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A nova aliança AUKUS, o desbalanceamento do Poder Naval, e os possíveis impactos geopolíticos.


Figura disponível em: https://www.deshabhimani.com/images/news/large/2021/09/00fl-966032.jpg

No dia 15 de setembro deste ano os EUA, o Reino Unido e a Austrália comunicaram ao mundo a formação da AUKUS que é uma aliança estratégica entre esses países nos campos de segurança e defesa, incluindo as áreas de inteligência artificial, tecnologia quântica e cibersegurança. Vemos que trata-se de uma aliança eminentemente anglo-saxã, e que já operam juntos no Five Eyes, que é voltado para a inteligência de sinais.

Dessa forma, como podemos ver na figura abaixo, trata-se de mais um grupo voltado para a segurança e defesa, que em nossa visão é complementar aos demais, e que, atualmente, possuem como objetivo conter o expansionismo chinês na região do Indo-Pacífico, como o QUAD.

Figura disponível em: https://www.economist.com/sites/default/files/images/print-edition/20210925_FBC387.png

Nesse sentido, vemos que em todos esses grupos tanto os EUA quanto a Austrália estão presentes, onde os estadunidenses seriam a "espinha dorsal"dessas parcerias estratégicas. No tocante a Austrália, devido as crescentes crises com a China, e com o fortalecimento do Poder Naval chinês, ela sente-se ameaçada com essa situação, e com isso vem investindo em suas forças armadas, notadamente a Marinha, bem como buscando alianças político-militares que possam garantir a sua defesa e soberania.

O Blog abordou a problemática sino-australiana nos artigos abaixo e que recomendamos uma releitura:

- "A crise sino-australiana: estudo de caso para o Brasil", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/a-crise-sino-australiana-estudo-de-caso-para-o-brasil, em que afirmamos que as relações entre os governos australiano e chinês estão muito abaladas, e encontram-se em seu pior nível de suas histórias. Além disso, mostramos como as relações entre eles se deterioraram a esse ponto;

- "A crise sino-australiana: estudo de caso para o Brasil, parte II. Não estamos aprendendo", acessível em https://www.atitoxavier.com/post/a-crise-sino-australiana-estudo-de-caso-para-o-brasil-parte-ii-não-estamos-aprendendo, onde mostramos a vulnerabilidade econômica australiana e as atuais consequências da crise atual entre a China e a Austrália;

- "Aliança Índia e Austrália: contenção contra a China", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/aliança-índia-e-austrália-contenção-contra-a-china , em que afirmamos que a Índia e a Austrália não concordam com a geopolítica agressiva chinesa nas suas áreas de influência. Ademais, as tensões recentes entre China e esses países auxiliaram no aumento da aproximação entre eles, com o intuito de fazer frente a potenciais ameaças externas, no caso o governo de Pequim.

Nesse cenário, era esperado o surgimento de novas alianças anti-China na região do Indo-Pacífico com a participação australiana, conforme abordamos no nosso artigo "Os "Wolf Warriors" e a diplomacia agressiva chinesa", que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/os-wolf-warriors-e-a-diplomacia-agressiva-chinesa. Nele, dissemos que a postura atual da política externa chinesa dificultará o atingimento dos objetivos geopolíticos por esse país, em virtude do aumento da sua rejeição por parte da comunidade internacional, que poderá ensejar o aumento de formação de alianças militares e comerciais para fazer frente ao expansionismo chinês.

Destarte, vemos abaixo que essa nova aliança na região do Indo-Pacífico apresenta um Poder Naval considerável, e que traz certo alívio a Austrália, pelos laços militares históricos que esses países do AUKUS possuem entre si, como a participação em conflitos lutando sempre alinhados aos EUA.

