas efetuam proteção de pesqueiros chineses, existe a possibilidade, em futuro próximo, delas atuarem no Atlântico Sul, nas proximidades da nossa ZEE - região sul, contribuindo na ameaça à soberania da nossa fronteira oriental, assim como a Milícia Marítima chinesa. Assim, recomendamos a releitura do nosso artigo "Inimigo à vista: Pesca ilegal - ameaça que se aproxima cada vez mais do Brasil", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/inimigo-à-vista-pesca-ilegal-ameaça-que-se-aproxima-cada-vez-mais-do-brasil.

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Seguem alguns vídeos para ajudar as nossas análises:

Matéria de 06/01/2019:

Matéria de 03/02/2016:

Matéria de 29/11/2013:

Matéria de 2020:

Matéria de 06/2022:

Matéria de 04/08/2021:

Matéria de 13/03/2022: