A política externa de Biden e os seus possíveis impactos geopolíticos.


Figura disponível em: https://cdn.defenseone.com/media/img/upload/2021/03/08/D1-image-to-post/route-fifty-lead-image.jpg

Como sempre afirmamos de que o que acontece no exterior nos impacta, pois não somos uma ilha. Sendo assim, torna-se muito importante compreendermos e analisarmos o que está acontecendo no cenário geopolítico mundial, principalmente no tocante as disputas hegemônicas. Nesse sentido, o Blog vem acompanhando a política externa de algumas potências. Dentre elas abordamos os EUA nos artigos abaixo:

  • "O século XXI será o período da Ásia e do declínio dos EUA? A pandemia poderá ajudar nisso?", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/o-século-xxi-será-o-ano-da-ásia-e-do-declínio-dos-eua-a-pandemia-poderá-ajudar-nisso, falamos que os EUA com a política do "America First"tem perdido o protagonismo do cenário internacional e com isso abriu o caminho para outros governos ocuparem o espaço deixado, seja no tocante a emergência climática, fóruns multilaterais (China assumindo o protagonismo nessa área), geopolítica mundial. Além disso, o governo Trump adotou uma postura questionável ao impedir a exportação de máscaras para o combate da pandemia, além de outras politicas. Todo esse cenário vem corroborando a tese do G-ZERO de Ian Bremmer em que nos diz, de forma resumida, que o mundo está em desequilíbrio geopolítico. Isso cria as condições para que o balanço do poder possa ser alterado dos EUA para a Ásia;

  • "Os EUA e os desafios atuais para manter a hegemonia global", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/os-eua-e-os-desafios-atuais-para-manter-a-hegemonia-global, em que afirmamos que os EUA em sua política externa sempre privilegiou estabelecer alianças para manter a sua hegemonia global, independente dos partidos que estavam no poder (Democratas ou Republicanos), e do sistema de governo dos países considerados aliados (ditadura, democracia, etc), desde que os seus interesses estivessem sendo atendidos, bem como sempre liderou os fóruns multilaterais. Era o principal financiador das alianças militares e dos organismos mundiais. Com isso, era o protagonista global e o mundo sempre esperava e contava com a liderança desse país. Após a queda do muro de Berlim, com o consequente fim da União Soviética, torna-se a potência hegemônica durante um tempo, e vivemos a "pax americana", até que novos competidores começam a surgir. Com a chegada de Trump ao poder, a política externa muda e várias alianças são enfraquecidas, os EUA começam a perder o protagonismo nos fóruns mundiais, dando maior espaço para os adversários, e o país ficou extremamente polarizado em sua política interna dificultando a unidade nacional. Convém mencionar que a guerra comercial e a disputa tecnológica 5G, ambas com a China, que poderão impactar economicamente o país e dividir mais o mundo. Dessa forma, as eleições norte-americanas se tornarão um evento muito importante a ser acompanhado. As futuras decisões daquele país serão fundamentais para que ele possa manter ou recuperar a hegemonia global, e com isso analisarmos se continuaremos sem um líder com capacidade para estabilizar o mundo ou se uma nova potência global irá emergir;

  • "A influência das eleições estadunidenses na geopolítica pós-pandemia", que está disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-influência-das-eleições-estadunidenses-na-geopolítica-pós-pandemia, dissemos que o resultado da eleição presidencial poderia ser a continuação da política de isolacionismo estadunidense, só que mais profunda ou o retorno ao multilateralismo tendo os EUA como protagonista, diminuindo o espaço chinês. Porém, qualquer um dos resultados não deverá amenizar em curto e médio prazos a tensão geopolítica entre China e EUA. Neste cenário, a Europa será uma das mais impactadas pelo resultado das eleições estadunidenses, pois atualmente está muito enfraquecida, seja por problemas vividos na União Européia e que foram potencializadas pela pandemia (políticos, econômicos, ameaça russa, etc), seja pela disputa geopolítica entre EUA e China (mercado 5G, programa de investimentos chineses na infraestrutura européia etc). O Brasil pode ficar numa posição muito incômoda dependendo do resultado das eleições dos EUA, caso o partido democrata obtenha sucesso, devido a política externa do atual governo. Além disso, deve-se ficar muito atento a essa disputa geopolítica, pois os EUA e a China são fundamentais para o nosso país por vários motivos (econômicos, defesa, segurança e infraestrutura);

