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40 anos da Guerra das Malvinas - Reflexões para a Defesa Brasileira.


Figura disponível em: https://es.mercopress.com/data/cache/noticias/81368/600x315/falklands-40-aniversary-war.jpg

Neste ano a Guerra das Malvinas, ou Falklands, entre a Argentina e o Reino Unido completa 40 anos.

Esse conflito, em que os britânicos saíram vencedores, se reveste de grande importância, pois foi a última guerra naval e aeronaval entre dois Estados, resultando em mudanças doutrinárias e táticas em várias marinhas, bem como resgatou a importância do canhão naval, pois acreditava-se à época que ele seria substituído pelos mísseis.


Figura disponível em: https://www.enabed2018.abedef.org/resources/anais/8/1535667141_ARQUIVO_DuarteMachado2018-ArtigoENABED.pdf

Outrossim, após o conflito, e com a derrocada da ditadura do General Leopoldo Galtieri, podemos observar uma grande degradação das forças armadas argentinas e que até hoje, notadamente a Armada Argentina, sofrem os impactos dessa época.

De acordo com o trabalho intitulado "A GUERRA DAS MALVINAS: O PLANEJAMENTO ARGENTINO E O EMPREGO DA FROTA DO MAR SOB O PONTO DE VISTA DA ESTRATEGIA OPERACIONAL", de 2010, do Oficial da Armada Argentina CF MIGUEL ANGEL MARCHESE, disponível em https://www.marinha.mil.br/egn/sites/www.marinha.mil.br.egn/files/CF%20%28ARG%29%20MARCHESE.pdf, a marinha do seu país não estava preparada adequadamente para a disputa. Tais palavras merecem especial atenção e reflexão, bem como servem como advertência:


"Do mesmo modo a idade avançada dos meios navais, os baixos níveis de adestramento das tripulações são alguns exemplos que este tempo oportunidade não esteve a favor, entretanto deixa uma particular lição: é de vital importância a permanente preparação das Forças Armadas onde todos os militares devem estar preparados para serem empregados a qualquer momento para a defesa e glória de sua pátria. [...] A defesa das Ilhas, quer dizer a consecução das ações, deviam ter sido planejada com informações instantâneas e sem sombra de dúvidas de forma conjunta, onde as limitações de cada Força ficariam evidenciadas no processo de integração. Sem dúvidas a presença dos submarinos nucleares ocasionou uma forte dissuasão no Teatro de Operações pela valiosa arma estratégica que representa. Sua presença condicionou seriamente o emprego da Frota do Mar visto não possuir meios que pudessem fazer frente a esta ameaça. Tanto hoje como no passado dispor de uma arma desta magnitude impõe ao oponente um sério dilema quanto ao emprego de suas Forças Navais. Fica claro também a aliança estratégica à época entre o RU* e os EUA, demonstrado pelo apoio logístico, de inteligência (satélites) e armamentos recebidos em1982."

* Reino Unido - RU


Pelo outro lado, a governante britânica Margaret Thatcher passava por momentos difíceis no governo, e a vitória do Reino Unido possibilitou a sua reeleição. Ademais, os britânicos vêm aumentando a militarização das Falklands com o intuito de possibilitar a defesa contra uma possível nova investida argentina. Assim, possuem uma maior guarnição militar, aeronaves como caças Eurofighter Typhoon (cerca de 4), sistemas de defesa antiaérea e um navio realizando patrulha em caráter de rodízio. Acordo informações, existe a intenção de se construir em Port Stanley, nas Falklands, um porto que permita a atracação de navios de maior porte.

As Falklands possuem uma grande importância estratégica e geopolítica para o Reino Unido, pois contribuem, devido a sua localização, para um possível controle da rota marítima que passa pelo Estreito de Magalhães, bem como são relevantes como base de apoio operacional e logístico à exploração e a uma possível disputa pelo território antártico.

É digno de nota que na área marítima das Falklands existem reservas de petróleo e gás, o que têm levado a novas disputas entre os dois países. Um exemplo são sanções argentinas, estabelecidas em 2021, às empresas que por ventura venham a explorar essas fontes energéticas em águas das ilhas Malvinas, na plataforma continental argentina, sem autorização governamental.