Figura disponível em: https://pbs.twimg.com/media/E_zhTCeVIBARL9N.jpg

Porém, um detalhe muito relevante da AUKUS e que altera muito a balança do poder militar na região é o compromisso dos EUA junto aos australianos de prover cerca de 8 submarinos de propulsão nuclear, num acordo em que as cifras ainda não estão claramente definidas, bem como ainda não se sabem os detalhes de como se dará esse evento. Espera-se que até 2040 a Austrália esteja de posse de alguns deles. Convém, mencionar que os referidos submarinos não empregarão armas nucleares, assim como o futuro submarino de propulsão nuclear do Brasil.

É digno de nota que a Austrália será o primeiro país a possuir submarinos nucleares, sem ser um Estado nuclear o que é uma exceção a regra.

Com isso, será o sétimo país a possuir submarino nuclear. Sendo assim, isso poderá contribuir para que os australianos desenvolvam a tecnologia nuclear no país.

Figura disponível em: https://www.naval.com.br/blog/wp-content/uploads/2021/09/AUKUS-5.jpg

Tal oferta teve como resultado o cancelamento do contrato bilionário de construção de submarinos convencionais entre a França e a Austrália, o que foi considerado pelos franceses uma verdadeira traição por parte dos estadunidenses e australianos, pois em nenhum momento o governo de Paris foi consultado sobre o assunto.

Além da perda financeira financeira por parte dos franceses, as relações políticas ficaram estremecidas entre os países da AUKUS e a França, notadamente com os EUA.

Porém, pelo lado australiano é compreensível a importância de se ter um submarino de propulsão nuclear, quando analisamos a figura a seguir. Nela podemos constatar que os submarinos convencionais possuem uma capacidade menor de patrulha nos pontos focais, que são estratégicos para a segurança das Linhas de Comunicação Marítimas, que os nucleares.

Ademais, os submarinos nucleares irão prover uma maior capacidade de dissuasão estratégica para os australianos contra os chineses, contribuindo para a sua defesa, e assim sendo diminuindo a sensação de insegurança.

Fonte: Center for Strategic and Budgetary Assessments (CSBA) - https://csbaonline.org/

A AUKUS permite análises geopolíticas interessantes e que tentaremos trazer ao leitor algumas de nossas avaliações para reflexão:

A) a aliança é bem vista pelos países asiáticos, principalmente os da região sudoeste que estão disputando com a China soberania referente ao Mar do Sul da China. A perspectiva deles é que enxergam na AUKUS mais uma possibilidade de conter a política coercitiva chinesa sobre eles. Entretanto, existe um temor da ocorrência de uma maior corrida armamentista na região, o que já vem ocorrendo;

B) é um alento para Taiwan, pois aumenta a pressão militar sobre a China;

C) ratifica a nossa análise sobre a postura do Reino Unido em tentar voltar a ser uma potência naval global, cujo um exemplo foi o envio do Grupo-Tarefa baseado em seu porta-aviões para o Mar do Sul da China. Essa percepção foi analisada em nosso artigo "O retorno do Reino Unido - ressurgimento da potência britânica?", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/o-retorno-do-reino-unido-ressurgimento-da-potência-britânica, nele afirmamos que o Reino Unido tem a intenção de deixar de ser uma potência média e voltar a ter o protagonismo geopolítico no cenário internacional do passado. Para isso, tanto o BREXIT, quanto o incremento no seu poderio militar nos leva a crer numa mudança em sua política externa, que deverá estar mais alinhada aos EUA, bem como tentará ser a potência europeia dominante, rivalizando com o projeto francês. Dessa forma, acreditamos que poderá surgir uma nova era de rivalidades entre a França e o Reino Unido;

D) dificulta o projeto francês de Macron de liderar a União Europeia, com a saída de Angela Merkel do poder na Alemanha, tanto politicamente quanto militarmente, bem como em ser um protagonista global, como abordamos no nosso artigo "França: a super potência europeia? Conseguirá ser protagonista global?", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/frança-a-super-potência-europeia-conseguirá-ser-protagonista-global , em que falamos que a França tenta se consolidar como a principal potência europeia, e como uma potência global autônoma com capacidade de influenciar outros países, para tanto vem criando um projeto europeu baseado em seus valores. Dessa forma, podemos compreender as razões da atitude independente francesa perante os EUA, a China e a Rússia, bem como a sua assertividade de sua política externa.