  • "A estratégia de Trump para conter a China", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-estratégia-de-trump-para-conter-a-china, afirmamos que com a ascensão chinesa era esperado que ocorressem crises entre os governos estadunidense e chinês. Porém, foi somente no governo de Donald Trump que os EUA confrontaram a China com políticas mais assertivas. Dessa forma, empregou as seguintes políticas de forma coordenada para tentar atingir o comunismo chinês: "guerra comercial" com a China, incremento da corrida armamentista, proibição de bolsas universitárias e acesso aos grandes centros de tecnologia dos EUA, "guerra tecnológica"com ênfase na tecnologia 5G, "guerra de informação" e pressão sobre os aliados contra o softpower chinês (essas políticas estão explicadas no artigo). Dessa forma, os EUA estariam tentando abalar os pilares de construção de uma grande potência, que são o desenvolvimento tecnológico e o crescimento econômico, pois são eles que dão sustentação ao poder nacional. Além disso, acreditamos que somente uma aliança forte na região do Indo-Pacífico poderá frear as ambições expansionistas chinesas.

Com a derrota de Donald Trump para Joe Biden encerra-se a política do America First, e poderemos ver uma guinada na política externa estadunidense, com o possível retorno do país aos fóruns multilaterais, bem como a adoção de políticas tradicionais do passado, como o fortalecimento das alianças, conforme abordamos acima.

Nesse cenário, o atual governo dos EUA, em 03 de março, divulgou o documento Interim National Security Strategic Guidance, disponível no Blog no link https://de9abb8c-83aa-4859-a249-87cfa41264df.usrfiles.com/ugd/de9abb_63de1a4a72b64ce0b9a5536423bab28c.pdf , que dá uma ideia de como será conduzida a política externa de Biden. Ele servirá de referência para a elaboração dos principais documentos estratégicos do governo, como o National Security Strategy.

Ao o analisarmos, verificamos que, conforme tínhamos discutido nos artigos citados anteriormente, existe o rompimento com a política de Trump, e a tentativa dos EUA de voltar a ser o protagonista mundial por meio de políticas a serem conduzidas, a fim de assumir a liderança geopolítica global. Isso de dará por meio dos organismos multilaterais, reaproximação dos aliados tradicionais, utilização da diplomacia como principal forma de solução de crises e tensões, defesa da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo, apoio ao desenvolvimento de energias alternativas, principalmente as renováveis, apoio ao combate a pandemia no mundo, defesa contundente da importância de mitigar os efeitos da emergência climática, além de outra iniciativas.

Dessa forma, Biden tenta recuperar a imagem estadunidense no mundo que ficou desgastada pela forma como Trump conduziu os EUA, notadamente no combate a pandemia da COVID-19, no isolamento do país, na polarização nacional, no afastamento dos aliados tradicionais da OTAN, dentre outras políticas. Para tanto, o documento usa uma linguagem mais diplomática e explicitando de forma muito clara os objetivos transnacionais, ou seja, explicita as prioridades do governo para enfrentar as ameaças e aproveitar as oportunidades.

Também, vimos a manutenção de certas políticas do governo anterior, como a designação das principais ameaças aos EUA, com destaque para a China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Dessas ameaças a preponderante continua sendo a China por suas potencialidades.

O documento menciona a crises do Iêmen, e envia mensagens diretamente à China sobre o apoio a Taiwan e as violações dos direitos humanos no em Hong Kong, Xinjiang, e Tibete.

Nesse diapasão o documento pode ser resumido em alguns pontos principais:

  1. a importância da liderança e do engajamento estadunidense no mundo para voltar a organizar a comunidade internacional, onde se isso não acontecer poderá outro país assumir essa posição ou o mundo poderá mergulhar num caos;

  2. a necessidade dos países cooperarem, em que é uma crítica velada ao governo anterior, e a tentativa de apagar a imagem dos EUA da era Trump;

  3. a importância de manter o poderio militar dos EUA, mas sendo o último recurso a ser empregado, pois a diplomacia será a principal ferramenta na solução dos conflitos, tensões e crises;