Figura disponível em: https://www.economist.com/sites/default/files/images/2014/02/blogs/americas-view/20140301_wom991.png

Ademais, relembramos o que citamos no artigo "As pérolas inglesas no Atlântico Sul e a sua importância estratégica", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/as-pérolas-inglesas-no-atlântico-sul-e-a-sua-importância-estratégica:


"Duas dessas ilhas possuem bases inglesas: Ascensão e Falklands, permitindo que o Reino Unido possa ter apoio logístico para os seus meios aéreos e navais na área do Atlântico Sul, a fim de fazer valer a sua soberania em seus territórios ou apoiar alguma operação em um dos continentes mencionados acima. Outrossim, não podemos esquecer do direito da exploração econômica exclusiva em torno dessas ilhas por parte Reino Unido, num raio de 200 milhas náuticas. Um exemplo da importância militar de possuir tais ilhas pode ser verificado durante a Guerra das Malvinas, onde a Ilha de Ascensão foi empregada como base para os bombardeiros Vulcan."

Figura disponível em: https://www.atitoxavier.com/post/as-pérolas-inglesas-no-atlântico-sul-e-a-sua-importância-estratégica

Convém lembrar que os EUA no conflito em questão, em que pese adotar uma posição de neutralidade, apoiaram os britânicos com informações de inteligência, recursos satelitais, fornecimento de combustível de aviação e de armamentos, como centenas de mísseis Sidewinder. Além disso, havia a possibilidade de emprestar um dos seus porta helicópteros ao Reino Unido para o caso de perda dos porta-aviões britânicos no conflito. Esses dados corroboram as palavras do Oficial argentino citadas anteriormente.

Esse conflito nos trouxe vários ensinamentos, como podemos ver abaixo:


- necessidade de termos um Poder Naval condizente com os interesses do país, e que não esteja em processo de obsolescência e nem com baixo nível de adestramento;


- a importância do submarino nuclear na guerra naval, ou como arma de dissuasão;


- a relevância da interoperabilidade entre as Forças Armadas na defesa da soberania;


- que numa disputa de soberania de países da América do Sul com o Reino Unido, ou com aliados ocidentais estadunidenses, os EUA sempre apoiarão os seus aliados tradicionais;


- a relevância de um bom apoio logístico móvel;


- a importância de alianças militares estratégicas; e


- a necessidade de se ter tecnologia militar própria.


Nesse sentido, vemos que a maioria do que foi listado acima depende da compreensão e da vontade do Poder Político com os assuntos de Defesa, possibilitando ao Poder Militar investir na preparação de suas Forças.

O artigo "O impacto da Guerra das Malvinas/Falklands no pensamento da Marinha do Brasil", que pode ser lido em https://www.enabed2018.abedef.org/resources/anais/8/1534787660_ARQUIVO_OimpactodaGuerradasMalvinasnaMarinhadoBrasil.pdf, nos mostra as lições da Guerra das Malvinas para a Marinha do Brasil e que recomendamos a leitura. Nele, veremos que, até hoje, a nossa Marinha busca atingir os objetivos descritos na matéria, e que coincidem com algumas de nossas conclusões anteriores.

Dessa forma, ao lermos novamente o nosso artigo "Como planejar uma Marinha de Guerra? Tema para reflexão da sociedade.", disponível no Blog em https://www.atitoxavier.com/post/como-planejar-uma-marinha-de-guerra-tema-para-reflexão-da-sociedade, veremos a afirmação de que estamos no cenário 4: "O Estado tem uma Marinha, mas que em virtude de problemas econômicos ou por decisões políticas seja reduzida a uma Força que não possua uma capacidade razoável de: dissuasão, controle e/ou negação de uma área marítima, projeção de poder, garantir os interesses nacionais no exterior e de contribuir para a segurança e a paz internacional por meio de operações multinacionais. Esse cenário ocorreu com muitos países, e que historicamente acabaram por enfrentar problemas de disputas marítimas em situação precária". Com isso devemos ser inseridos na situação 3 (ler no artigo em referência). Para tanto, ratificamos a nossa análise de que devemos implementar uma Estratégia Marítima para o Século XXI, visando planejar uma Força de acordo com as aspirações da sociedade brasileira. Outrossim, é importante que a nossa sociedade reflita sobre qual Marinha ela deseja, e exija dos parlamentares (poder político), que são os seus representantes, que sejam previstas as condições necessárias para a modernização e construção de sua Força Naval, sob a pena de enfrentar problemas futuros. É digno de nota que no Século XX as principais ameaças ao Brasil vieram do mar, com isso a criação de uma mentalidade marítima em nossa sociedade é fundamental. Ademais, no atual Século, algumas ameaças a nossa soberania começam a se apresentar.

Cabe frisar que de acordo com o nosso artigo "Análise da pesquisa sobre possíveis tendências e cenários, até 2040, que podem impactar o Brasil", que pode ser lido em https://www.atitoxavier.com/post/análise-da-pesquisa-sobre-possíveis-tendências-e-cenários-até-2040-que-podem-impactar-o-brasil, afirmamos que o espaço marítimo se apresenta como o palco de futuros conflitos entre os Estados, e que aqueles que não tenham uma boa capacidade dissuasória ou não estejam preparados poderão ter as suas soberanias no mar colocadas à prova. Assim, o mar além ser uma via de passagem e de comércio global, ganha maior relevância como "território". Dessa forma, conseguimos entender melhor o fenômeno de "territorialização" do mar, onde verificamos como alguns exemplos: a construção de ilhas artificiais pela China no Mar do Sul da China, bem como a bandeira russa fincada no fundo do Oceano Ártico.

A Argentina continua pleiteando o seu direito de soberania sobre essas ilhas, e recentemente o presidente argentino Alberto Fernández, em reunião com o líder chinês Xi Jinping, conseguiu o apoio do governo chinês, em que este reconhece o direito argentino sobre as Falklands, e em contrapartida a Argentina reconhece o direito chinês sobre Taiwan. Tais declarações foram fortemente criticadas pelo Reino Unido, que não abre mão do direito britânico à posse das ilhas.

O nosso país que sempre reconheceu o direito argentino sobre as Falklands, e que não apoiava a sua militarização pelo Reino Unido, tem permitido que aviões de carga britânicos transportem material militar para as ilhas, indo de encontro a sua histórica posição, desde 1833. Essa atitude foi alvo de reclamações diplomáticas do governo argentino, desgastando a relação entre os países.

O Blog é de opinião de que passados 40 anos da última guerra naval, o tema continua relevante e atual, ainda mais quando estamos vivendo numa era de novas disputas no mar, o que ratifica a nossa análise constante no artigo "Brasil: precisamos ter uma estratégia marítima para o século XXI", disponível em https://www.atitoxavier.com/post/brasil-precisamos-ter-uma-estratégia-marítima-para-o-século-xxi .

Qual a sua opinião? A presença militar britânica, cada vez mais maior, no Atlântico Sul deve ser acompanhada com atenção, devido a Antártica? Os EUA manterão a neutralidade esperada em caso de disputas marítimas entre o Brasil e os aliados ocidentais estadunidenses?

Seguem alguns vídeos para ajudar em nossa análise:

Matéria de 08/02/2022:

Matéria de 05/01/2022:

Matéria de 29/01/2022:

Matéria de 09/02/2022:

Matéria de 12/01/2022:

Matéria de 09/02/2022:

Matéria de 05/01/2022:

Matéria de 05/01/2022:

Matéria de 14/03/2021:

Matéria de 14/05/2021:




1 comentário


Excelente artigo, pois trouxe um panorama muito completo dos aspectos geopolíticos do conflito. A meu ver, este conflito também evidenciou algo sobre as ditaduras latino-americanas, que seria uma nefasta habilidade para torturar e tirar direitos civis, mas vilipendiaram o aparelhamento das suas forças armadas.

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