Em nossa visão, o fato de ela não ter sido consultada sobre a oferta estadunidense de submarinos nucleares para a Austrália envia uma mensagem de que a França não é tão importante na geopolítica do Indo-Pacífico, em que pese ela ter planos planos para a região;

E) o comunicado sobre a AUKUS quase que concomitante com a estratégia da União Europeia - UE para a região do Indo-Pacífico diminui a importância política da iniciativa da UE perante os países do sudoeste asiático, e com isso o seu esperado protagonismo. Além disso, aumenta a desconfiança e o distanciamento europeu com a política externa dos EUA, o que se iniciou com Donald Trump;

F) os EUA aproveitaram a oportunidade para tirar o foco interno e externo do fiasco da retirada do Afeganistão, "virando" definitivamente a página do conflito naquele país. A atitude estadunidense demonstra a importância geopolítica da Austrália para os EUA, bem como na confiança que possuem entre si;

G) a Austrália se transformará em uma potência naval relevante na região. Quando observamos atentamente a figura sobre os submarinos nucleares, veremos que ela se igualará a França e ultrapassará a Índia nesse quesito. Outrossim, esse acordo que prevê submarinos nucleares dos EUA faz com que os australianos fiquem "presos" aos estadunidenses, pois sinalizaram de forma transparente e objetiva de que lado estarão por ocasião de um cenário de conflito no Indo-Pacífico;

H) a China já sente os efeitos de ser desafiada militarmente pela AUKUS, o que fará aumentar a rivalidade com os EUA, no tocante a disputa pela hegemonia mundial;

I) acreditamos que a Índia poderá ser beneficiada pelo cancelamento do contrato australiano, com uma possível parceria de construção de submarinos com a França;

J) a oferta estadunidense de submarinos nucleares a Austrália ratifica a nossa opinião de que não é do interesse dos EUA que o Brasil tenha capacidade de: desenvolver submarinos com propulsão nuclear, ter tecnologia própria para construção de reatores e enriquecimento de urânio, em que pese sermos aliados do governo de Washington, conforme analisamos no nosso artigo "Brasil: conseguiremos ser uma potência militar nuclear?", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/brasil-conseguiremos-ser-uma-potência-militar-nuclear. Além disso, temos a plena certeza de que a Austrália não passará pelos mesmos procedimentos de inspeção internacional que o Brasil se expõe, e com isso continuaremos a ter o único programa militar do mundo que se submete a salvaguardas internacionais, pois continua sendo visto com desconfiança pelas potências ocidentais.

O Blog é de opinião de que a tensão permanecerá elevada na região, mas ainda achamos que é pouco provável a ocorrência de um conflito aberto, pois caso ocorra e a China leve grande desvantagem, poderá ocorrer um ataque nuclear chinês as forças adversárias na região, com o intuito da manutenção do Partido Comunista Chinês no poder, já que estaria sob forte pressão interna. Esse cenário não é do interesse de nenhuma das partes.

Como a AUKUS altera o balanço do poder militar na região em favor dos aliados dos EUA, esperamos que o governo de Pequim aumente os investimentos do seu poder militar, o que poderá abalar e ruir a economia chinesa, assim como ocorreu com a ex-União Soviética no período da Guerra Fria.

É interessante relembrar que em nossas análises sobre os chineses, e que constam na nossa Seção China, afirmamos que o governo de Pequim espera atingir o "sonho chinês"até 2049, não sendo uma mera coincidência a Austrália possuir submarinos nucleares até 2040.

Cabe-nos acompanhar como será a resposta chinesa a esse movimento de xadrez geopolítico dos EUA.

Qual a sua opinião sobre o assunto?

Seguem alguns vídeos para auxiliar as nossas análises:

Matéria de 17/09/2021:

Matéria de 21/09/2021:

Matéria de 23/09/2021:

Matéria de 22/09/2021:

Matéria de 16/09/2021:

Matéria de 21/09/2021:


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