  4. combate à pandemia da COVID-19, por meio do fortalecimento da segurança sanitária mundial, bem como da cooperação mundial em todos os níveis. Dessa forma, demonstra uma grande preocupação com as possíveis variantes e afirma que a vacinação é fundamental. Além disso, haverá apoio a inteligência sanitária, visando evitar futuras pandemias. É digno de nota que o governo Trump diminuiu os recursos para esse setor;

  5. ajuda econômica tentando reverter a crise provocada pela pandemia, pois somente uma economia em crescimento, tanto no país quanto no mundo, é que poderá ajudar a sociedade estadunidense teu uma vida melhor com maiores oportunidades e bem-estar. Ademais outras políticas devem ser adotadas para isso, como: proteção a propriedade intelectual estadunidense, combate a corrupção, acordos econômicos justos etc;

  6. defesa da democracia nos EUA e no mundo, pois se considera que ela esteja sendo ameaçada por alguns governantes e regimes totalitários. Em nossa visão é outra crítica a Trump, bem como uma mensagem aos governos populistas e nacionalistas de extrema direita, à China, e à Rússia. Além disso, deixa claro que irão preferir trabalhar e cooperar com regimes democráticos bem estabelecidos, pois consideram melhores parceiros e mais alinhados aos valores dos EUA, e considera que governos que tentam abalar a democracia não são confiáveis e que não estariam no interesse estadunidense;

  7. construção de um sistema de imigração justo e humano, em que é outra crítica ao governo anterior e mais uma tentativa de se melhorar a imagem do país no mundo;

  8. revitalização dos laços com os aliados e parceiros, cujo objetivo é sair do isolacionismo e enfrentar melhor as ameaças da China e da Rússia. Ademais, buscará consolidar alianças recentes como a chamada QUAD (EUA, Índia, Austrália e Japão). Menciona também os países do Oriente Médio, África e América Latina;

  9. enfrentamento da Emergência Climática e apoio a revolução da energia verde (energia de fontes renováveis), pois as catástrofes do clima tem se tornado uma ameaça aos EUA e ao mundo, além dos altos custos que resultam dos desastres ambientais. Para tanto, pretendem liderar o mercado da energia renovável no mundo;

  10. proteção da tecnologia estadunidense e a manutenção da liderança tecnológica mundial, pois a cada dia a tecnologia tem sido fundamental para a liberdade de expressão dos regimes democráticos, bem como para as guerras do futuro. Dessa forma, a tecnologia deve ser uma das formas de dissuasão estadunidense, além de aumentar a segurança e a defesa cibernética do país contra possíveis ataques;

  11. a forma de como se relacionará com a China, que é considera pelos EUA como o principal desafio do Século XXI, bem como lidará com as outras ameaças, como a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte ;

Ao vermos os pontos principais listados acima, podemos inferir que não será fácil atingi-los, restando esperar como o atual governo dos EUA agirá frente aos desafios expostos, por meio de políticas que em futuro breve deverão ser expostas e implementadas.

O Blog é opinião de que o documento Interim National Security Strategic Guidance, é extremamente relevante e que deve ser alvo de uma análise pormenorizada do governo brasileiro, pois mostra como os EUA pretendem se relacionar com o mundo, e com certeza certas visões expostas nos impactarão de alguma forma.

Outrossim, veremos a continuação da disputa hegemônica entres os governos de Washington e de Pequim, onde a China deverá perder espaço político, em virtude do retorno dos EUA aos organismos multilaterais, e buscando recuperar a liderança mundial perdida, e com isso, de certa forma, tentará anular o softpower chinês.

O documento mostra a intenção dos EUA em tentar ser o estabilizador mundial, e que achamos isso muito difícil de ser atingido, pois estamos num mundo inseguro e imprevisível. Além disso, mantemos a nossa opinião de que estamos numa fase em que a geopolítica mundial está instável, sem uma liderança que a possa manter em estabilidade, ou seja, num mundo G-ZERO.

Qual a sua opinião? Os EUA conseguirão assumir a liderança mundial? Qual poderá ser o movimento chinês para se contrapor as iniciativas estadunidenses? O Brasil poderá ser impactado pelas visões desse documento?

Seguem alguns vídeos para nos ajudar nas análises:

Matéria de 03/03/2021:

Matéria de 04/03/2021:

Matéria de 04/03/2021:

Matéria de 03/03/2021:

Matéria de 03/03/2021:

Matéria de 05/03/2021: